Uma curta e doce fragrância

Cena Primeira: Um luxuoso salão de baile algures em Lisboa. Diversas personagens convivem em vestes de gala. Uma bonita jovem envergando um vistoso vestido verde marinho conversa com um elegante cavalheiro de fraque. Escuta-se ao fundo o som de um piano.

MENINA AUGUSTA: Ài mas que linda flor que hoje porta à lapela, Doutor Marta Santos!

DOUTOR MARTA SANTOS: Preciosa não acha?

MENINA AUGUSTA (em surdina): Olhe, sabe o que lhe digo? Que trouxe a este enfadonho salão um delicadíssimo sabor primaveril. Não era hora!

DOUTOR MARTA SANTOS (com doçura): Trouxe-a a pensar em si. Só para si. E ainda a Menina Augusta não sentiu quão delicada é a fragrância que emana. Ora cheire aqui mais de perto!

MENINA AUGUSTA (levemente ruborizada mas com o olhar brilhante): ò Senhor Doutor, mas que atrevido que está hoje!

A Menina Augusta inclina-se e cheira a flor. Nesse mesmo instante o Doutor Marta Santos aperta com a mão esquerda uma pequena borracha que, cheia de água perfumada, está ligada à flor por um pequeno tubo que lhe passa pelo interior do fraque.

MENINA AUGUSTA (estridente) Ài mas o que é isto? Olhe o que fez! Mas que brincadeira tão tola!

DOUTOR MARTA SANTOS (desabrido em cantilena e saltitando de um pé para o outro): Ha ha ha! Carnaval, Carnaval, chupa merda p´lo canal! Ha ha ha!

MENINA AUGUSTA (entre dentes): Mas que homem tão ordinário e malvado que é o Senhor Doutor! (A Menina Augusta sai de cena indignada, cobrindo com ambas as mãos trementes o rubor e a maquillage desbotada.)

“”

Cena Segunda: Um quarto parcamente mobilado. Sob uma enxerga o Doutor Marta Santos dorme de boca aberta com o fraque ainda vestido. Uma garrafa de vinho meia bebida está pousada no chão ao lado da cama. Sob uma mesa, uma vela, um aparo, um boião de tinta e uma folha de papel.

“Caro Carlinhos da Maia,

Escrevo de forma sucinta pois as asperezas de mais uma noite boémia não me permitem maiores alongamentos. A genial engenhoca que me mandaste aí de Paris funcionou às mil maravilhas. A galdéria da Augusta caiu como uma perua. Havias de a ver a correr pelo salão dos Castro Gomes. Afirmo-te confiante que está inteiramente vingada a sua traição. O mais difícil foi lidar com o Fonseca que lá andava como sempre à volta dela como uma barata. Pois esta noite decidiu fazer de defensor do que resta da sua virtude e por conseguinte ameaçou-me de bengaladas. No entanto já sabes como ele é. Acabamos aos abraços no Maxime´s com as Galegas a beber vinho santo. E a propósito de Galegas, quando voltas? Olha que não podemos falhar a vida, menino!

Sempre teu,

Pedro.”

PS: Que me perdoem a Rita e o Columbano pela flor plantada sem oléo nem nada.

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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6 respostas a Uma curta e doce fragrância

  1. manuel s. fonseca diz:

    Seja quem for a menina Augusta, já se viu que, mesmo de maquillage desbotada, vale bem um par de meias solas. Cá para mim, o meu primo Fonseca devia ter vergastado o preguiçosão do Douto – é que esta sempre a dormir!

  2. Gostei imenso
    tive mesmo vontade de lhe pôr audio
    🙂

  3. Pedro Marta Santos diz:

    Conheço um par de cavalheiros a quem gostaria de aplicar essa engenhoca (andam a fazer-me carrinhos indecentes no meu futebol das 2ªs feiras). Onde se pode comprar a dita, engenheiro Vasco?

  4. Alberto Perry diz:

    Ao ler o teu texto só faltava a frase classica ” A menina dança? ” Parabéns pelo quadro escolhido de um grande Mestre da Pintura Portuguesa que por coincidência também tinha um humor muito apurado.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Que rico texto menino, como diria a Carlos da Maia….claro que a noite tinha de acabar nas Galegas, para não “falhar a vida”….

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Quanta maldade…
    (olha eu moralista!)

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