Uma carta do Drummond, o Carlos

Ainda espe­rei que um dos Doze Tris­tes o trou­xesse, ou o lem­brasse.
Mas, timi­dez ou uma certa ver­go­nha, a ver­dade é que nunca con­vi­da­ram o pai do meu nome, Escre­ver é Triste. Convido-o eu, agora, a Car­los Drum­mond de Andrade. Fica­mos a saber como ele ama a vida. Como subli­nha a valen­tia de quem age, de quem faz, como canta as bom­bas que reben­tam na rua, como elo­gia os que estão mesmo na bar­riga da vida. Segui­mos Drum­mond e exaltamo-nos com a sua razão, razão mais alada do que o anjo que passa ful­mi­nante. E como é que ele, Drum­mond, faz isto, como é que ele nos pro­voca essa eufo­ria, esse entu­si­asmo báquico? Vivendo, por certo, não é assim? Pois não, pois não, Drum­mond escreve. Ó, tão triste a vida!

Escre­ver é triste
por Car­los Drum­mond de Andrade

Escre­ver é triste. Impede a con­ju­ga­ção de tan­tos outros ver­bos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reu­nindo com maior ou menor velo­ci­dade, mas com igual indi­fe­rença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bom­bas como tam­bém em dádi­vas de toda natu­reza, inclu­sive a sim­ples cla­ri­dade da hora, vedada a você, que está de olho na maqui­ni­nha. O mundo deixa de ser rea­li­dade quente para se redu­zir a mar­gi­ná­lia, puré de pala­vras, refle­xos no espe­lho (infiel) do dici­o­ná­rio. O que você perde em viver, escre­vi­nhando sobre a vida. Não ape­nas o sol, mas tudo que ele ilu­mina. Tudo que se faz sem você, por­que com você não é pos­sí­vel con­tar. Você espe­rando que os outros vivam, para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isen­ção de largo espec­tro”, como diria a bula, se seus escri­tos fos­sem pro­du­tos medi­ci­nais). Sele­ci­o­nando os reta­lhos de vida dos outros, para objeto de sua diva­ga­ção des­com­pro­mis­sada. Sereno. Supe­rior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei pro­pri­e­tá­rio do uni­verso, que esco­lhe para o seu jan­tar de notí­cias um  ter­re­moto, uma revo­lu­ção, um adul­té­rio  grego —  às vezes nem isso, por­que no pai­nel imenso você esco­lhe só um besouro em cam­pa­nha para ver­ru­mar a madeira. Sim, senhor, que impor­tân­cia a sua: sen­tado aí, camisa aberta, san­dá­lias, ar con­di­ci­o­nado, cafe­zi­nho, dando sua opi­nião sobre a angús­tia, a revolta, o ridí­culo, a malu­quice dos homens. Esque­cido de que é um deles. Ah, você par­ti­cipa com pala­vras? Sua escrita — por hipó­tese — trans­forma a cara das coi­sas, há capí­tu­los da His­tó­ria devi­dos à sua maneira de ajun­tar subs­tan­ti­vos, adje­ti­vos, ver­bos? Mas foram os outros, cré­du­los, suges­ti­o­ná­veis, que fize­ram o acon­te­ci­mento. Isso de escre­ver «O Capi­tal» é uma coisa, der­ru­bar as estru­tu­ras, na raça, é outra. E nem sequer você escre­veu «O Capi­tal». Não é todos os dias que se mete uma ideia na cabeça do pró­ximo, por via gra­ma­ti­cal. E a regra situa no mesmo saco escre­ver e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.

Claro, você apro­vou as valen­tes ações dos outros, sem se dar ao incó­modo de praticá-las. Desa­pro­vou as ações nefan­das, e dispensou-se de corrigir-lhes os efei­tos. Assim é fácil man­ter a cons­ci­ên­cia limpa. Eu que­ria ver sua cons­ci­ên­cia fais­cando de lim­peza é na ação, que cos­tuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua pro­te­gida pes­soa, eles ape­nas se tis­nam quando é hora de mudar a fita no car­re­tel. E então vem o tédio. De Senhor dos Assun­tos, pas­sar a espec­ta­dor enfas­ti­ado do espe­tá­culo. Tan­tos fatos simul­tâ­neos e entre­cho­can­tes, o absurdo pro­mo­vido a regra de jogo, excesso de vibra­ção, difi­cul­dade em abran­ger a cena com o sim­ples pai de olhos e uma fati­gada aten­ção. Tudo se repete na linha do impre­visto, pois ao impre­visto sucede outro, num meca­nismo de mono­to­nia… explo­siva. Na hora ingrata de escre­ver, como optar entre as vari­e­da­des de insó­lito? E que dizer, que não seja inva­li­dado pelo acon­te­ci­mento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sen­tir ou rumi­nar, se não nos con­ce­dem tempo para isto entre dois acon­te­ci­men­tos que desa­bam como mete­o­ri­tos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela inco­mo­di­dade pro­fis­si­o­nal. Não é reda­tor de bole­tim polí­tico, não é comen­ta­rista inter­na­ci­o­nal, colu­nista espe­ci­a­li­zado, não pre­cisa esgo­tar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afi­ado como a boa pei­xeira per­nam­bu­cana. Você é o mar­gi­nal ameno, sem res­pon­sa­bi­li­dade na ins­tru­ção ou ori­en­ta­ção do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obri­ga­ção de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entre­tanto, aí está você, cas­murro e indis­posto para a tarefa de encher o papel de sinai­zi­nhos pre­tos. Con­cluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, por­que ao assunto deve cor­res­pon­der certo número de sinai­zi­nhos, e você não sabe ir além disso, não corta de ver­dade a bar­riga da vida, não revolve os intes­ti­nos da vida, fica em sua cadeira, assun­tando, assun­tando…

Car­los Drum­mond de Andrade, in ‘O Poder Ultrajovem’

 

Sobre Escrever é Triste

O nome, tiraram-mo de Drummond. Acompanho com um improvável bando de Tristes. Conheço-os bem e a eles me confio. Se me disserem, “feche os olhos”, fecharei os olhos. Se me disserem, “despe-te”, dispo-me.
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3 Respostas a Uma carta do Drummond, o Carlos

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    A Tia tem toda a razão, já cá fazia falta este pedaço de céu que é a prosa do Drummond…

    • Ana Vidal diz:

      Obri­gada pela prosa, Manuel. Retri­buo com a poe­sia, igual­mente mara­vi­lhosa, sobre o mesmo tema:

      Chega mais perto e con­tem­pla as pala­vras.
      Cada uma
      tem mil faces secre­tas sob a face neu­tra
      e te per­gunta, sem inte­resse pela res­posta,
      pobre ou ter­rí­vel, que lhe deres:
      Trou­xeste a chave?

      Car­los Drum­mond de Andrade (who else?)
      :-)

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel, um mons­tro esse Drummond…não me importo de olhar para cima a vida toda, se for para beber da fonte des­tes sábios…e que res­pon­sa­bi­li­dade a nossa não é? Escre­ver sobre a som­bra da frase de um dos gran­des. Bem vinda esta via­gem às origens!

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