O polvo e a bióloga

Esta estória é verdadeira. Não sou eu que o digo. Quem o diz é o autor, o fulano que assina o texto ali em cima. A estória foi-lhe contada por alguém que conhece a protagonista. Eu não sei se acredito ou não e por isso não me comprometo com a veracidade da coisa. Sou só um narrador convocado para alinhar os factos e encadeá-los de modo a serem lidos com o mínimo de entropia. É por isso, por ser ligeiramente ficcionada, que a estória está postada aqui, preto no amarelo, e não no branco. Há obviamente algum adorno, algum exagero, algum sentimentalismo, enfim, algum cor de rosa. Mas os factos, esses, são absolutamente rigorosos. A saber: uma bióloga mergulhadora que trabalhava no oceanário, um polvo apaixonado e uma morte (suicídio?) por amor. Vamos à estória.

Todos os dias a bióloga mergulhava entre polvos, tubarões e garoupas. Era essa a sua rotina, mergulhar num tanque gigante para tratar, alimentar e tentar manter feliz aquela variada e cativa fauna marinha. Era um trabalho que ela fazia com alegria. Um daqueles trabalhos onde se encontram o prazer e o fazer, a felicidade e a vocação. Mergulhar e nadar por entre os bichos do mar, num meio que, não sendo o seu, não deixava de ser convidativo, quente e mágico. Desde pequena que queria ser mergulhadora. Imaginara-se em oceanos de coral colorido, a classificar e ordenar espécimes e, talvez com sorte, a descobrir alguma nova criatura.

Por enquanto o destino reservara-lhe uma aproximação ao sonho dos oceanos infindos. Por enquanto o sonho estava confinado ao um aquário. Um aquário grande, um dos maiores do mundo, mas apenas só um aquário. Ela gostava mesmo assim. Sentia-se personagem numa fábula de peixes, moluscos e outras criaturas marinhas; como num poema de Sofia. Não podia haver vida melhor; era mulher rã mas sentia-se sereia. Era ela a responsável pela alimentação, pela ordem, pelo bem estar daquele sistema; a dona da casa, ou melhor do tanque, a governanta do equilíbrio, a rainha da homeostase. Neptuna, enfim.

Esse era o papel que secretamente representava e, como todas as criaturas que se sentem deus, julgava-se acarinhada pela criação cujo bem estar dela dependia. Claro que os bichos estavam-se todos nas tintas. Nem garoupas, nem raias, nem tubarões a achavam divina. Não que ela não o fosse, afinal manter a vida é tarefa dos altíssimos, mas acontece que os peixes não têm um cérebro com espaço suficientemente grande para futilidades como a devoção, a crença ou o amor. Isso são hobbies de outras espécies. Havia um, no entanto, que não era peixe, era molusco, que tinha cérebro para isso. Para isso e muito mais. Era um polvo. Um polvo que tinha com a mergulhadora uma relação muito especial.

Sabe-se que os polvos são inteligentíssimos. Os polvos têm cérebros invulgarmente grandes para o seu tamanho – para além de terem oito gânglios, pequenos cérebros, ligados a cada um dos oito tentáculos. Basta navegar um pouco na internet, e pesquisar sobre a inteligência dos polvos, para se descobrirem as mais incríveis façanhas destes moluscos em cativeiro. Para molusco, mesmo para membro da animalia, o polvo é do mais inteligente que há.

Todos os dias, quando a bióloga se preparava para o alimentar, o polvo agarrava-a, com os seus oito tentáculos e não a largava. Ela tirava-o e atirava-o para longe e ele voltava e agarrava-se de novo a ela. Ela tirava-o de novo e ele voltava a agarrar-se. Ela afastava-se e ele perseguia-a voltando-se a enrolar nela, tentando prendê-la para a não deixar fugir. Todos os dias o mesmo frenético ritual. Por fim, com um pouco mais de veemência, a bióloga lá o repudiava e ele fugia. Fugia para um buraco na rocha. Sempre o mesmo buraco. De lá ficava a olhá-la enquanto a bióloga se afastava em direcção à superfície. Mesmo antes de emergir a bióloga lançava um último olhar ao desconsolado molusco. O polvo, sempre à espreita de dentro do buraco, quando a via virar para o último olhar, escondia-se ostensivamente. Como que amuado. Todos os dias, durante meses, assim foi. O mesmo ritual. Igual.

Um dia, tendo-se repetido tudo como de costume, e depois do polvo ter sido mais uma vez repudiado, ela olhou para trás, para o buraco e, pela primeira vez, o polvo não estava lá. Embora tivesse achado estranho, a verdade é que mais não pensou no assunto. Saiu do tanque, tirou o fato de mergulho, tomou um banho, vestiu-se, fechou o cacifo e foi à sua vida.

Horas mais tarde, um colega encontrou o polvo. Estava seco e morto em frente ao cacifo da bióloga. Tudo indica que, quando ela lhe virou as costas, o polvo saiu do oceanário e seguiu-a, ou terá seguido o seu cheiro, até ao cacifo. Aí, fora do seu meio, deixou-se ficar à espera dela até secar e morrer. Se calhar, de amor.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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12 respostas a O polvo e a bióloga

  1. Amor impossível.

    Devia vir com os avisos de maços de tabaco.

