Uma noite no sótão: a ver Hitler, um filme da Alemanha

os nossos sentimentos, a nossa moral, as nossas instituições

Teria eu, hoje, a coragem de ver e escrever sobre Hitler, um Filme da Alemanha, o controverso filme de 7 horas do odiado Han-Jurgen Syberberg? Descubro no sótão um texto com mais de 25 anos. Um texto que notoriamente tem Brecht a mais e Wagner a menos. Escrevi-o com arrogância inconsciente e com impreparação. Lembro-me de, ao lado do João Bénard, ter jantado com Syberberg no Gambrinus e de o deixar incomodado quando lhe falei de Ernst Jünger e da floresta que, em Parsifal, me parecia ligá-los. E lembro-me de Edith Clever, a musa dele, me ter passado a suave mão pelo cabelo, quando visionava sozinho o filme, no escuro da sala da Cinemateca. Consolava, creio, a minha perplexidade e a, então, ignorante juventude. Os anos passaram, a ignorância é a mesma, só a coragem ou o atrevimento se extinguiram.

Hitler, um filme da Alemanha. O que é? Uma evocação fascinada de terríveis fantasmas do passado? Um libelo contra a moral e a estética do mundo contemporâneo? Um relato, simultaneamente em tom hagiográfico e de farsa, da vida do homem do Terceiro Reich? Invocação e diatribe de e contra o cinema e a sua história? A devassa do inconsciente colectivo da Alemanha? O fim de uma trilogia (de que os outros painéis seriam Ludwig, Requiem para Um Rei Virgem e Karl May) cobrindo a história da nação alemã – e, logo, a da Europa – desde a industrialização no século passado até às sequelas que chegam aos nossos dias, da queda do terceiro Reich?

Tudo isto é Hitler um filme de Hans-Jürgen Syberberg, ainda que a simples soma das partes seja insuficiente para designar a totalidade do que o filme efectivamente é.

Hitler, um filme da Alemanha é uma suma, em forma de oratória, articulando a história, o cinema, o teatro, as ideologias, e sobretudo esse fundo mítico e irracional que parece ser (e é!) a fonte da nossa ansiedade e medos, mas também a mola fulcral da nossa acção. Enfim, Hitler é o filme colagem em que se inscreve a memória ritualizada do cinema (Méliès, Eisenstein, Stroheim, Lang, Riefenstahl, Veit Harlan, Orson Welles, Stanley Kubrick, o rosto da Garbo, o sonho de Mary Pickford, os artefactos chaplinescos), alguma inocente magia circense, em que Ophuls e Lola Montés estão presentes de parte inteira. E é ainda, e sobretudo, a distância, a celebrada distância brechtiana, assim dita pelo próprio Syberberg: “Brecht, por exemplo em determinado momento das suas obras introduz uma canção: detém a história e um dos personagens avança até ao público e canta, para depois prosseguir a história. Penso que este ponto especial da história em que o personagem sai dela para dizer coisas, expondo pensamentos do autor e reco­lhendo ideias da audiência, para continuar a seguir, são muito interessantes, porque são como uma encruzilhada de ideias“.

A ideia de filme-colagem tem em Hitler uma ressonância mais profunda, a da colagem entre o espectador e o tema, que também não é só, entenda-se, a da clássica projecção ou identificação. Mais do que com um Hitler histórico, assepticamente apresentado, Syberberg confronta o espectador com o Hitler em nós, com a escondida herança que ele nos deixou e que impregna os nossos sentimentos, a nossa moral, as nossas instituições, a nossa arte, as nossas democracias.

Ideológica e politicamente será legítima essa colagem, essa “acusação épica de cumplicidade“, como lhe chamou Al­berto Moravia? Não há resposta científica, talvez haja uma resposta moral: a colagem que Syberberg suscita é esteticamente justa. Liminarmente justa. E talvez radique na “justiça estética” de Hitler, um filme da Alemanha o seu maior escândalo.

Donde vem a “justiça estética” do filme de Syberberg? Em meu entender, a principal fonte é Brecht. Na sua distância, na sua ironia, tantas vezes tintada do sarcasmo, na arti­culação histórica que segue, simultaneamente, um princípio de causalidade e um princípio dia­léctico (e estou a pensar na pluralidade das “camadas do real” que Syberberg convoca), Hitler, um filme da Alemanha representa a concreção das premissas teóricas do Brecht numa grande obra de arte. O escândalo de Hitler, um filme da Alemanha talvez decorra, do facto de, tendo sido apontado como “um filme nazi”, ser afinal a maior, porventura a única, grande obra de arte de raiz brechtiana já criada.

Inspirado embora numa estética brechtiana, Hitler, um filme da Alemanha, por muito que nele pesem as referências e citações teatrais, musicais, literárias e, porque não, circenses, tem como sua forma última e soberana o cinema. Sob o signo do cinema, desde o monólogo inicial no “Black Maria”, o primeiro estúdio de Edison – a que Syberberg, ou alguém por ele, chama no filme “o estúdio negro da nossa imaginação” – desde as sucessivas interpretações de Hitler, (Frankenstein, Charlot), desde o monólogo que retoma o premonitório julgamento do personagem de Peter Lorre no M de Fritz Lang, até ao violento libelo contra Hollywood, contra os “seus Hitlers”, Hayes ou McCarthy chamados, Hitler, um filme da Alemanha é uma obra sobre a ascensão do cinema no século XX, sobre a sua essência cósmica (“lux et coellus”), terminando com o desejo de “projecção no buraco negro do futuro”.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a Uma noite no sótão: a ver Hitler, um filme da Alemanha

  1. António Eça de Queiroz diz:

    «E tal­vez radi­que na “jus­tiça esté­tica” de Hitler, um filme da Ale­ma­nha o seu maior escândalo»…
    Com toda a certeza. Gostei imenso deste filme, e do Ludwig também.
    E deste teu texto, de esclarecedor que é.

    • manuel s. fonseca diz:

      Ossos do ofício, vi o filme 3 vezes, o que dá umas bos 21 horas de visionamento. Também gramei o Ludwig à brava. Vi-o em 73 e o Cinéfilo dos anos 70, de boa memória, fez um belo dossier sobre a coisa.

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Não vi o filme mas deliciei-me com o texto e apetece-me agora ver, embora pelos vistos seja preciso um dia de calmaria ….

  3. Pedro Marta Santos diz:

    “Na sua dis­tân­cia, na sua iro­nia, tan­tas vezes tin­tada do sar­casmo, na arti­culação his­tó­rica que segue, simul­ta­ne­a­mente, um prin­cí­pio de cau­sa­li­dade e um prin­cí­pio dia­léctico (e estou a pen­sar na plu­ra­li­dade das “cama­das do real” que Syber­berg con­voca)” – ó pá, assim de repente parecias o Luis Miguel Oliveira… Deu-me vontade de ver 45 minutos do filme – confesso que, 7 horas, só para sessões contínuas do “Bitter Victory” – mas acho que gosto mais do esplêndido cronista Manuel Fonseca de hoje. Ab

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