O Pensamento Impossuível de Günther Mole

"Empalamento, sodomização e morte" by Dieter Graff

Günther Mole é uma das mais intrigantes personalidades do mundo da arte contemporânea porquanto não existe. E ainda assim tem obra, embora intangível, fama e influência.

Günther Mole nasceu, enquanto artista, dos movimentos vanguardistas da segunda metade do século XX levando literalmente à prática a ideia de que a arte substituiu a filosofia enquanto disciplina de reflexão sobre a vida e o viver. Uma ideia Dadaista retomada na década de sessenta pelos movimentos conceptualistas; Günther Mole é filho de Dada e Fluxus.

Günther Mole não expõe, não grava, não publica nem realiza nenhuma das suas obras. Apenas se serve de esboços, rascunhos e palavras para partilhar ideias. É tudo o que faz. Os seus livros existem apenas narrados, as suas obras apenas esboçadas, as suas intervenções imaginadas, as suas músicas apenas tocadas e os seus filmes apenas em scripts, imaculadamente escritos em courier 12, para serem lidos e realizados mentalmente por cada um dos seus discípulos. A ideia de que um filme, ou qualquer outra obra, possa ter apenas um ponto de vista ou forma é, para Günther Mole, uma ideia repugnante. Günther Mole apenas produz pensamento, a suprema forma de criação artística, recusando, por isso, a sua tangibilização.

“Um pensamento que assume uma só forma, ou que é expresso através de um só meio, transforma-se em pensamento único, um modo de totalitarismo artístico inaceitável para um artista livre.” diz-se que Günther Mole terá dito.

Poderia assim pensar-se estarmos perante um artista puramente conceptual, mas isso seria redutor uma vez que Günther Mole é conceptual literal e fisicamente. Por um lado é apenas pensamento dito ou mostrado mas nunca visto ou realizado a não ser por aqueles que o ouvem ou presenciam o seu enunciado; eles são a sua tela, o seu teclado, a sua câmara, se o escolherem ser. Por outro lado, recusando-se a existir fisicamente, Günther Mole converteu-se, ele próprio, na sua primeira obra, o seu primeiro pensamento. Günther Mole existe apenas como ideia de artista e não como artista propriamente dito.

Não é por acaso que pensamento é a única forma artística que Mole produz, é por ser a única forma artística que viaja que pode ser partilha e que não pode ser possuída. O pensamento possui mas não é possuído, é livre, ao contrário da sua materialização em imagens, palavras, forma. Na verdade, quem é verdadeiramente possuído quando uma obra é exposta ou comercializada – e porque a arte é inerte e sem consciência -, é o artista. A própria linguagem é muito clara: diz-se, “Eu tenho um Beuys.”, “Eu comprei um Koons para a sala.” ou “Arruma aí o Dostoievski na prateleira.” mas ninguém diz que tem, que possui, ou arruma, um Mole. Não é possível, é impossuível.

Criar apenas pensamento é então ser livre e por isso a arte de Mole não é apenas conceptual nem apenas mera reflexão. Tem, para além da óbvia função filosófica, uma função comportamental que está suspensa na fenda que separa a filosofia da religião com raízes firmes em ambas as paredes. Dizer que a arte de Günter Mole é filosofia e que a sua Akademie e os seus discípulos são uma seita religiosa, e vice versa, não está longe da verdade. Ou é, pelo menos, uma verdade possível. Günther Mole parece ser a reencarnação artística de Sócrates. A sua existência é mítica e a sua obra, ou as manifestações da sua obra, apenas se conhecem através dos seus discípulos: os artistas gémeos Klaus e Oliver Pontius, a escritora Isabel Dreyer, a fotógrafa Kristin Ballmann, o escritor e realizador John Voss e o orador e vídeo artista João Simões, o único discípulo português de Mole.

O tríptico “Empalamento, Sodomização e Morte”, primeiramente atribuído a Mole e depois, erradamente, a Kristin Ballmann, é, finalmente, obra do inspector Dieter Graff da secção de investigação criminal da polícia de Ingolstadt, e é o mais perto que se chegou, até hoje, da materialização de uma obra de Mole. Neste caso do “Pensamento Impossuível”.

