É uma prosopopeia senhores

Coelho, Gaspar e a virgem

(Tinha escrito este texto, mais ou menos desta maneira, aqui há atrasado no site do DV, mas como os sacerdotes não dão mostras de ter juízo aqui vai outra vez.)

“Os mercados têm ouvidos” é uma das mais interessantes convenções dos tempos. A ideia, que é uma figura de estilo, tem sido levado tão a sério pelos políticos, pelos media e pela academia que hoje vemos adultos a “falar para os mercados” e a “dar sinais aos mercados”, numa reverência religiosa mais própria de um sacerdote inca do que de um homem moderno.

Tomar decisões económicas, apresentar números, fazer alterações nos produtos, lançar produtos novos, subir e baixar preços, aumentar ou diminuir a produção, desvalorizar a moeda são medidas com um previsível nexo de causalidade; “falar para os mercados” é apenas uma prosopopeia para designar o tomar de medidas do foro económico.

Mas com o tempo começou, literalmente, a falar-se para os mercados como se eles tivessem ouvidos e, entre os dois, um cérebro superior. Num golpe animista deusificou-se o mercado.

“Durão Barroso não fala para não agitar os mercados”,  “Passos Coelho tentar acalmar os mercados” e “Uma embaixada vai aos estados unidos tentar seduzir mercados” são apenas algumas das muitas pérolas do animismo político-económico vigente em que creem muitos políticos, financeiros e empresários, educados na sua maioria em universidades com claras deficiências curriculares e académicas. Para eles a prosopopeia é um dogma que torna o seu comportamento tão racional como o sacrifício de virgens, que era o modo como sacerdotes incas tentavam acalmar a fúria do vulcão.

No nosso caso o sumo sacerdócio cabe aos primeiros ministros e ministros das finanças que têm como solene missão falar para os mercados em conferências de imprensa e outros actos político-religiosos que, invariavelmente, antecedem o sacrificar de bens, poupanças, propriedade, economias, enfim vidas, na expectativa que os mercados oiçam e acalmem.

Mas não acalmam, pois não?

E não acalmam porque, se calhar, o mercado não é uma divindade com olhos e ouvidos. Se calhar a prosopopeia não é a figura de estilo adequada e melhor seria, para começar a resolver a crise, tomar uma medida, não do foro económico e financeiro, mas antes do foro estilístico-literário; que não se gastem mais recursos a tentar a acalmar uma divindade, que não liga nenhuma e se mudem antes os recursos, mas os estilísticos, passando da prosopopeia para a mera metáfora que é o que o mercado merece.

O mercado não é uma divindade. Não senhor. O mercado é um calhau.

Basta esta mudança de recurso estilístico para que tudo mude.

Em primeiro lugar não mais se gastará latim porque um calhau não ouve. Em segundo lugar, decorre do bom senso, um calhau não come, não tem o apetite vulcânico de uma divindade, não precisando por isso de ser alimentado a vidas. Aliás, e chegamos ao terceiro lugar, um calhau só se move, pára ou muda de direcção, se lhe for aplicada uma força exterior; porque um calhau, ao contrário de um Deus, obedece à primeira e à segunda leis de Newton.

Um calhau não pára com palavras, só pára com força. No caso dos mercados, e com o balanço que levam, só uma força descomunal parará ou inverterá o sentido deste calhau. O tipo de força que a guerra, por exemplo, liberta e já libertou no passado.

É caso para dizer “Que Deus nos livre!”, já que os calhaus não nos ouvem.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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5 respostas a É uma prosopopeia senhores

  1. manuel s. fonseca diz:

    Bem pensado, muito bem dito. Guerra ao calhau!

  2. Marta Elias diz:

    Para além de ouvidos, serão os mercados dotados de outras faculdades por norma atribuídas aos animais, como, por exemplo, as que lhes permitem evacuar? É que dá-me ideia que eles, depois de se banquetearem com as virgens, cagam.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Um mero calhau sem olhos, não merece gastar latim…

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