Temperamentos: o sanguíneo e o corno

 

De vez em quando, para dize­mos uma coisa, devia bas­tar ir bus­car uma pessoa. Imaginem que alguém qui­sesse dizer: van­guarda! Em vez de estar com mui­tas expli­ca­ções, iria bus­car Ezar Pound, mos­trava Ezra Pound, o jovem bigode negro de Ezra Pound, e sabia-se que era aquilo a vanguarda.

Outros dirão que se podia ir bus­car Mari­netti ou Maya­kovsky, mas não esta­ria a dizer a mesma coisa, por­que teria o dedo mais apon­tado para a revo­lu­ção do que para a van­guarda, ou para mais futu­rismo e menos poesia.

Nas­cido no Idaho, Ezra Pound nunca esteve grá­vido (e já vão ver a que vem o des­pro­pó­sito), mas da bar­riga dele nas­ce­ram pelo menos dois dos mai­o­res poe­tas de lín­gua inglesa do século XX: Yeats e Eliot.

Não vou dizer mais a não ser que Ezra gos­tava de Camões e que escre­veu alguns poe­mas que foram cen­su­ra­dos. Este, “The Tem­pe­ra­ments”, só viu a letra impressa numa edi­ção pri­vada publi­cada nos anos 10 do século XX. Hoje lê-se e ouve-se em qual­quer lado

Nine adul­te­ries, 12 liai­sons, 64 for­ni­ca­ti­ons and something appro­ching a rape
Rest nigh­tly upon the soul of our deli­cate fri­end Flo­ri­a­lis,
And yet the man is so quiet and reser­ved in deme­a­nour
That he pas­ses for both blo­o­dless and sexless.

Bas­ti­di­dis, on the con­trary, who both talks and wri­tes of nothing save copu­la­tion,
Has become the father of twins,
But he accom­plished this feat at some cost;
He had to be four times cuckold.

Que tra­duzo desa­jei­ta­da­mente assim, à espera de que o Ruy Vas­con­ce­los o faça num por­tu­guês e métrica decentes.

 Nove adul­té­rios, 12 aven­tu­ras, 64 for­ni­ca­ções e algo muito simi­lar a uma vio­la­ção
assom­bram todas as noi­tes a alma do nosso deli­cado amigo Flo­ri­a­lis,
e no entanto o homem é tão calmo, tão reser­vado no seu com­por­ta­mento
que passa por não ter nem san­gue nem sexo.

Bas­ti­di­des, pelo con­trá­rio, que só fala e escreve sobre a cópula,
converteu-se no pai de gémeos,
gló­ria a que che­gou pagando um preço;
teve de ser qua­tro vezes corno.

Quem tenham sido as duas figu­ras retra­ta­das, o Flo­ri­a­lis e o Bas­ti­di­des do poema, é o que eu não sei. Mas foram, crê-se, figu­ras reais. O pró­prio Pound, pai des­tas duas simé­tri­cas virilidades, confessa, numa carta, que Bas­ti­di­des era um conhe­cido autor e que o retrato lhe saira tão bem que até lhe doía não poder reve­lar a sua iden­ti­dade. Tanta reserva é, afi­nal, o preço que mesmo a van­guarda sem­pre paga à tradição.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 Respostas a Temperamentos: o sanguíneo e o corno

  1. Rita V diz:

    like
    very much

  2. Carlos Paulo diz:

    Pres­sinto um sub­til voeuy­rismo neste poema.

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Fun!

    (O tio Ezra dá ares ao Gary Oldman!)

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Gos­tei muito.
    Aqui vai um do Yeats que gosto especialmente

    When you are old

    When you are old and grey and full of sleep,
    And nod­ding by the fire, take down this book,
    And slo­wly read, and dream of the soft look
    Your eyes had once, and of their sha­dows deep

    How many loved your moments of glad grace,
    And loved your beauty with love false or true,
    But one man loved the pil­grim soul in you,
    And loved the sor­rows of your chan­ging face;

    And ben­ding down beside the glowing bars,
    Mur­mur, a lit­tle sadly, how Love fled
    And paced upon the moun­tains overhead
    And hid his face amid a crowd of stars.

    Tra­du­zido
    Quando já fores velha, e gri­sa­lha, e com sono,
    Pega este livro: junto ao fogo, a cabe­cear,
    Lê com calma; e com os olhos de pro­fun­das som­bras
    Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.

    Mui­tos amaram-te horas de ale­gria e graça,
    Com amor sin­cero ou falso amaram-te a beleza;
    Só um, amando-te a alma pere­grina em ti,
    De teu rosto a mudar amou cada tristeza.

    E curvando-te junto à grade incan­des­cente,
    Mur­mura com amar­gura como o amor fugiu
    E cami­nhou mon­ta­nha acima, a subir sem­pre,
    E o rosto em mul­ti­dão de estre­las encobriu.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>