Uma questão de estrelas

Fiz as pazes com o cinema português. Tudo não passou de um mal-entendido. Um mal-entendido provocado por certos senhores (com pretensões a) fazedores de opinião. Que, de tanto quererem formar uma opinião imaculada de tão perfeita sobre a invariavelmente superlativa produção cinematográfica portuguesa, acabaram por me por a milhas de qualquer filminho feito com a nossa prata da casa. Eu sei, eu sei, que estou a ser injusto, que não há ovos sem omeletes, que o nosso dinheirinho não dá para mais de oito filmes por ano, que temos o Manuel de Oliveira e o Pedro Costa, tão aclamados lá por fora, e agora o Miguel Gomes e o João Salavisa a darem cartas em Berlim. Mas, convenhamos, porquê tanta estrela a encher as páginas dos jornais sempre que se escreve sobre um filme português? Porquê sempre um peso e uma medida diferente – mais favorável, claro está – na avaliação de qualquer “projecto cinematográfico” feito exclusivamente a pensar no umbigo do realizador e dos seus amigos?

Por acaso ou não, foi mesmo um argumento de um colega dos tais fazedores de opinião – o incontornável João Lopes, que foi ali à cabine telefónica mais à mão trocar a sua veste de crítico pela de argumentista (concretizando, ao que dizem, o sonho de qualquer desses fazedores de opinião) – que provocou o divórcio. Se bem me lembro, o “projecto” levava o título de Lá Fora e o realizador era o Fernando Lopes, um “histórico” que tinha no currículo mais estrelas do que aquelas que cabem numa noite alentejana de verão de céu limpo. Certo é que o filme, apesar de constituir um ostensivo atentado à inteligência (para qualquer mortal, e fosse qual fosse o “ângulo” seguido para a abordagem ao “projecto”), lá fez o histórico Fernando Lopes aumentar significativamente o seu pecúlio de estrelas, repartindo-as desta vez com o outro Lopes, o incontornável fazedor de opinião João. Aquilo foi tão chocante para mim que me senti gozado até à quinta casa. E jurei que não me apanhavam noutra. Muito preconceituosamente, desenvolvi para mim próprio a tese de que os tais fazedores de opinião, bem lá no fundo, com aquelas estrelas todas que generosamente distribuíam, mais não queriam do que afastar os tontos como eu e ficar com os filmes só para eles, para com eles se masturbarem intelectualmente em círculo bem fechado.

Como bom preconceituoso em que me transformei, durante largas semanas resisti estoicamente à enxurrada de estrelas dispensadas ao Sangue do meu Sangue, do João Canijo. Aliás, desta vez, cinco estrelas parecia saber a pouco para a masturbação da ordem. No mínimo, o filme era o melhor do ano à escala mundial, como se defendeu, natural e convictamente, em variadíssimos jornais.

Eu já decidira que não voltavam a apanhar-me numa armadilha feita com engodo de estrelas. Mas, já depois do filme ter saído de cartaz, lá acabei por soçobrar quando o filme veio ter comigo, incluído numa edição do Público. E assim se deu a minha reconciliação com o cinema português. Quem sabe, talvez alguns fazedores de opinião voltem a merecer-me o benefício da dúvida. Não será o melhor filme do ano à escala mundial. Mas, fora alguns clichés do argumento (mas porquê o incesto, sempre o incesto?) e um final mais ou menos previsível, trata-se de uma magnífica fita. E é digna, é sim senhor, de umas estrelas bem gordas.

 PS: Entre os senhores com pretensões a fazedores de opinião acima citados não se incluem, obviamente, os meus ilustres colegas de blogue que se dedicam ou dedicaram à crítica de cinema. A eles, muito pelo contrário, devo, para além de mãos cheias de boas sugestões, um olhar bem mais enriquecido sobre muitos filmes, os que já vi e os que estou para ver.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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11 respostas a Uma questão de estrelas

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Diogo, abriste o livro, como se costuma dizer. Tenho andando demasiado longe do cinema português para vir meter colherada crítica no que dizes. Gosto bastante, pessoalmente, de algumas das pessoas que aqui referes, do Manoel, do Fernando Lopes (e há filmes de ambos que muito prezo). E do João, embora, filosófica e criticamente, tudo dele me distancie. Lembro-me com simpatia do Pedro Costa e do João Canijo que deixei de ver há muitos anos. Não conheço os novos. Estou, de certeza, nos antípodas quanto a ideias sobre financiamento e produção, mas dos filmes recentes deles nada sei. É bom de ver que tenho de ver o Sangue do Meu Sangue!

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, nada tenho de pessoal contra os ditos “fazedores de opinião”. Não tenho o prazer de os conhecer e, provavelmente, serão até tipos encantadores todos eles. Mas que alguns deles exageram no favorecimento, isso entra pelos olhos dentro. Até aceito que exista um diferente critério de avaliação entre o Scorcese e um jovem acabado de sair da Escola Superior de Cinema. Mas, por favor, que o assumam, que digam claramente que são de campeonatos diferentes. Quanto ao Oliveira e ao Pedro Costa, não quero sequer trazê-los a esta discussão, até porque o reconhecimento, no seu caso, vem também de fora. E até gosto de alguns filmes do Oliveira.

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Não cheguei a ver…acredito, pelo que ouvi de boca e não de leitura de crítico, que será um bom filme. Espero ainda apanhá-lo por aí “num cinema perto de si”. Quanto à opinião de muitos dos “fazedores de opiniões” que por aí andam, já só leio o que me apetece!

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, podes vê-lo em Dvd, como eu o fiz. Vale mesmo a pena. E fiquei com vontade de ver outros filmes do Canijo.

  3. pedro marta santos diz:

    O Canijo, quando não anda ocupado a pregar tabefes aos fazedores de opinião, é hoje o mais interessante realizador português.

    • Diogo Leote diz:

      Se o dizes, Pedro, ainda mais convencido fico de que o Sangue do meu Sangue não é um caso isolado. Até me sinto mal de não ter dado a devida atenção ao Canijo antes.

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Ó Diogo, já te tinha dito que valia a pena ver o filme.
    E recomendo “Noite Escura” do mesmo realizador.
    Que se lixem os fazedores de opiniões:-)

  5. Teresa Font diz:

    Diogo, que bom. Acho tudo igualzinho. E não tive trabalho nenhum. Com uma excepção não referida e que não refiro.
    Bitaites tenho o “Mal Nascida”. Até me pareceu mentira.

    • Diogo Leote diz:

      Teresa, ainda não o vi o Mal Nascida mas claro que quero vê-lo. Pelo Canijo e, sobretudo, pela Anabela Moreira, cada vez mais a sua actriz-fetiche, e que, no Sangue do meu Sangue, tem uma interpretação impressionante. Fazem falta actrizes como ela, que se exponham quase até aos limites da degradação física.

  6. Diogo Leote diz:

    Eugénia, mais dois para a minha lista. Fiquei fervoroso adepto do Canijo. Quando vir o Sangue do meu Sangue, conhecerá (se ainda não conhece) mais outra actriz extraordinária e inesquecível: Anabela Moreira.

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