Ficar por aqui

                                                                                  Pierre Bonnard-Le terrace a Vernonnet, 1939

Os pés sentiram o fresco do lajedo, por entre alguns grãos de areia e pó. Cabelos de ervas eriçadas cresciam entre as pedras, sobre a terra quente. Na paisagem verde lisa, os corpos brancos das vacas como manchas geométricas. Aos poucos começava o rebuliço normal das manhãs na casa, lá dentro. Os passos apressados dos mais novos que desciam as escadas numa correria cega, o tiritar dos copos e pratos na cozinha, as vozes barulhentas e o cheiro das torradas com compota.

Margarida avançou, ainda de roupão, com uma chávena de café a fumegar. Estás descalço? Perguntou, olhando os pés longilíneos onde se notavam os ossos que marcavam a carne.
Já viste como a chuva do inverno pinta o campo de verde? Quem diria depois de anos de secura. Sentia-se bem ali sentado, a cabeça pesada e preguiçosa.
A varanda percorria toda a frente da casa, era aí que se passavam os serões no verão, ou o saborear do café de manhã . Ali, com o sol ainda morno a lamber a paisagem, que se estendia até à linha sinuosa e azulada da montanha no horizonte. Quando o campo era trabalhado e remoído na terra, eram geometrias de castanhos e ocres que constrastavam com as fileiras das árvores, plantadas sobre os trilhos rasgados pelos burros que puxavam o arado ferrugento.
Diferente da vista que tinha do seu apartamento na cidade, a dezenas de metros do solo, empoleirado na metrópole densa e erecta, que lhe entrava pela janela enorme de vidro. De dia em reflexos transparentes, de noite em luzes fantasmagóricas multicolores. E o barulho dos carros, das buzinas, dos apitos dos barcos lá longe junto ao porto.
Tive saudades de ti misturadas com saudades de tudo. Sabes que podemos confundir aquilo que nos falta? É bem mais fácil controlar o que está ao nosso lado.
Quando subia os muitos andares no elevador escuro, que rangia em madeiras poeirentas, imaginava-te, e já te sentia à espera lá em casa, quando abrisse a porta. Sentada com as pernas dobradas e os pés no sofá, a cabeça pendurada na mão de um braço dobrado em v.
Voltou a olhar as vacas brancas como manchas de tinta numa tela de cor. A criançada, ainda de olhos remelados, abocanhando os últimos pedaços de pão torrado, que caía em migalhas no chão, para delícia das galinhas que sorrateiramente se aproximavam.
A vida tinha mudado como uma estação. Aos poucos foi-se moldando entre muros, adaptando-se conforme o vento.
Quanto tempo ficas?
Não sabia. Programar o tempo era difícil, até porque não gostava de arrumar a vida em prateleiras. Sentia esse correr de um sítio para o outro, a ganhar saudades em viagens. Será que tudo isto faz sentido? Viver assim? Assim como? Assim, sem saber para onde vamos.

Um bando de rolas atravessou o céu, silenciosas como se fossem nuvens, o fumo de uma queimada trazido pelo vento, a picar o nariz.
Lá fora o mundo organizava-se, era tudo mais simples, sem perguntas que se faziam difíceis.
Apeteceu-lhe ficar, por uns tempos, e esqueceu-se das saudades que tinha tido.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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10 respostas a Ficar por aqui

  1. Gostei dos silêncios e gostei das palavras.
    Do sol morno e do vento.
    Das emoções nas saudades
    Do barulho misturado
    A resgatar paisagens .
    Num fundo manso de girassol

  2. Marta Elias diz:

    Gosto quando me esqueço que estou a ler, quando no fim o que fica é a sensação de ter estado a ver.
    Escrever assim é uma arte.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Muitas vezes esqueço que estou a escrever, os dedos tocam, como que já ensinados, nas teclas inertes. Obrigado pelo seu comentário, bonito, simples, mas profundo.

  3. é bom conseguir fazer o ‘longe’ perto

  4. Pedro Marta Santos diz:

    Gostei do quadro, que não conhecia. E gostei do texto, Bernardo.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Obrigado Pedro! Penso que o quadro, relativamente tardio na obra do Bonnard, segue uma composição que o pintor já tinha testado. O que mais aprecio é que Bonnard consegue “pintar” a luz do sol, que se reflecte nos vários objectos e em toda a composição de forma diferente, do roxo ao laranja e ao dourado.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Está um tempo de se esquecerem saudades. Bem dito, Bernardo.

  7. maria poppe diz:

    gostei muito Bernardo… e é tão verdade… podemos ter saudades misturadas e confundimos muitas vezes aquilo que nos falta… e sim, é preciso esquecer as saudades, mas para isso é preciso tê-las! um beijo

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