Humor gentil

Quando era miúdo, numa das muitas estantes paternas, dei de caras um dia com dois pequenos e curiosos livrinhos. Um azul e um vermelho. Lá dentro, um mundo de deliciosos cartoons. Alguns, um simples desenho. Outros, mais elaborados, em múltiplas páginas, ricos em personagens, rapidíssimos na acção. E embora por vezes não fáceis para os meus oito anos, foram, durante muito tempo, o humor mais adulto que conheci no papel. Por baixo, o sempre gentil autografo. Sempé.

Hoje passados tantos anos sei que os meus primeiros Sampés são efectivamente os primeiros dele também. Eram o Rien n´est simple de 1961 e o Tout se complique de 1962. De Sempé ficou-me para sempre a ideia de um humor delicado, parisiense, feito de vestidos floreais e Citroëns 2CV. De anafadas matronas e de maridos revoltados. De psicólogos apaixonados e de solitários tocadores de trompa. Um conceito de humor que, pensando melhor, não sendo tão delicado quanto possa parecer numa primeira leitura, creio que se tenha quase extinto. Em mim ficou-me impressa para sempre a sua arte gentil e apesar de o ter posteriormente soterrado debaixo de pesados estratos de humores mais Belgas e Anglo-saxónicos e por isso talvez, mais dados à gargalhada, Sempé subsistirá sempre como um autor a quem basta um sorriso. E por vezes nem isso é necessário. Basta um discreto levantar do canto da boca, ou um semi-cerrar de pálpebras. O humor de Sempé vive agarrado às coisas simples da vida. Para mim, o humor de Sempé realiza-se todos os dias no caniche da minha vizinha de baixo.

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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4 respostas a Humor gentil

  1. Acho que ainda tenho esses dois livros.
    Vou procurar, eram do meu pai que um dia mos deu dizendo:
    – Inteligente!

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro Vasco, ser triste é também assumir o pouco que sei…tenho uma vaguíssima memória duns antigos cartoons franceses em tons de sienas e personagens com lenços ao pescoço… Mas pelos vistos Sempé é outra coisa. A imagem escolhida é fabulosa…o “dégradé” abstracto e os bem comportados espectadores. Vou investigar!

  3. O Eco de Umberto diz:

    et toc, como diria Achille Talon.

  4. teresa conceição diz:

    Nunca tinha pensado num adjectivo para classificar o traço de Sempé.
    Conheci-o primeiro nas aventuras do Petit Nicolas do Goscinny. E iluminavam tão bem o texto que colei o traço às tropelias da escola. E depois quando mais tarde li os desenhos sozinhos, foi uma surpresa ver como tinham texto dentro, e o humor era quase outro. Mas sempre delicado. Gentil é uma palavra muito bem encontrada. Com o resto do texto a condizer. A abanar a cauda como um caniche.

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