Uma noite no sótão: Michael Powell

Estava no sótão e lembrei-me do meu amigo Cintra, o meu, o nosso Manel. E lembrei-me das tantas diferenças que muito nos uniam a ver filmes. Por mais que eu também quisesse, os filmes de Michael Powell eram dele, do Manel. Uma vez, passei 3 meses em L.A. e vi a integral Powell-Pressburger no L.A. County Museum. Foi a única vez em que vi o Cintra ter inveja. “O mundo é injusto” disse ele e não descansou enquanto não obrigou o João Bénard a fazer o ciclo completo em Lisboa. Publicado a 3 de Março de 90, este texto poeirento é para o Manel que lá deve estar em êxtase ao pé do Powell.

 Os Contos de Michael Powell

Morreu Michael Po­well. A 19 de Fevereiro de 1990, morreu a meta­de que ainda subsistia da intrigante entidade chamada “Michael Powell & Emeric Pressburger”: não lembra ao ínvio Deus o realizador de um filme serem dois, como eles foram por décadas. Pressburger, a metade austríaca do mais fa­moso par do cinema inglês, já fora há uns anos para o céu, no tapete voador do Ladrão de Bagdad que Powell lhe emprestou. Entretanto, Powell tinha ficado à espera: ainda queria filmar mais.
Powell vira uma casa, na Fin­lândia, construí­da por Eliel Saarinen, irmã gé­mea do seu romantismo exa­cerbado. Pareceu-lhe o cená­rio ideal para filmar A Queda da Casa Usher. Os amigos, Coppola e Scorsese, moveram influências e arranjaram-lhe um acordo com a produtora Canon. Dean Tavoularis, o melhor dos art directors, o braço direito da imaginação de Coppola, disse que sim, que seria o designer da produção. Philip Glass já tinha composto a música para a banda sonora. Coppola e Scorsese, quando ele lhes pediu, juraram que acabariam o filme se Powell morresse a meio do projecto. De repente a má notícia: a Canon derrapou e entrou em colapso financei­ro. Powell não chegaria a juntar-se ao grupo de cineastas que adaptou Edgar Allan Põe ao cinema.
O grupo de Michael Powell é mais restrito. É um grupo de dois membros. Ele e Pressburger. Não começaram juntos. Só se encontraram em 1939, já a Europa estava a arder. Antes, Powell tinha tido tempo para tudo. Nascera em 1905, em Canterbury. O pai era dono de dois hotéis na Riviera francesa. As celebridades, os famosos «exilados» de Monte Carlo, desde a entourage de Scott Fitzgerald aos bailarinos de Diaghilev, povoaram-lhe noites de sonho e dias de trabalho, nas férias que costu­mava passar no hotel. Aos 17 anos, cinéfilo de cabeça perdi­da, film buff num tempo em que ainda os não havia, pediu emprego a Rex Ingram, «exilado» de Hollywood, a filmar num estúdio em Nice. O segundo emprego deu-lho Alfred Hitchcock, que nunca se esqueceu dele. Voltariam a encontrar-se em Hol­lywood, no final da Guerra. Powell procurava uma actriz ame­ricana para A Matter of Life and Death. Hitchcock suge­riu-lhe uma desconhecida que acabava de testar, Kim Hunter. «Sabe representar, tem boa voz e boas pernas», acrescentou Hitch. «É californiana?», perguntou, sabe Deus porquê, Powell. «Não, é uma senhora», respondeu Hitch.

A escolha das mulheres

As boas pernas foram uma obsessão de Powell na escolha das actri­zes. Quando elegeu Wendy Hiller para actriz principal de I Know Where I’m Going — ah, o meu filme favorito dele — subli­nhou bem que a personagem precisava, como de pão para a boca, de «lovely body and lovely legs».

