Uma noite no sótão: com Meg Ryan e Billy Cristal a bater à porta

um homem e uma mulher serão simétricos?

 Lá estou eu, no sótão. Lá em cima, fechado com a Meg Ryan, o Billy Cristal a bater à porta a dizer que tem de se ir embora para apresentar os Oscars.
Ainda hoje, 22 anos depois, gosto muito deste filme. Releio o texto e dá-me vontade de rir a irritação que manifesto contra as pretensões artísticas do Milos Forman. Foi, juntamente com o Oliver Stone, um dos meus ódios de estimação. Já me passou (o Stone é que não, nunca!). Pelo contrário, o desaparecido Reiner era-me querido. E há 22 anos já citava o Larkin. Porra, que estou a ficar velho e chato.

 When Harry Met Sally
de Rob Reiner

Sexual intercourse began
In nineteen sixty-three
(Wich was rather
late for me)-
Between the end of the
Chatterley ban
And the Beatles’ first LP
.
Philip Larkin, Annus Mirabilis

Do começo ao fim do filme uma mulher e um homem falam um com o outro do que não fazem um com o outro: de sexo.

Como se Rob Reiner se tivesse inspirado em Francisco Manuel de Melo, When Harry Met Sally é uma Carta de Guia de Solteiros para os anos 90. Ensina. Prescreve comportamentos. É terapêutico. Moraliza na tradição do melhor cinema americano. Serve para solteiros, divorciados e separados judicialmente. Para homens e para mulheres. Como o melhor cinema, não se sabe se é arte – “arte” é o Valmont, do Milos Forman, claro, com envios sinfónicos e Carrière ao argumento.

When Harry Met Sally tem raízes sociológicas e só quer comunicar – essa estranha obsessão americana. Faz perguntas: um homem e uma mulher podem ser amigos e nunca pensarem em sexo? Uma noite de sexo será necessariamente o fim de uma bela amizade? E se, entornado o caldo, um homem e uma mulher muito amigos tiverem uma noite de cama, quanto tempo deve ele continuar a abraçá-la depois de terem o que nunca tinham deixado de pensar que acabariam por fazer?

(Soluções:
a) Não;
b)Sim;
c) Qualquer coisa entre 30 segundos e a noite inteira.)

When Harry Met Sally, aos espectadores de muito boa memória, quando começa, faz lembrar as comédias de Howard Hawks. Os protagonistas, Harry e Sally, encontram-se e estala a guerra dos sexos. Como entre Cary Grant e Katherine Hepburn. E se substituirmos Grant por Spencer Tracy, devemos e podemos trocar Hawks por George Cukor. Serve.

Depois, os sucessivos encontros de Harry e Sally têm a mesma graça de um filme de Preston Sturges, com a diferença do argumento parecer do tipo “rigorosamente vigiado” e da sátira nunca ser agudamente cruel. Em síntese, a gentileza, nos anos 90, talvez pegue como “premissa estética”.

Chega de cauções. When Harry Met Sally é sobretudo um filme contemporâneo. Pagou, até ao último tostão, o “valor acrescentado” devido à política sexual dos anos 60 e à subsequente vaga feminista.

Contas certas, When Harry Met Sally pode ser – e é – um filme justo. Confronta os pontos de vista masculino e feminino. Só pensa mesmo nisso e em mais nada. Para não correr pelo fio da navalha do facciosismo, Rob Reiner dividiu o argumento e os diálogos entre ele e Nora Ephron – os créditos do filme não dizem, mas vão por mim que é verdade. Um filme escrito por um homem e uma mulher, para que cada um soubesse do que estava a falar e soubesse como falar.

Paga a factura dos grandes combates sexuais, When Harry Met Sally é um filme cómico muito triste e melancólico: dá vontade de rir e chorar. Aconteceu o mesmo a Sting quando viu The Spinal Tap, o primeiro filme de Reiner. Acontece também nos outros filmes do cineasta. O olhar dele é sempre muito amável, suavizado pela interferência de uma interposta pessoa, seja o narrador em A Princesa Prometida, ou a figura do flash-back municiada pela voz de Richard Dreyfus em Stand By Me (um dos melhores filmes dos anos 80 na minha opinião derretida e lamechas) ou os casais do falso documentário que pontua a narrativa de When Harry Met Sally.

