Odisseias de banco de jardim

 

Foi por acaso que descobri o prazer da leitura. Por acaso ou por obra do grande tintureiro. Foi assim: o balde estava cheio, o homem era alto, encavalitou-se na rocha e começou a pincelar o tecto da gruta. Por alguma cabeçada pouco ortodoxa, o pintor escorregou. E de jacto caiu-me em cima a tinta do balde. O burro escapou, o resto do presépio também: fugiram todos. E eu fiquei práli hirta, a entender, de repente e em simultâneo, a inveja e a escrita. Apesar de, convenhamos, os caracteres helénicos não me facilitarem a vida.

Puseram-me aqui a secar com um livro à frente. Ainda iletrada lia a Ilíada, foi uma guerra. Mas percebi bem aquilo do Aquiles quando foi mergulhado. A mim também o rio de  tinta não cobriu toda, mas não vos conto qual é o meu calcanhar.

Homérica vaca leiteira, perdão, leitora / avistada em Atenas por tc

 

Entretanto devorei tudo, página a página. Dizem-me que ainda há Odisseia de pasto mais farto. A partir de agora, parada, não paro.

A tinta dourada deve ser veste mágica. Desde que me deixaram aqui a ruminar livros (e desde que não façam de mim vaca de Tróia) a minha vida é ouro sob vermelho.                    

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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6 respostas a Odisseias de banco de jardim

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Deve ser um calcanhar daqueles…
    Mas diga-me, Teresa, a que se deve tanta vaca (razoavelmente alimentadas) em Atenas, território de grevistas e demais desvalidos?…

    • Teresa Conceição diz:

      São vacas de outros tempos, António. Tão antigas que ainda lêem livros de que ninguém ouviu falar. Estavam a mugir no meu álbum, a verem-se gregas com tanto barulho e incêndios nas ruas. Tirei-as da rua e trouxe-as para aqui: os manifestantes ainda faziam delas… bifes. Agora acho que já posso ir para escuteira:)

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    simpatisíssima leitora, t. talvez uma das que hermes roubou de seu mano apolo. acho que ela precisa só de um pouco de protetor solar.

    • Teresa Conceição diz:

      Ideia brilhante, Ruy. Muito oportuna. Estamos por aqui com um excesso de sol que só visto.

  3. Pedro Norton diz:

    Ainda se lê a Odisseia em Atenas! Eu logo vi que isso da crise era exagero.

  4. Teresa Conceição diz:

    É como as notícias precipitadas de algumas mortes: claramente exageradas.
    Mas olhe que preciso é olho para reparar nas hiperboles.
    Crise foi na Ilíada, e parece que durou dez anos. A Odisseia, afinal, é só o voltar a casa.

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