As ruivas foram a outra obsessão. Casou-se com uma aos vinte anos. Ruiva, bailarina e americana, deixou-o ao fim de três semanas. Ruiva e americana foi também a sua segunda paixão. E de caixão à cova foi a paixão que teve pela terceira ruiva, Deborah Kerr, protago­nista feminina do Colonel Blimp. Em 1942, durante as filmagens, no dia de anos dela — o dele também — Powell levou os 21 anos de Deborah a jantar. «Pedi-a em casamen­to. Tanto quanto me lem­bro, deixámo-nos ficar sen­tados, as mãos muito agar­radas, mudos como duas os­tras». Nunca casaram.
Quase tudo o que sei da bio­grafia dele — o mundo mági­co de Canterbury, o relaciona­mento com Pressburger, a for­mação da Archers, a compa­nhia com que produziriam os seus próprios filmes — bate forte e certo com a moral ro­mântica da criação artística de que Lermontov, herói dos Sapatos Vermelhos, foi o paradigma. Powell acreditava que a arte era a própria natureza do ho­mem. Se lhe tivessem pergun­tado porque é que filmava, de certeza que roubaria da boca de Moira Shearer, palavra por palavra, a famosa réplica: «E você, por que é que vive?»

Paixão dos filmes, significações obscuras

As grandes linhas da sua obra começam a definir-se em 1939, ano do seu primeiro trabalho com Pressburger, em The Spy in Black. Nos filmes subsequentes, em que a parte de leão da realização lhe per­tence (a Pressburger o crédito pelos argumentos), a impossibilidade de separar a imaginação (Sapatos Vermelhos) ou o misticismo (A Matter of Life and Death, este sim, o meu filme favorito dele) da realidade, provocam a fusão do irracional com o quotidiano na sua obra, e é dessa fusão que resulta a «sensibilidade romântica» de que apaixonadamente David Thomson, para só referir o seu melhor comentador, acusa o seu cinema.
As visões românticas e sobrenaturais de Powell deixaram sempre um sabor amargo ao paladar dos seus compatriotas. À medida que esse romantismo se extremava e as «significações obscuras» se iam adensando, correndo como um rio para o que viria a ser o oceano mórbido de Peeping Tom, mais os amores dos ingleses por Powell iam empalidecendo. Se a «fantasia» lhes parecia bem, já o expressionismo remanescente lhes parecia pouco inocente. E o expressionismo, chegado por via de Ingram, assombrava mais e mais a atmosfera dos seus filmes, de A Matter of Life and Death a Tales of Hoffmann, passando pelo erótico e estarrecedor Black Narcissus (e este é que é mesmo o meu Powell favorito).
Depois veio o sexo e crime de Peeping Tom, filme dos anos 60 mal amado e mal compreendido, e PoweIl foi praticamente enterrado em vida. Foi preciso chegarem os anos 80, foi preciso Scorsese, Coppola, Spielberg e Lucas levarem Powell nas palminhas e desfilarem em parada clamando que ele era o melhor dos cineastas; e que nunca ninguém usara como ele a cor; e que os seus filmes feéricos (Ladrão de Bagdad e Sapatos Vermelhos) eram um dos maiores elogios à imaginação feita pelo nosso tempo, para que ele e os seus filmes fossem reavaliados e chamados ao lugar que mereciam e merecem no Panteão do cinema.
Numa projecção do mágico Ladrão de Bagdad, feita por Coppola em Hollywood, para uma sala cheia de crianças, um miúdo veio devagarinho sentar-se nos joelhos de Powell: «Foste tu que fizeste este filme? É o melhor filme que já vi!»
Ai de quem se atreva a desmentir este miúdo!

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a Uma noite no sótão: Michael Powell

  1. teresa conceição diz:

    Estou como o seu Cintra, Manel nosso.
    A roer-me de inveja e com vontade de não descansar até que repitam o ciclo na Cinemateca.
    (O bem que me fez o do Nicholas Ray não tem explicação).
    Linda folha, Manel.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Palpita-me que o teu favorito do Powell seria o Black Narcissus! Embora lá escrever uma carta muito cortês à Cinemateca pedindo-lhes que voltem a passar os filmes dos P&P?

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel , a minha ignorância desconhecia quase tudo deste incrível texto, a partir do qual imaginamos muito e querems mais…para alem da retrospectiva não esquecer o museu do sótão, e já agora porque não um curso de “elearning” ( estão na moda ) sobre cinema?

  3. Pedro Marta Santos diz:

    Uma romântica evocação do mais romântico dos cineastas. Há hoje alguém com menos de 30 anos que saiba quem foi Michael Powell? E no entanto, é um dos maiores artistas do século XX. O Mahler das falésias de Dover, John Everett Millais de Canterbury. Um dos realizadores que me traz amantizado, desde que vi “Black Narcissus” aos 12 anos, um filme sobre sexo do primeiro ao último segundo (comecei cedo na escravatura sexual).

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