I Like Art

 

pilhado com a devida vénia *

É de ir a correr a Serralves ver “Outra vez não, Batarda”. Depois de entrarem é para ver a marcar passo. Aquilo não é do tipo vai ser tão bom, não foi. Aquilo é uma pintura de minúcias, minudências de meio século mais do que ocasional filigrana.

Há alguma telas enormes. Mas há, sei lá se uma centena, pequeninas “folhas” que nos pedem para parar. Mandam-nos parar e falam connosco. Dizem-nos uma cambada de alarvidades. Sublimes, acrescente-se. E são, não se enganem, mais austeras do que desbocadas, embora sejam as duas coisas.

Na pintura pequenina de Batarda há tipos cheios de tesão, há mulheres a levar em tudo onde podem levar. Há 1974 e antes, operários e militares. Há a revolução reaccionária e a reacção revolucionária. Há a pobreza e a finança, ambas com a sua cagança. Podia dizer-se que há os burgueses alemães do Otto Dix se tudo aquilo, até as suásticas e são muitas, não resfolegasse Portugal.

Portugal de agora e Portugal de antigamente, às vezes em inglês e de bd americana, tudo visto com o humor que o Pacheco e o César Monteiro bem queriam. E se calhar é mal comparado: talvez esteja tudo mais próximo de outro Pacheco, Assis, que este Batarda é poético, não se deixando tombar para o abismo abjecccionista, apesar, aqui vai disto, dos grandes mangalhos e de tanta cona aberta de mais ou menos senhoras em pequenas aguarelas. E podiam ser anjos, mas são mais mulheres, correndo, correndo como éguas, pelos dias e pela noite.

Aquilo é uma exposição viva, uma conversa inventiva, de irrisão política, Portugal colonial, Portugal boçal, Portugal actual. Tem ritmos de publicidade, obsessões de Popeye e histerismos de Olivia Palito, palavrão de tasca, sonhos lunares de puto, a pop admiração basbaque do português, o mundo que nos fura pelos olhos adentro.

É, se lhe apetece, uma pintura narrativa. Se lhe apetece outra coisa, como parece que lhe anda agora a apetecer mais, é outra coisa e abstrai.

Eu, como se nota, não percebo pevide de pintura. A única coisa que mexe comigo é a narrativa. E, posso ter visto mal mas faço questão em ser sincero: o que vi, na narrativa deste “Outra vez Não, Batarda”, foi pintura de um amor profundo. De um tipo que ama, mesmo que saiba que nunca será amado. Não há amor mais desinteressado, não há amor mais desesperado.

* imagem do splendour in the grass que muito se agradece

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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16 respostas a I Like Art

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Vou ver!
    Convenceste-me.

  2. fernando canhao diz:

    Por 8.60 euros pode comprar o livro Fabulas fantasticas de Ambrose Bierce Edicao Estampa Livro B onde as imagens que tanto gostou se encontarm em 1a mao. Os textos de Bierce, o tal que desapareceu no Mexico com Butch Cassidy e Sundance Kid sao excelentes e os desenhos nao desmerecem. E claro ler depois todos os outros B, o que certamente ja tera feito.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Onde andarão os meus escuríssimos livros B, Fernando. Mas este de que fala (lá estava na exposição), não o filei. Tenho de me enfiar no primeiro alfarrábio, é o que é. Obrigado pela sugestão.

  3. pedro marta santos diz:

    Essa modéstia de não perceberes pevide de pintura… quase que me convenceste a ir ao Porto de propósito. E olha que eu só vou ao Porto de propósito por causa dos amigos e da família…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ó PMS vejo-te o perverso suficiente para gostares farturas do Batarda. se fosse a ti dava corda aos sapatinhos. Bora ao Porto!

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Eugénia, está a dizer que o meu texto é um comboio? Se leva as pessoas é como se eu fosse da CP, não?
    É tanta, muita, gentileza sua. Obrigado.

  5. Diogo Leote diz:

    Olha, a mim Manuel, acabaste de me dar o pretexto que me faltava para um fim-de-semana no Porto. Mas não acredito que a visita guiada esteja à altura do teu texto.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Vai lá Diogo, que Deus logo te abençoa e ainda algum anjo te leva pela mão. E os jardins de Serralves estão lindíssimos. Não vás é sozinho, ah,ah,ah,ah.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    A menina princesa alicia o pessoal é o que é: estes rapazes fazem o que a menina manda é o que é!

  7. Ana Vidal diz:

    Estive lá no fim-de-semana passado. Gostei muito, muito. Mas não tanto das minudências, que a caricatura e a BD nunca me reptaram por aí além. Às telas é que dobrei a espinha. Maravilha de traço, grande Batarda.
    Mas olhe que o seu texto não lhe fica atrás.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ana, também gostei muito dos novos caminhos que as telas mais recentes de EB mostram. Poéticas uma vez mais: uma certa escassez, a simulação da objectividade e frieza. Obrigado pelo seu comentário e pelo mimo final.

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