Orgulho no preconceito

 

Esta entrada ciclo-turística por territórios de Jane Austen, que não lhe são exclusivos como todos bem sabemos, deve-se exclusivamente ao empresário, engenheiro e até agora presidente do Sporting Clube de Portugal.
Não que me preocupe em demasia com a bizarra fantasia em que o clube lisboeta se vai transformando paulatinamente. Em última análise posso encolher uns ombros cínicos e pensar que sempre é menos um a atrapalhar (um erro prático, pois no lugar do SCP estará sempre alguém a tentar roer os calcanhares de quem estiver à sua frente, seja Porto, Benfica ou errático turista).
Mas há uma coisa que me aborrece.
Nem vou enumerar aqui o que Domingos Paciência levou de bom a Alvalade, nem perder tempo a desenhar condicionais passadas. Porque, dado o paradoxo temporal, estas nunca se registarão.
A única coisa que me interessa é comparar pessoas e apelar ao preconceito.
Nascido no Porto numa família absolutamente humilde (diz-se por verdade que a primeira vez que comeu um bife foi já como júnior contratado, no alfobre do FCPorto), Domingos teve como futebolista uma carreira exemplar.
O esforçado e magrote ponta-de-lança por anos e anos no Dragão deu títulos a ganhar ao clube e tem, ainda hoje, uma legião de fãs – dentro e fora do FC Porto. O que é no mínimo aquilo que se espera de um grande profissional num clube de topo. O que talvez já não se esperará sempre é o sentido de honra, a direiteza, a lealdade e a honestidade do homem que existe dentro do jogador.
Porque isso nem sempre acontece.
Entretanto Domingos já não é um tímido: depois de treinar a equipa B do Porto, a União de Leiria, a Académica de Coimbra (onde conseguiu um 7º lugar no campeonato, coisa de que este clube já só se lembrava no Penedo da Saudade), recebeu das mãos de Jesus (o Jorge…) o SC de Braga, com que terminou o campeonato de 2010 em 2º lugar. Daí chegou à Champions e depois à Liga Europa, onde apenas foi derrotado pelo FC Porto. Ou seja, ficou em 2º lugar na segunda prova mais importante da Europa do futebol.
Não há pois que ter timidez.
Imagino o seu espanto quando lhe disseram que o Sporting já não contava com ele. E a indignação inevitável quando alguém lhe disse que tal decisão assentava nuns zun-zuns foteboleiros que conferiam realidade a uma suposta conversa entre ele e dirigentes portistas, havida não se sabe ao certo quando nem onde…
Quanta falta de imaginação demonstrou esta semana a direcção do Sporting Clube de Portugal!… (lá acharão que toda a gente é parva como eles). E que enorme incapacidade de avaliar o carácter das pessoas (será que isso sequer interessou para o caso?…).
O novo treinador é também ele, como novo treinador do Sporting, sublinhe-se, o resultado de intensa e fervente locubração. Ainda que risível.
Veja-se.
Portuense, tal como Domingos, mas aninhado confortavelmente na cintura burguesa, Sá Pinto foi como jogador um elemento extremamente combativo e de grande entrega – tanta que por vezes descambava em agressividade mal controlada. É, com toda a justiça, um símbolo dos Leões – e o clube não se esqueceu dele quando o contratou para director para o futebol.
Ele sim, esqueceu-se do respeito que devia ao clube, pegando-se ao insulto e à bofetada com Liedson, nos balneários, após alegada contestação do brasileiro a uma decisão sua.
Bettencourt pô-lo com dono imediatamente.
Godinho Lopes foi buscá-lo para treinar juvenis.
Seis meses depois comanda a equipa principal, talvez com a garantia de que a sua ira ciclotímica não será punida. Talvez até com uma promessa do contrário.

Pobre Sporting.

*(o preconceito é meu, como devem ter reparado)

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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16 respostas a Orgulho no preconceito

  1. Ana Rita Seabra diz:

    Concordo consigo.
    Nos anos em que vivi no Rio, o futebol era uma alegria, uma emoção constante. Fascinava-me.
    Aqui passa-se o contrário.
    Não percebo absolutamente nada de futebol. Sou uma ignorante em assuntos futebolísticos, mas ontem ao ver a notícia, pensei logo – O Sporting vai de mal a pior!
    Até simpatizava com o Domingos Paciência (não sei se o nome ajuda), mas o Sá Pinto, com aquele ar de grunho, achei que a imagem do clube irá ficar bastante denegrida.
    Lá está, estou cheia de preconceitos!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Talvez o nome não ajude (outro preconceito natural), mas ele é fatalmente melhor treinador que o RSP.
      É uma estória muito estúpida e mal contada.

