Os últimos Cash

Nos últimos anos da sua vida Johny  Cash gravou seis álbuns muito especiais. Os temas escolhidos, em vez de originais, foram na sua grande maioria “standarts” da musica pop, rock,  gospel e blues. Uma espécie de síntese musical. Cash, aos 62 anos, não precisava de provar nada a ninguém. Como artista e músico tinha sido incluído na história americana do folk, do rock and roll e do gospel, nos seus respectivos “Halls of Fame”.

Como homem tinha tido uma vida passada entre o paraíso virtual do sucesso e o inferno real da droga e do álcool, dependências que nunca conseguiu largar totalmente até ao fim da sua  vida.

A doença da música, que lhe percorria o corpo e mudava a cor do sangue, só podia desaparecer com a morte. Foi isso que aconteceu com Cash. Retirado na  sua propriedade e no seu estúdio,  aceitou  o  desafio  de Rick Rubin, um génio idiossincrático da produção musical americana recente, trinta anos mais novo que Cash. O desafio era voltar a gravar álbuns, desta vez para a editora de Rubin,  American Recordings.

Cash, que tinha tido uma  vida de desencontros violentos com os seus produtores, entendeu-se com Rubin, numa relação de mestre com aluno, ou talvez de presente e futuro, sendo a música o futuro.

O primeiro álbum (1994) é praticamente gravado na sala de Cash, acompanhado apenas com a sua velha Martin ( uma das melhores guitarras acústicas de sempre). Rubin pega  no  já minimalista Cash e descasca-o até ao osso: só voz e guitarra acústica em muitos casos.  Sem efeitos.  A música em bruto.

Neste e nos cinco álbuns que se seguiram a gravação apresenta o rigor e o cuidado de um relojoeiro suíço, mas respira-se e sente-se improviso e liberdade. Cash, a partir de uma qualquer sala de estar soa como se fosse um universo. Não é só o som, translúcido e vibrante, é também o tom da voz e as letras que conquistam o ar, continuamente. É o resumo de toda uma vida, confusa, cheia, delirante, transformada em música.  Cash já não é novo, o timbre é suave e instigador. Não se consegue ficar indiferente: seja com a versão de “One” dos U2 ( sim é possível com duas guitarras acústicas e um monstro de voz encher a vida de música…), seja na dor que arrepia em “Hurt” ( dos Nine Inch Nails), ou ainda a tristeza da esperança em “I see a Darkness”, que aqui vos deixo.

O projecto terminou com a morte de Cash, no sexto álbum, que este já não chegou a ver. O mundo ganhou uma  história de música. O céu ganhou uma voz barítona de ouro e mel.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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14 respostas a Os últimos Cash

  1. rita vaz pinto diz:

    Não me lembro de Cash quando me “ensinavas” música e me obrigavas a decorar os nomes, as vozes, os baixos, aquela guitarra…
    Mas oiço agora e lembro-me de ti.
    bjs

  2. manuel s. fonseca diz:

    Não há dinheiro que pague este Cash. Desprendimento e firmeza nunca estiveram tão unidos: como dedos de duas mãos que rezam.Fartei-me de gostar, Bernardo.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Ainda bem Manuel, é de coisas boas que se constrói a força para vencer as difíceis. O Cash tem essa influência em mim.

  3. Rita V diz:

    Not my cup of tea, mas o «Hurt» do Johnny Cash impressionou-me
    Thank u

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Também não era o meu Rita, mas estes últimos álbuns são verdadeiras obras-primas…ouça o ” Solitary man ” ou o clássico ” bridge over troubled water”…

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Em honra a vocês todos e em especial ao PN aqui vai uma música e atenção às letras!!!!!
    Espero que com esta o PN fique rendido ao Cash. Esta música é do Nick Cave.
    Sem Cash a minha vida não seria a mesma…
    http://youtu.be/rspNMK5gAFE

  5. Panurgo diz:

    Ele fez uma coisa melhor com os U2. The Wanderer, no Zooropa. Tem aquele verso que é o resumo de uma vida: I went out walking with a bible and a gun.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Concordo plenamente, the Wanderer é um tema fantástico onde Cash mostra a sua capacidade de cantar “pop”. De notar que a produção de Brian Eno fez mais uma vez a diferença.

  6. Pedro Marta Santos diz:

    O Cash era um génio. É.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Gosto de saber que também gosta! A fase tardia, dos ultimos albuns foi para mim uma descoberta de peso. Poucos músicos e artistas conseguem a força e clareza do sentimento, no final de uma vida cheia e abundante.

  8. Pedro Norton diz:

    Já me fizeste entrar em despesas. mas valeu bem a pena. The beast in me e Mercy seat são grandes faixas mas as recriações de bird on a wire, redemption, heart of gold e One são também geniais.

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