Uma noite no sótão: a falar com um dicionário

Volto ao sótão e sacudo a poeira a um livro francês. Tem algumas das mais fantásticas frases que se disseram no cinema. E dá-lhes luz, outra luz. Li-o há 20 anos e fui logo publicitá-lo, no incontornável “Expresso”(há 20 anos até sobre livros me deixavam escrever: devia estar tudo maluco!).
O que escrevi então voltaria a escrevê-lo agora. Temo descobrir que ando a dizer as mesmas coisas há 20 anos: as mesmas frases, os mesmos filmes. Um dia destes nem sequer saio mais do sótão. Também para quê?!

As Palavras do Cinema

Lembram-se de ouvir dizer na escola que a cultura era o que ficava depois de termos esquecido tudo o que aprendêramos? Era uma frasezinha feita, paradoxo pequenino, mais eficaz pela sugestão do que pela verdade. Por mim acreditei sempre, sem exigir provas, até ver produzir-se prova cabal num livro: Histoire des Plus Célebres Répliques du Cinéma.

Uma réplica, um diálogo, palavras, é o que fica de um filme depois de esquecermos tudo o que vimos. O livro é todo feito sobre esse destino bizarro para uma arte de imagens. E a bizarria aumenta com as partidas pérfidas que a memória nos prega: algumas das mais célebres réplicas do cinema, aquelas por que estaríamos dispostos a pôr mãos e mais alguma coisa no fogo, nem sequer existem.

Quem é que não ouviu – ouvi eu! – o gutural «Me Tarzan, you Jane» nos filmes do homem-macaco? E quem não se lembra de ter ouvido – com ouvidos que a terra há-de comer – Ingrid Bergman dizer ao pianista de Bogart, «Play it again Sam»?

Me Tarzan

Vistos e ouvidos os filmes, de ponta a ponta, mesmo com olhos em bico e ouvidos em alvo, descobrimos que a «frase de marca» de Tarzan nunca foi pronunciada, como não é aquela a forma exacta da mais célebre réplica de Casablanca.

A graça deste livro é ser a brincar e a sério; tanto é objectivo como é uma exibição descarada dos gostos dos seus autores. Em vez de acumular os vários milhares possíveis de réplicas célebres, os autores seleccionaram menos de mil entradas e produziram sobre cada uma a apreciação conveniente. Revelaram, por exemplo, o papel do acaso na génese do «You ain’t heard nothin’yet!» que se converteria no emblema de The Jazz Singer, o primeiro filme sonoro: essa frase disse-a AI Jolson a experimentar os microfones, sem saber que estavam ligados e a gravar. O carácter profético da retumbante exclamação tornou-se óbvio para toda a gente que estava no estúdio e a réplica de Jolson ficou no filme.

É que ainda não ouviram mesmo nada

Os autores sublinharam – é outro exemplo – a perfeita simbiose que se estabeleceu entre um actor e a sua réplica. «I Want to Be Alone» roucamente anunciado por Greta Garbo converteu-se na perfeita expressão do mistério e inacessibilidade da personalidade dela. A réplica perseguiu a actriz, em múltiplas variantes, desde o «I am walking alone because I want to be alone», intertítulo de um dos seus últimos filmes mudos, até às segundas intenções do «Go to bed, little father, we want to be alone» exploradas na  Ninotchka de Lubitsch.

Um slogan, «Watch the skies», basta para revelar a neurose de uma época. No «Watch the skies, everywere. Keep looking. Keep watching the skies», mensagem vigilante com que o protagonista rematava o discurso final de The Thing from Another World, um filme de ficção científica de Hawks, inscrevem-se em filigrana as tensões e ameaças da Guerra Fria.

E é pelo gosto e pela elipse dos diálogos que podemos igualmente perceber como evoluiu a «representação» do sexo no cinema. Numa cena de La Fête à Henriette, a bela Hildegard Knef vai baixando a meia ao longo da perna, ao mesmo tempo que diz ao homem que a observa:

«- A quoi pensez-vous?
– A quoi je pense?
– Oui. Vous voulez que je vous le dise? Vous pensez à ce que je pense.
– A ce que vous pensez?
– Exactement. Et je pense que si vous pensez que je pense à ce que vous pensez, nous ne sommes pas très loin de nous comprendre
».

nous ne sommes pas très loin de nous comprendre

Trompe-I’oeil no cinema é o pão nosso de cada dia. Custa mais admitir é que seja o ouvido a ser enganado. Edward G.Robinson, em Two Weeks in Another Town, troca as voltas ao Júlio César de Shakespeare: «You are my true and honourable wife, as dear to me as are the drops of blood that visit my sad heart», parece ser, palavra por palavra, o que Brutus teria dito à sua mulher, com excepção das drops of blood que eram em Shakespeare ruddy drops. Já Bogart, no Maltese Falcon, tomara as suas liberdades fazendo do «such stuff as dreams are made on» de que falava Próspero, na Tempestade, o «stuff that dreams are made of», que tinha no filme o peso de uma estatueta. Do mesmo stuff se faz este livro, que se pode ler como se queira: de trás para a frente, obliquamente, por diletantismo, puro gozo, ou para acrescentar à história do cinema os dois terços de suor dos dialoguistas escondidos atrás  dessas frases que parecem inventadas pelas personagens e ditas assim, da boca para fora.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Uma noite no sótão: a falar com um dicionário

  1. pedro marta santos diz:

    Manel, não sabias que as palavras ditas nos filmes são mesmo inventadas pelos actores à medida que falam? São uns génios, esses meninos.

  2. Diogo Leote diz:

    Espero que a Amazon já se tenha rendido ao livro…

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Diogo, é uma francesice com 20 e tal anos… Há uns livros americanos com quotations, mas falta-lhes o contexto deste.

  4. «E quem não se lem­bra de ter ouvido — com ouvi­dos que a terra há-de comer — Ingrid Berg­man dizer ao pia­nista de Bogart, “Play it again Sam”?»

    Eu não me «lembro»… porque essa frase nunca é dita no filme. Ingrid Bergman diz:

    «Play it, Sam. Play “As Time Goes By”.»

  5. Luciana diz:

    Caríssimo Manuel, outro dicionário que me era preciso ter? Será um andar da minha estante todo de passarinho de João e Maria? jogas o farelo de pão e lá vou eu catando nos sebos amigos?

    O tanto que me deleita seu irreverente afeto pelo cinema!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Este “dicionário” é um bocadinho diletante, mas a graça é mesmo essa. E ainda se encontra nas vendas online francesas…

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Ó, ó, ó. Não se iluda, Princess, não se iluda. Aquilo era página a mais e prosa a metro.

    • manuel s. fonseca diz:

      Não ligue, prin­cess, é só tea­sing. Há mui­tas for­mas de se estar de acordo!!! E, de tão quei­ro­zi­ana, não a sabia camiliana.

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