    • António Eça de Queiroz diz:

      O Sá Pinto?!
      Bem, é preciso dente!… E muito boa vontade, embora não seja a minha especialidade.
      (se, por acaso, se refere à ilustração, só posso dizer que não faço a mais pequena ideia…)

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Assumo a total ignorância quanto a estes assuntos de “bola”, mas simpatizava com o Domingos: uma cara simples e educada, a sinuar até alguma inteligência. Isso é que chateia um bocado. Parece que são sempre os mais interessantes que são mal-tratados…Espero que seja preconceito meu…

  3. Panurgo diz:

    Aproveitando as diatribes femininas contra o Dia dos Namorados, creio que aquela equipa é como uma mulher feia armada ao boazona – portanto, precisa de alguém que lhe chegue a roupa ao pêlo. Nada melhor do que um monárquico reguila para lhe dar uma ou outra sova pedagógica, em nome da unidade do Reino.

    O Sporting é, apesar de tudo, o melhor espelho do triunfo dos porcos (se exceptuarmos o administrador do Glorioso, Gomes da Silva) – caramba, só sou eu que quando ouço o nome Salema Garção, trato de ir procurar quem me venda uma Magnum 357?

    • António Eça de Queiroz diz:

      Gomes da Silva, Salema Garção…
      Bem, Panurgo, e já descobriu quem vende essas irrepreensíveis preciosidades de 9 mm?…

      • Panurgo diz:

        Arranja-se, mas eles são muitos, cada vez mais; é ver os vogais do conselho directivo

      • Panurgo diz:

        Arranja-se, mas eles são muitos, cada vez mais; só em pólvora é preciso um balúrdio. É ver os vogais do conselho directivo. É o clube de Portugal, é Portugal ali todo enfiado por inteiro naquelas seis alminhas. Porcalhice entre a banca e a bola? Está lá. Meteoritos sociais? Há lá. E por aí afora. E depois o adepto queixa-se que um Ribas apareça a pastar na relva. Pudera.

        O Sporting aborrece-me mais do que a má literatura. E é difícil, raios partam mais aquela canalha.

        • António Eça de Queiroz diz:

          Tem a minha absoluta solidariedade, Panurgo, é um espectáculo triste.

          • Panurgo diz:

            Parece um Diógenes, ó António ahaha

            Olhe mas nunca gostei desse Domingos. Irritava-me aquela celebração ridícula quando marcava um golo – e fazia questão de celebrar a dobrar em Alvalade. Marcou lá um penalty que deu um título e foi vê-lo aos pulos de cuecas no fim de jogo. Coisas destas não se esquecem. Todavia, era um excelente automobilista, um Senna a inverter a marcha na A1 quando chegou de Tenerife. Quando foi treinar o Braga, chegou e mandou logo uma bocarra de novo-rico ao Jazus; é um tipo carregado de jeitos femininos, que se meteu a chorar quando os jornalistas apertaram com ele. Enfim, não gosto e tenho dúvidas que chegue à Cadeira de Sonho. Este meu fígado…

  4. Pedro Norton diz:

    António,
    Eu sei que me vou arrepender de dizer isto. Mas tem o meu amigo inteira razão. O Domingos é um treinador excelente e estará no Porto não tarda. Pela parte que me toca, ficava mais descansado com o homem nessa trituradora de talentos que é o reino da lagartada.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Sabe porque razão não se vai arrepender da sua aceitável premonição, Pedro?
      Você é benfiquista mas antes de tudo é um desportista, e por isso gosta de competição, muito provavelmente em várias versões. Ora para haver competição é necessária a presença de competidores, sem eles não há espectáculo.
      É essa a razão do seu não arrependimento futuro.
      (na minha biotriste vem lá: «sofro do vício dos profetas», ou algo parecido, o que fundamenta de forma conveniente todas as minhas teses…)

  5. Pedro Marta Santos diz:

    O Sá Pinto a treinador é o mesmo que o Vlad o Empalador a Papa. São mesmo anjinhos…

    • António Eça de Queiroz diz:

      Também acho uma idiotice completa, vamos a ver onde vai ele deixar o clube no fim da época (se chegar lá…)

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