Um corpo por reclamar (*)

Clay Willcockson, Los Angeles Times

Um homem deitado com os olhos turvos. Um frio danado e os pulmões negros de histórias. Um branco imenso de hospital. Vidas que vão e vêm, angústias que trepidam, lamentos sobrepostos em grossas camadas de dor, sustos que são corpos, repentes de formol. Um zunir ofuscante de luz artificial. Um movimento perpétuo sem direcção nem sentido. Formigueiro de bata. Um branco imenso de hospital. Um homem deitado com os olhos turvos.

Não há nada mais pungentemente solitário do que um corpo por reclamar.

 

(*) E se me disserem que ficciono, respondo-vos que não conhecem o tamanho do vosso engano.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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5 respostas a Um corpo por reclamar (*)

  1. manuel s. fonseca diz:

    No-body, o corpo de ninguém, será que é corpo sabendo-se que não é alguém?

  2. Rita V diz:

    ainda consigo achar mais solitário um sem-abrigo, o morto (corpo) está livre !

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Não ficciona, não, o sem-abrigo farta-se de ter companhia – nem que seja a das santas almas que o visitam a meio da noite com uma sopa quente e um café…
    A este ninguém o visita, jamais o visitará.

  4. Pedro Norton diz:

    Este morto de que falo, cara Rita, foi Sem Abrigo em vida. Duplamente solitário.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Morrer sem ninguém ao lado é quase a negação da morte:ninguém a sente. A ideia assusta, e lembro-me de um dos grandes arquitectos americanos Louis Khan, que morreu numa casa de banho na Penn Station em Nova York, sem que ninguém viesse “reclamar” o corpo. O ideal seria ” entrar na morte com olhos abertos…”, como diz Yourcenar no final das Memorias de Adriano.

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