  2. Rita V diz:

    Oh! Que triste!

  3. manuel s. fonseca diz:

    Delícia.
    A partir de agora já se pode dizer: “Amo-te como um polvo, com todas as minhas ventosas!”

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    a sex octopus’s garden. not bad at all.

  5. teresa conceição diz:

    Morrer de amor deve ser isso: secar à espera.
    Bela história, belo texto.

  6. Marta Elias diz:

    Que triste.
    Mas obviamente o polvo não leu o post do David, ou teria sido mais criativo.

  7. MJC diz:

    Naquela manhã a bióloga acordou alagada em suor. Tinha tido um sonho estranho. Um antigo namorado procurou-a para retomar uma relação diluída num tempo com mais de 20 anos. Mandou-o embora mas ele insistiu ao ponto de querer beijá-la à força. Foi nesta luta que acordou extenuada com o som do envio de uma sms do telemóvel. O despertador marcava 6:11. Estremunhada saltou da cama procurando-o. Enquanto virava o escritório do avesso para o descobrir ia pensando que não podia ser boa coisa. Pelo menos com os filhos não era pois cada um dormia tranquilamente nos seus quartos. Não havia maneira de dar com ele. Já com o telemóvel em punho de um dos filhos surge novo aviso. Centrando a sua acuidade auditiva, inclinando a cabeça, ouviu o som saindo da dispensa. Estranhando, finalmente, percebeu que tinha ficado no bolso da velha parka com que saía à noite para passear a sua fiel amiga. Era ai que tudo arrumava: a parka, a trela com a coleira, os sacos, a escova e a toalha com que a mimava, mais uma vez, no fim de cada caminhada.
    A sentir um frio miudinho causado pelo pijama húmido leu “urgente vem o TEU polvo está moribundo junto teu cacifo”. Encostou-se à parede e pela primeira vez sentiu os pés nus gelados na tijoleira. Com os pensamentos soltos chamou um táxi, colou no espelho do quarto de banho um recado apressado aos filhos. Aldrabadamente lavou os dentes e saiu disparada. No táxi, enquanto apertava os atacadores dos ténis, reparou que ia com uma meia às riscas e outra lisa, pormenor que nesse momento era totalmente indiferente.
    Na cronometragem das ruas semi desertas só, quando colocou o dedo no leitor que lhe permitiria abrir o portão de acesso ao edifício, nesse dia estranhamente lento, reparou que a madrugada ainda estava preta como breu. Na correria desenfreada que se seguiu galgou escadas, saltou obstáculos, que um funcionário mais desleixado deixou fora do sítio, deslizou por corredores que pareciam nunca mais ter fim quando finalmente aproximou-se da sala dos cacifos. O colega que lhe enviara a sms estava ajoelhado junto ao seu polvo. Ao vislumbrá-la fez-lhe sinal de silêncio. Perante este gesto a bióloga respirou fundo numa tentativa vã de desacelerar o coração que mais parecia as turbinas da barragem de Picote, que lhe viu dar os primeiros passos. Com os ténis racionalmente leves aproximou-se. Na penumbra vislumbrou uma toalha molhada que o tapava. Com o pensamento vazio e os músculos retesados encostou-se a um dos cacifos por o corpo estar prestes a entrar em desequilíbrio. Na expectativa do que ouviria fechou os olhos. Na interminável espera apenas ouviu, ao longe, o seu colega sussurrar pausadamente “Quando cheguei pensei que estivesse morto mas ainda respirava. Chamou por ti. Disse-lhe que virias. Aguentou-se. Vou deixar-vos”.
    A bióloga ajoelhou-se, humedeceu os lábios e beijou a vida que havia nele. O polvo abriu os olhos sorridentes na sua direcção fechando-os logo de seguida. Era notório o esforço que tinha feito para ali chegar. Sentindo a sua respiração compassada a bióloga vadiando a ponta dos dedos pelo seu corpo soltou as palavras há muito prisioneiras:
    – Sabes P, é assim que me dirijo a ti quando te falo, estás comigo a cada minuto do meu pensamento. Todos os dias antes de entrar na água levava, sempre separado, os maiores e mais frescos caranguejos, quando aparecia uma lagosta era para ti que ela ia. Olhava para o teu esconderijo escrevia na água “até amanhã meu amor”. Na confusão dos sentimentos foi o medo que me fez afastar de ti. Medo de mim. Medo deste amor que me devora. Medo de invadir o teu espaço. Medo de não compreenderes este amor sem condições em que o teu nome está gravado no meu corpo. Amo cada emoção tua em que te despes. Sinto-as. Compreendo-as. Vejo o cansaço que te provocam todas as contradições do teu ser em que estás prisioneiro. Não te julgo. Tantas vezes me deitei metamorfoseada num coral onde vinhas recolher-te. Dávamos as mãos e confessávamos um ao outro as nossas alegrias e tristezas, os nossos sonhos de futuro com palavras expulsas de qualquer pudor.
    Amo-te porque te amo. É assim que te amo
    http://www.youtube.com/watch?v=-85G68oMZaM&feature=player_embedded
    A bióloga fechou os olhos e adormeceu transformada num coral.

