Memória tracejante

Memórias vividas e não vividas que se misturam e me confundem. Lagostas gigantes que se passeiam pelas praias de Luanda. Imperiais geladas como cá na metrópole jamais se viu. As roupas coloridas dos de lá pois que os de cá andam todos de cinzento. Os primos académicos de Lourenço Marques. Os cilíndricos sacos brancos de viagem com letras vermelhas da Tap a enfeitar. Mas lá estão sempre de férias? E depois também um tio regressado dos helicópteros da Guiné que chora perante as filhós do Natal. E as balas tracejantes que atravessam as noites do meu amigo Zé e a lembrança da sua mãe que tinha sido um corajoso toucinho do céu em guerra com a guerra. E depois as caixas e os caixotes e as malas a apodrecer nos cais do porto da minha Lisboa. E que afinal os retornados não eram pretos mas quase todos gente igual a nós. E depois também aquela noite no nosso Fiat 127 verde, embatendo contra uma barricada, e o meu pai revistado por soldados de barba longa, armados e de cara feia. Memórias vividas e não vividas em que tenho andado toda a semana por causa,

disto:

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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4 respostas a Memória tracejante

  1. há textos que são bálsamos

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Vasco, grande livro o da Dulce. Li num fôlego.

  3. Ana Rita Seabra diz:

    Já percebi que vale a pena ler!

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Tal como o Manel, tudo lido de rajada.
    Um dos melhores, se não o melhor romance português dos últimos tempos.
    DMC é um caso muito sério.

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