Fuga em Dó Maior para Imprensa e Cavaquinho

Sem barganha, chantagem, investimento em reportagem investigativa, custosa, de risco. Uma pauta como pede o figurino. E, ao invés disso, jovens e talentosos jornalistas, como Daniel Piza, é que se vão. E o velhinho aqui, firme. O sorriso do velhinho rende-lhe centros culturais nas Astúrias e um bocado de dividendos. Outros de esquerda, que passaram terríveis apertos não ousariam sonhar com o glamour de sua vida, entre presidentes, politicos influentes, ministros, executivos de transnacionais e uma proverbial abundância de mulheres bonitas. Inspirada numa vida assim há certo filme em que Jean Paul Belmondo faz o papel dele: O Homem do Rio.

Há anos os necrológios perseguem Niemeyer como galgos. E farejam-no o corpo franzino por todos os poros, resfriados, internações, vesícula, boletins. Eles já estão meio pra fora das gavetas, dos arquivos feito língua de sogra. Que estão prontos há anos faltando só a causa mortis, todo mundo sabe. Mais que prontos. Já passaram um pouquinho do ponto como um ananás roído pelo calor de fevereiro. E nada. 

Em 2009, grande esperança, o decano foi hospitalizado às pressas. Desse mato sai cachorro, apostaram as editorias. Certo amigo me escreveu de São Paulo solicitando um artigo para ontem. Qual o quê, alarme falso. Mais falso que certos implantes de silicone ou o amplo conhecimento náutico do comandante Francesco Schettino. Era apenas um problema de vesícula. O velhinho, por birra decerto, até casou uns cinco anos atrás. 

Um século e quatro anos. Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares Filho tinha sete anos ao tempo da Primeira Guerra. Quando veio a Semana de Arte, bem podia tê-la assistido, do alto de sua adolescência. Para a imprensa, ah, como seria providencial que o último modernista, o derradeiro daquela estirpe de intelectuais monopolistas e mercuriais, que praticamente reinventaram o país, morresse nesta calmaria pré-carnavalesca. É todo o assunto que os jornais e os portais desejam: luto, revisão da biografia, imensas fotos, longos vídeos com os palácios de Brasília, a Pampulha, o Copan, o prédio do Ministério da Educação e Saúde, O edifício da Onu, a Sede do Libération, o Casino de Funchal; e para adiante, mundo afora, muitos croquis depois. Seria uma pauta e tanto. Pauta merca. Comprada a peso de nada. Sonho dourado dos editores da vez. 

Fora de dúvida e até nisso de morrer, Niemeyer é o comunista mais esperto que já existiu. Carioca, ele tem uma voz dengosa, de mineiro. E uma matreirice mais que mineira, mineral, que dá de dez na malandragem do Rio. A mesma que fez Otto Lara Rezende dizer que mineiro só é solidário no câncer. Aos 104 anos, dizem que ainda vai trabalhar. Não é certo se chega a debruçar-se sobre a prancheta e extrair esboços como um recém-formado. Mas os amigos dizem que reserva um tempo ao fim da tarde para tomar seu malte, fumar um puro, e contemplar as meninas nas areias de Copacabana. 

Vai nisso uma receita?

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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13 respostas a Fuga em Dó Maior para Imprensa e Cavaquinho

  1. manuel s. fonseca diz:

    Ruy, e sua desaforada prosa me levanta uma dúvida: tem a certeza de que Oscar Nimeyer não é Manoel de Oliveira? Lembrança que deixa-me roendo com a dúvida: será que Manoel de Oliveira não é Oscar Nimeyer?

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    manuel, prezado, sempre desconfiei que havia duplos daqui aí. ou vice-versa. manoel de oliveira, a personalidade, já me agradava das entrevistas. mas passou a me agradar ainda mais depois de lê-lo através de suas crônicas por aqui ou no expresso. cheers!

  3. Teresa Conceição diz:

    Quanto à receita de vida, não sei se o senhor de Oiveira segue alguma parecida ao duplo, mas diz que continua a trabalhar sempre no próximo filme.
    A contemplação também é coisa muito portuguesa, meninas e praias abundam. Pelos vistos temos tudo para longa vida. Só nos falta tê-la. E Copacabana, mas essa há só uma.
    Belo texto, Rui.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      teresa, querida, mil desvios, curvas a torto, a direito no texto, e você vai direto ao ponto: só nos resta tê-la. mas tê-la é um tanto inconcienciar-se dela, como os zen fazem. ou não? e, no mais, que cada um ache sua copacabana. pois as há.

  4. Diogo Leote diz:

    Ruy, Niemeyer e Oliveira só podem ter bebido da mesma receita, a tal que nós, os simples mortais, desconhecemos. Mas lá que continuar a contemplar umas meninas no areal deve ajudar, disso ninguém tem dúvidas.

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    pois então, diogo, diria que não só essa visão das minas a preceder o mar pode ser nossa, mortal, mas também esse senso de ter de fazer algo. possuir um projeto, um por diante. e nunca jubilar-se.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Ver meninas e, de preferência, com o mínimo de roupa em cima, é uma recomendação fundamental (e fundamentada) para a boa função cardíaca. É empírico, logo está certo.
    Grande texto, Ruy, assim ele ainda vai durar mais uns anos, pela certa.
    E quanto a contas: o Braga está empatado (temporariamente, que nós jogamos amanhã e vamos ganhar!) com o FCPorto.
    Convém agora é que os benfas tropecem…

    • Ruy Vasconcelos diz:

      é isto. aqui, o mínimo é o máximo, sem dúvida, antónio. e sorte às equipas nortenhas. por acaso há um celta em portugal também? ou só em vigo?

  7. Pedro Norton diz:

    Caro Ruy, Fiquei com vontade de reler Afirma Pereira de Tabuchi. Você leu?

    • Ruy Vasconcelos diz:

      pois então. tem algo não? e mais agora com tantas polêmicas sobre jubilamentos e pensões, pedro.

  8. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro Ruy a inveja chega até à velhice! Como dizia outro arquitecto conhecido ” invejam-nos porque fazemos aquilo que gostamos”. O Oscar é o exemplo dessa força de viver entre as meninas “descascadas” na praia, as viagens em volta do mundo, e as obras que ficam para a história. Merece por isso qualquer homenagem, e que não o matem antes do tempo.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      parece que a inveja não tem idade, bernardo. mas bem, é fácil suscitá-la, como você aponta. fazer o que se gosta é já um passo primeiro e muito determinante nessa direção.

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