Sabe-se, ficou provado em tribunal, que as duas primeiras fotografias deste tríptico são da autoria de Kristin Ballmann e que a terceira, onde se encontra retratada a própria Kristin Ballmann morta, é da autoria do Inspector Dieter Graff. Foi ele quem tirou a fotografia ao cadáver de Ballmann, no local onde foi encontrado, nas margens do Danúbio, e foi ele quem imprimiu e expôs as três fotografias em conjunto e pela primeira vez na sala de provas da secção de investigação criminal da polícia de Ingolstadt; a segunda exposição teve lugar na sala do tribunal onde Mole foi julgado à revelia.

A primeira iteração do Pensamento Impossuível, o Cristo Empalado, é uma reflexão sobre a capacidade do pensamento para viajar mesmo que o seu criador, porque pregado ou empalado, não o possa fazer. É um comentário à força da ideia, representada nesta metáfora pelo pensamento cristão, uma criação artística excepcional cuja viagem possuiu, e possui povos há séculos. A segunda iteração, “A Exposição do Artista”, é um comentário visual ao pensamento moleano de que, com a exposição e a comercialização, é o artista quem é possuído e não a obra. Em qualquer dos casos estas duas imagens de Kristin Ballmann parecem mais comentários ou notas visuais de um discípulo às palavras do mestre e não tanto uma obra propriamente dita; afigura-se pelo menos difícil atribuir-lhes a intenção de obra. A utilização de um manequim de desenho, comprado numa loja de museu, um utensílio didáctico portanto, assim o indicia. Só com as imagens do cadáver de Ballmann e do manequim morto, na exacta posição em que foi encontrado o corpo de Ballmann, se completa o tríptico e o pensamento. O artista deixa de o ser, fisicamente, e é por isso inexistente, impossuível, como o próprio Mole. Sem a verdadeira morte de Ballmann não se completaria nunca o pensamento nem a obra seria autêntica. O tríptico “Empalamento, Sodomização e Morte” torna-se assim um evangelho sobre o “Pensamento Impossuível” de Günther Mole; o evangelho segundo o inspector Dieter Graff.

Foram precisamente estas imagens, e esta análise crítica, que foi exposta pelo bom inspector em tribunal e que serviu de tese ao ministério público do estado livre da Baviera no processo aberto contra Günther Mole por homicídio voluntário de Kristin Ballmann. Argumentou o ministério público que sem a morte de Ballmann a obra ficaria incompleta e que por isso o assassinato de Ballmann seria a terceira e final iteração do Pensamento Impossuível. Ora sendo este pensamento da autoria de Günther Mole, decorreria daí que teria sido ele a completá-lo; pois é isso que usualmente faz um autor de um pensamento.

No fim, expostas todas as evidências e ouvidos todos os argumentos, o julgamento foi considerado nulo e o processo arquivado. Não tanto por falta de provas, sublinhe-se, ou por falta de lógica nos argumentos do bom inspector e dos procuradores do ministério público, mas apenas por falta de réu.

Afinal, Günther Mole, não existe.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

11 respostas a O Pensamento Impossuível de Günther Mole

  1. Nástienka diz:

    Finalmente!

  2. manuel s. fonseca diz:

    Curioso, ou melhor, bizarro. Conheci Günther Mole em Tertius. Um escuro de breu. Uma semana de greve, escassa a comida do hotel, partilhámos, e não estou já seguro, a única garrafa de vinho. Quando a luz voltou, não apareceu ninguém para pagar a conta. Nos registos da recepção não encontraram rasto do seu nome, a indelével assinatura.

    • Pedro Bidarra diz:

      Pois tem o meu caro amigo mais sorte do que eu. Eu apenas ouvi a estória em Heathrow da boca do discípulo português de Mole, o J.S.. Na altura não me apercebi, mas o J.S. estava inquieto e olhava para todo o lado. Eu acho que temia pela sua vida e foi por isso que me contou a estória, para que ficasse algum registo, alguma testemunha. Nunca mais o vi também. Acho que vive em NY mas não tenho a certeza.

  3. Vasco Grilo diz:

    But yet the Mole lives! Long live the Mole!

    • Pedro Bidarra diz:

      Estou perfeitamente convencido que não é a última vez que ouviremos falar de Mole.

  4. Dieter Graff diz:

    Cá o espero, caríssimo.

  5. Dieter Graff diz:

    Mir geht alles gut. Dieter

Os comentários estão fechados.