  8. MJC diz:

    Naquela manhã a bióloga acordou alagada em suor. Tinha tido um sonho estranho. Um antigo namorado procurou-a para retomar uma relação diluída num tempo com mais de 20 anos. Mandou-o embora mas ele insistiu ao ponto de querer beijá-la à força. Foi nesta luta que acordou extenuada com o som do envio de uma sms do telemóvel. O despertador marcava 6:11. Estremunhada saltou da cama procurando-o. Enquanto virava o escritório do avesso para o descobrir ia pensando que não podia ser boa coisa. Pelo menos com os filhos não era pois cada um dormia tranquilamente nos seus quartos. Não havia maneira de dar com ele. Já com o telemóvel em punho de um dos miúdos surge novo aviso. Centrando a sua acuidade auditiva, inclinando a cabeça, ouviu o som saindo da dispensa. Estranhando, finalmente percebeu que tinha ficado no bolso da velha parka com que saía à noite para passear a sua fiel amiga. Era ai que tudo arrumava: a parka, a trela com a coleira, os sacos, a escova e a toalha com que a mimava, mais uma vez, no fim de cada caminhada.
    A sentir um frio miudinho causado pelo pijama húmido leu “urgente vem o TEU polvo está moribundo junto teu cacifo”. Encostou-se à parede e pela primeira vez sentiu os pés nus gelados na tijoleira. Com os pensamentos soltos chamou um táxi, colou no espelho do quarto de banho um recado apressado aos filhos. Aldrabadamente lavou os dentes e saiu disparada. No táxi, enquanto apertava os atacadores dos ténis, reparou que ia com uma meia às riscas e outra lisa, pormenor que nesse momento era totalmente indiferente.
    Na cronometragem das ruas semi desertas só, quando colocou o dedo no leitor que lhe permitiria abrir o portão de acesso ao edifício, nesse dia estranhamente lento, reparou que a madrugada ainda estava preta como breu. Na correria desenfreada que se seguiu galgou escadas, saltou obstáculos, que um funcionário mais desleixado deixou fora do sítio, deslizou por corredores que pareciam nunca mais ter fim quando finalmente aproximou-se da sala dos cacifos. O colega que lhe enviara a sms estava ajoelhado junto ao seu polvo. Ao vislumbrá-la fez-lhe sinal de silêncio. Perante este gesto a bióloga respirou fundo numa tentativa vã de desacelerar o coração que mais parecia as turbinas da barragem de Picote, que lhe viu dar os primeiros passos. Com os ténis racionalmente leves aproximou-se. Na penumbra vislumbrou uma toalha molhada que o tapava. Com o pensamento vazio e os músculos retesados encostou-se a um dos cacifos por o corpo estar prestes a entrar em desequilíbrio. Na expectativa do que ouviria fechou os olhos. Na interminável espera apenas ouviu, ao longe, o seu colega sussurrar pausadamente “Quando cheguei pensei que estivesse morto mas ainda respirava. Chamou por ti. Disse-lhe que virias. Aguentou-se. Vou deixar-vos”.
    A bióloga ajoelhou-se, humedeceu os lábios e beijou a vida que havia nele. O polvo abriu os olhos sorridentes na sua direcção fechando-os logo de seguida. Era notório o esforço que tinha feito para ali chegar. Sentindo a sua respiração compassada a bióloga vadiando a ponta dos dedos pelo seu corpo soltou as palavras há muito prisioneiras:
    – Sabes P, é assim que me dirijo a ti quando te falo, estás comigo a cada minuto do meu pensamento. Todos os dias antes de entrar na água levava, sempre separado, os maiores e mais frescos caranguejos, quando aparecia uma lagosta era para ti que ela ia. Olhava para o teu esconderijo escrevia na água “até amanhã meu amor”. Na confusão dos sentimentos foi o medo que me fez afastar de ti. Medo de mim. Medo deste amor que me devora. Medo de invadir o teu espaço. Medo de não compreenderes este amor sem condições em que o teu nome está gravado no meu corpo. Amo cada emoção tua em que te despes. Sinto-as. Compreendo-as. Vejo o cansaço que te provocam todas as contradições do teu ser em que estás prisioneiro. Não te julgo. Tantas vezes me deitei metamorfoseada num coral onde vinhas recolher-te. Dávamos as mãos e confessávamos um ao outro as nossas alegrias e tristezas, os nossos sonhos de futuro com palavras expulsas de qualquer pudor.
    Amo-te porque te amo. É assim que te amo
    http://www.youtube.com/watch?v=-85G68oMZaM&feature=player_embedded
    A bióloga fechou os olhos e adormeceu transformada num coral.

  9. Bernardo Vaz Pinto diz:

    É a Sofia da menina do mar com um toque de erotismo!

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