O Artista (*)

A crítica, a crítica em geral e a de cinema em particular, padece, não raras vezes, de uma pulsão profundamente calvinista. O prazer, o prazer simples, o prazer sem mais, é tenebroso pecado. Um “feel good movie” é, por definição, um objecto menor. E se, dando largas ao mais desabrido hedonismo, a fita se atreve a violar o quintal privado destes intelectuais da treta (e para um intelectual da treta não há coutada mais privada do que o cinema mudo), pode ser simultaneamente um objecto menor e um objecto perigoso.

Vão pentear macacos.

(*) Há críticas que me tiram do sério.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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18 respostas a O Artista (*)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Não vi o filme mas concordo e aplaudo a sua raiva.
    Tem, com toda a certeza, razão.

  2. Luciana diz:

    Caro Pedro, estou cá com uma vontade de roubar-lhe a indignação e enviá-la aos antipáticos de cá que ficam procurando pelo em ovo pra destratar o filme.

  3. caruma diz:

    Bolas, só tenho um adjectivo: gostei.
    Assinado – Alm. Américo de Deus Rodrigues Thomaz

  4. Oh, PN! Eu também sou dada a fúrias. Não as exprimo é com tanta graça.

  5. manuel s. fonseca diz:

    Como o Pedro, vi o filme. Como o Pedro, gosto do filme. O “Artista” é um anti “Singin’ in the Rain”, essa apologia do novo que o Gene Kelly dançava atleticamente e no qual, de repente, caía um pecado em forma de pernas chamado Cyd Charisse. “O Artista” é uma delícia de silêncios, de uma soberba trilha sonora roubada aos anos 40 e 50 (há para lá Bernard Herrmann com fartura), de uma desbragada nostalgia filmada em clichés que é como se deve filmar a nostalgia. Não li nenhuma crítica, já nem estou em idade disso: bastam-me os sinos do Pedro a tocar a rebate..

  6. O Eco de Umberto diz:

    Macacos? Antes orangotangos que são de humores mais voláteis. Também é bem feita, quem é que os manda ler?

  7. Ana Rita Seabra diz:

    Ainda não vi!!
    Vou ver brevemente.

  8. Diogo Leote diz:

    Ainda há pouco senti idêntica revolta ao ler as criticas do Público ao Drive…

  9. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Apetece dizer : “Que se lixem esses críticos !!” em silêncio claro….

  10. Pedro Marta Santos diz:

    Para mim, que presto atenção ao que todos os críticos escrevem, do galgo “New Yorker” ao rafeiro “Total Film”, por vício privado e deformação profissional, o teu post daria para uma conversa longa, Pedro. Uma coisa te posso garantir, por algum trato em primeira mão: um dos problemas é que a maioria dos críticos de cinema tem um segredo que esconde com dificuldade – não gosta de… cinema.

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