Memória tracejante #2

Guerra. A Guerra. A nossa Guerra. Ou antes, a Guerra deles. Pois que minha não creio que fosse. E pen­sando melhor, deles tam­bém pouco era. Eles que ainda no outro dia eram rapa­zes da metró­pole e que para lá foram e de lá vol­ta­ram e que agora estão ali, gri­sa­lhos, a comer aquele pas­tel de nata, ou acolá a com­prar o Expresso ou ainda aqui, no super­mer­cado, ao meu lado, com o olhar fixo no bri­lho arti­fi­cial de uma Euro-fruta. Creio que daquilo, daquilo que ver­da­dei­ra­mente lhes inte­ressa, pouco falam. Ou pelo menos pouco o fazem com os que como eu, dela, só ouvi­ram falar. Acho que ainda lá devem estar todos. De manhã à noite. No meio do mato e do silên­cio. Dizem que a Guerra é quase só silên­cio. Silên­cio e os ner­vos da espera. E quando ainda lá se está, à espera, em silên­cio, é nor­mal que disso, pouco se fale. E depois há os outros, os que nunca mais fala­rão. Outros, como o Hen­ri­que Costa e o Antó­nio Capela - ò Capela já estás à som­bra, pá! — ambos de Ponte de Lima e que pas­téis de nata nunca mais come­rão e que nem as mães das netas tive­ram tempo de fazer. A esses, nada resta senão dizer-nos, lá de onde quer que este­jam, se é que para algum lado foram, - Adeus e até ao meu regresso. Eu por aqui estou bem! -.

PS: O ser­viço jor­na­lís­tico é de uma equipa fran­cesa que entrou no ter­ri­tó­rio da Guiné circa 1970 acom­pa­nhando as tro­pas por­tu­gue­ses. Não ganha­ram para o susto. Aviso que as ima­gens, das pou­cas não pro­du­zi­das pela pro­pa­ganda Por­tu­guesa ou pelo nosso exér­cito e segu­ra­mente cen­su­ra­das na altura, são reais e bas­tante for­tes. Como tal pare­cem fei­tas ontem. A entre­vista com o Gene­ral Spí­nola, essa, uma preciosidade.

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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7 Respostas a Memória tracejante #2

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    É isso, Vasco, um grande silên­cio, um mar de silêncio…

  2. Rita V diz:

    não sei se todos temos his­tó­rias mas a marca que deixa (dei­xou) é inapagável

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Perante o hor­ror (“ the hor­ror the hor­ror !!!” do Apo­ca­lipse Now ) resta o silên­cio, e todas as pala­vras dei­xam de fazer sentido.

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Tam­bém Por­tu­gal tem feito um imenso silên­cio sobre a guerra, desde a lite­ra­tura ao cinema. Só o Lobo Antu­nes. Mas o grande romance sobre a guerra está por escre­ver, o filme por fazer. Não per­cebo esta dor­mên­cia que é quase uma nega­ção da vida de milhares.

  5. Panurgo diz:

    É melhor ficar assim. Cresci edu­cado por um des­tes homens. O pior, como em tudo, são os sonhos. O meu pai regres­sou em 74. Ainda a semana pas­sada me falou que anda a “sonhar com a tropa”, outra vez. Dei­xem lá esta gente sos­se­gada, que são homens de outra raça.

  6. Ana Rita Seabra diz:

    O hor­ror da guerra.
    Quando falava ou per­gun­tava a um senhor sobre a guerra, pri­meiro o silên­cio depois as lágri­mas.
    São mar­cas ina­pa­gá­veis (como disse a RV)

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