Rob Reiner não parece, neste filme, um grande organizador de planos. Parece mais preocupado em ser fluente no discurso do que brilhante na encenação. Fecha-se em copas e numa estratégia visual dominada pela ideia de simetria: um homem e uma mulher seriam as metades iguais de uma imagem se o pêndulo do sexo não balançasse a diferença de um lado para o outro. Há, claro, uma elegância discreta sempre que uma cena exige algum trabalho mais apurado de realização, caso dos trompe l’oeil das conversas telefónicas na cama, ou desse momento limite em que Meg Ryan (actriz pessoana, quem diria) finge que é verdade sentir o que deveras, de vez em quando, não sente.

Situo-vos: a cena não se passa no Martinho da Arcada, mas numa prosaica casa de hamburgers. Vejam e ouçam e façam o mesmo lá em casa. São pontas por onde se pode pegar, embora não sejam esses picos que distinguem When Harry Met Sally.

A força do filme de Reiner está na palavra. Não me digam que é estranho numa comédia. Nunca foi, bastando recordar – e volto a vacas mais sagradas do que frias – que também a palavra torrencial de Rosalind Russel ou de Katherine Hepburn era essencial nas comédias hawksianas.

Homem de palavras, Reiner tira delas o ritmo e a unidade de um filme que quer juntar, agora que os anos 90 ainda estão verdes, o que fora separado pelos filmes sobre a “desagregação do par clássico” promovida dos anos 60 aos anos 80.

Não sei se Reiner conseguirá juntar o que nem Deus impede que se separe, mas conseguiu para já juntar palavras a um ritmo imparável e elaborar réplicas felizes: “And I hate you, Harry, I really hate you” é a antífrase do melodramático “Amar-te-ei sempre”. Só detestando-se como Harry e Sally julgam detestar-se, poderão viver felizes para sempre. Como em Casablanca, ou seja, exactamente ao contrário.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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15 respostas a Uma noite no sótão: com Meg Ryan e Billy Cristal a bater à porta

  1. Luciana diz:

    ainda vou ler o post, mas já adianto que só a apresentação já me fez coçar a garganta em bem querer. (pausa pra leitura)

    • Luciana diz:

      Texto lido, uma confissão: Harry & Sally só não é minha comédia romântica preferida de sempre por causa de Gable e Colbert e essa estranha alquimia de Capra que transforma o improvável em possível.

      De qualquer forma, se não é a primeira, é a mais revista por mim. Agrada-me especialmente a cena do estádio. A conversa em ola não deixa de ser uma boa indicação de que, em relação ao sentir, há de se saber o ritmo.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        É engraçado, no texto original (que era muito grande) tinha uma referência ao freeze das personagens no avião e ao movimento da “ola” no estádio. Coisas de “crítico”. Também gosto muito, mas quem não? do It Happened One Night. E a Colbert veio um dia a Lisboa e quase a levei ao colo. Era maneirinha.

        • Luciana diz:

          Manuel, e a curiosidade que nos fica de saber as linhazinhas que nos foram negadas? Não se faz.

          É uma pena que não tenham andado de trem. Foi assim que Gable a teve no colo. Corta caminho.

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel, tenho de assumir que nunca vi o filme de forma “decente” ou seja, no ecrâ de uma sala de cinema…O que fará uma grande diferença. Mas acerta na “mouche” quando refere que Reiner não está preocupado com a sequência de planos, mas sim na fluidez da narrativa. E nesse aspecto o filme é realmente muito bem conseguido, para além de, como também refere, se inserir numa “história” maior, a do cinema americano.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Agora no cinema acabou-se Bernardo. Só em casa. o PMS um dia arranja uma sessão para si que ele tem uma sala de cinema que nem o Selznick na mansão de Beverly Hills.

  3. ai este seu sotão
    suspirinhos
    ais e uis
    que bom

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    tenho de voltar a ver o An Affair. É devastador.

  5. Diogo Leote diz:

    Em regra, não gosto de happy ends. Está lá no meu BI. Mas um happy end em que ela lhe diz “I hate you” só pode ser das minhas mais queridas excepções à regra. Ah, e vem daqui a minha paixão de anos pela Meg Ryan.

    • manuel s. fonseca diz:

      Hoje embirro umas coisas com ela, Diogo. Mas a Meg deu muito jeito ao jovem adulto que eu ainda era há poucos dias.

  6. fernando canhao diz:

    Tenho ideia que Larkin sempre foi velho e chato. Gracas a Deus. O unico livrinho que tenho dele vale oiro.

  7. fernando canhao diz:

    Hotel Waldhaus

    We had no luck with the weather and the guests at our table were repellent in every respect. They even spoiled Nietzsche for us. Even after they had had a fatal car accident and had been laid out in the church in Sils, we still hated them.

    The Voice Imitator, excerpt.
    Thomas Bernhard

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