O homem que nunca leu Jorge Amado

 

Schettino, o homem que nunca leu Jorge Amado

Muito se falou já de Francesco Schettino, o infeliz Capitão do naufragado Costa Concordia. Do muito que se falou, como bem se sabe, nada foi simpático. Mas ainda não se disse tudo. Do extenso catálogo de adjectivos pouco honrosos que lhe foi reservado, não consta que alguém o tenha chamado de inculto. Pois eu chamo. Tão inculto é Schettino que lhe bastaria uma ligeiríssima dose de cultura literária para, a esta hora, estar a salvo de todas as críticas e, quem sabe, ter à sua espera, em vez da cadeia, uma estátua lá na terra que o viu nascer. Tudo porque o homem nunca leu Jorge Amado. E nem precisaria de o ler todo. Uma única personagem, das muitas memoráveis que Jorge Amado nos deixou, teria sido suficiente para evitar a tragédia. Teria, se Schettino tivesse tido o prazer de a conhecer. Teria, se Schettino fosse um verdadeiro marinheiro. Isto porque qualquer marinheiro que se preze conhece, para além do Moby Dick de Melville, as Aventuras e Desventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso (ou só O Capitão de Longo Curso, como algumas edições o tratam), uma das duas novelas que Jorge Amado incluiu num dos seus livros míticos, Os Velhos Marinheiros (a outra, também inesquecível, foi A Morte e a Morte de Quincas Berro d´Água).

Se Schettino – um falso marinheiro, está à vista de todos – tivesse conhecido Vasco Moscoso de Aragão, saberia que o que importa verdadeiramente para o comandante de um navio de passageiros – Capitão, como lhe chamam no Brasil de Amado e na Itália de Schettino – é mesmo cultivar e manter as aparências. O facto de nada se saber de marés e ventos, pouca importância tem desde que se tenha o título de Capitão de Longo Curso. E, sobretudo, desde que se tenha à mão um timoneiro sempre pronto a acorrer às emergências. Schettino deveria ter aprendido com Moscoso que, quando se ignora o ofício, a única forma de fazer juz ao uniforme é recorrer a um velho arranjinho. Nada de mais simples do que chamar à parte o timoneiro e dar-lhe poder sobre a navegação. Dar-lhe poder sobre a navegação sem lhe dar a aparência de poder, porque esta, claro está, deverá continuar nas mãos de quem usa os galões – no nome e no uniforme – de Capitão. Se Schettino tivesse feito como Moscoso, se ao timoneiro tivesse deixado a parte técnica do métier para se ocupar ele a tempo inteiro da componente social dos cruzeiros, para a qual se acredita que estava verdadeiramente vocacionado – presidir aos bailes, tratar com todas as honrarias os passageiros mais importantes, fazer conversa de salão com as avós para logo de seguida usar e abusar de charme com as filhas e as netas e, segundo parece, receber bailarinas moldavas com pouca roupa na sua cabine -, ainda hoje estaria a disfrutar todos os prazeres que a sua condição de Capitão lhe permitia.

Caso tivesse lido Amado e o seu Capitão de Longo Curso, teria até Schettino aprendido com os erros de Moscoso de Aragão. Saberia que, por mais que delegasse autoridade no seu timoneiro, era ao Capitão que cabia a última ordem antes da atracação. E saberia que, na ignorância sobre o que fazer nesse momento, haveria que ser prudente. Prudente até ao limite do exagero, se necessário fosse, porque pior do que a chacota geral era pôr em risco a segurança dos seus passageiros.

Moscoso, recorde-se, era um falsário. Um homem obcecado por um título, nobiliárquico, académico, profissional, o que fosse. Depois de muito porfiar, lá conseguiu comprar um, o de Capitão de Longo Curso, à custa do qual construiu uma fama de intrépido homem dos mares, alimentada por um sem fim de histórias, por ele imaginadas, de confronto com piratas e tubarões, de tempestades em alto mar e naufrágios em ilhas longínquas, de paixões exacerbadas e amores adúlteros. Com uma simples ordem, Moscoso passou de bestial a besta, de marinheiro alvo da admiração geral a impostor desmascarado. Tudo porque, confrontado com a tal obrigação da última ordem, e sem ter o timoneiro ao lado para o socorrer, se saiu com a exclamação que o imortalizou: “Todas as amarras ao mar!”. Maior prudência não se poderia exigir, tanta que nunca outro comandante de embarcação de grande porte se tinha lembrado até à data de mandar atracar ao cais com centenas de amarras, como Moscoso o fez. Fê-lo para chacota de todos, que nisso viram a manifestação evidente de que não poderia passar de um trapaceiro. Num só segundo, o que durou o tempo da última ordem, foi-se todo o prestígio acumulado por Moscoso, estalou o verniz de todas as aventuras mirabolantes que contava para deleite de assembleias cada vez mais numerosas.

Mas, se algum de nós ainda duvidar que a sorte pode mudar da noite para o dia, então é porque também não leu Amado e o seu Capitão de Longo Curso. Foi mesmo assim, da noite para o dia tudo mudou. Levantou-se uma tempestade de proporções incontroláveis que tudo arrasou à sua passagem. Nada ficou de pé a não ser, claro está, o navio que estava atracado no porto com centenas de amarras. De manhã, ao acordar de uma noite de pesadelo, não decorreram muitos minutos até Moscoso saber que a sua disparatada ordem afinal tinha sido premonitória e visionária. Que a sua fama estava total e definitivamente reabilitada. Que era aclamado nas ruas como um herói nacional.

Para a história ficou a sorte que Moscoso teve. Como ficará o azar de Schettino. Mas, tivesse Schettino lido Amado e o seu Capitão de Longo Curso, a história hoje poderia ser outra.

 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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12 respostas a O homem que nunca leu Jorge Amado

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Muito bom, Diogo, estás totalmente coberto de razão – fosse a razão ‘chantilly’ e ainda te fatiavam…
    Mas o homem é, além de mau marinheiro e inculto, também muito burro. Porque qualquer capitão que se preze tem sempre o seu homem de máxima confiança, esse sim, o verdadeiro homem do leme.
    Muito bem apanhada, essa do Moscoso de Aragão!

    • Diogo Leote diz:

      António, o problema é que o homem já não sabia para onde se virar: de um lado, a bailarina moldava na cabine já sem roupa, do outro umas meninas a acenarem-lhe do cais. De não saber para onde se virar, o que se virou mesmo foi a barcaça!

  2. Teresa Conceição diz:

    Belo texto, Diogo. E bem lembrado Amado.
    ‘Tudo pode mudar da noite para o dia’, nos melhores livros, na vida de todos os dias.
    (Ainda se vai formar no facebook o grupo dos que querem oferecer Jorge Amado a Schettino:)

    • Diogo Leote diz:

      Obrigado, Teresa. Boa ideia a desse peditório, até porque o Schettino, à falta de meninas na cadeia, vai ter tempo de sobra para ler e reler o Amado todo…

  3. Pedro Norton diz:

    O romance mais divertido de Amado.

    • Diogo Leote diz:

      Divertido para todos menos para o Schettino, que, quando o ler finalmente na cadeia, vai bater com a cabeça nas paredes, chorando pela sorte de Moscoso…

  4. Rita V diz:

    articulação gira entre a sorte de um e o muito mais que azar do outro

    • Diogo Leote diz:

      Sorte de um, azar de outro, mas tanto uma como outro não acontecem por acaso. E aqui está a prova…

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    bela lembrança, dom diogo. e belo texto de amado. já não se criam mais falsos marinheiros como dantes entre a ponte e a casa das máquinas.

    • Diogo Leote diz:

      É essa, Ruy, a virtude dos grandes textos: a de nos ficarem na memória, justificando o passado, modelando o presente e servindo de premonição para o futuro. Essa memória, Schettino, com ou sem culpa própria, não a teve.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Fabulosa a memória de Moscoso, e muito bem apanhada a ligação…A cultura pode mesmo ser a solução para muita coisa, incluindo evitar que a estupidez se propague como um vírus por aí…

    • Diogo Leote diz:

      Tens dúvida, Bernardo, que a cultura, embora não rentabilizável no imediato, pode salvar gerações no futuro? Eu não. Pena que a cultura não seja uma prioridade. Sobretudo, pena que a educação através das artes seja um projecto sempre adiado. Talvez permitisse fazer a diferença no futuro.

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