Wisdom, o livro

 

                                                                 Chinua Achebe, um dos retratados no livro.

Sente-se que a urgência no tempo anula a experiência da vida. Porque podemos passar pela vida sem a viver. Na ansiedade de vivermos tudo e de todas as formas, desperdiçamos o doce remoer do tempo, que imutável no seu ritmo, leva a sua postura avante. É uma urgência que sentimos na velocidade das imagens, das histórias, das emoções e na rapidez do próprio amor, que se vende, se troca, e aparece disfarçado de felicidade a cada esquina. A sensação de que o enorme barco da historia se movimenta cada vez mais depressa.

Tudo isto vem a propósito de um livro de fotografia, mais precisamente de retratos, e que ainda é acompanhado por um filme. Andrew Zuckerman fotografou e filmou 50 personalidades de variadas orientações profissionais e nacionalidades, da música ao cinema, da culinária à religião e à política. Com uma única condicionante: terem todos mais de 65 anos. Uma ideia central: a sabedoria acumulada (wisdom no original), como dádiva de uma geração para outra. Aquilo que passa, ou aquilo de que vale a pena guardar memória. Como as fotografias são ainda acompanhadas por textos, da autoria de cada pessoa fotografada, ficamos com uma imagem viva do que pensam e quem são os protagonistas do livro.

É por isso um elogio à idade, um livro que faz o agradecimento sentido a todos aqueles que ao viverem antes de nós e por mais tempo, foram limpando o caminho de espinhos e alisando as curvas mais apertadas, para que possamos andar com menos quedas, ou para passarmos a apreciar mais o desconhecido, o salto para o escuro. Através da sua experiência podemos viver de outra forma, possivelmente melhor.
Contrastando com muito do pensamento dominante que se concentra na importância do presente, do aqui e agora, que aposta na persistência do culto do parecer que afoga o ser, este livro é um elogio à vida que só existe embrenhada no tempo.
É necessário deixar trabalhar o tempo, que remoi e altera, obriga a reflectir, delineia contornos antes desconhecidos.

E é gratificante ver as caras e as palavras escritas por cada uma destas 50 personagens. Olhar o peso nas rugas, a realidade da idade nos sulcos da pele, que não escondem propositadamente por a considerarem um aspecto inerente ao seu carácter. E entender que cada experiência é distinta e única em si.

Num mundo que muitas vezes avança demasiadamente rápido para um lugar estranho que não tivemos (ainda ) tempo de conhecer, numa sociedade onde o chegar é muitas vezes mais importante do que o caminho que se percorreu, faz falta este tipo de elogio. Um retrato do tempo estampado na pele humana, uma síntese da vida em feições e letras.

 

 

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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10 respostas a Wisdom, o livro

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Obrigado Bernardo, é mesmo bom saber que a sabedoria tem rugas.

    • Luciana diz:

      É inspirador pensar que a vida desenha à mão livre, em nosso corpo, as experiências tantas. Tenho, é certo, um risquinho no canto da boca e uns traços ao lado dos olhos, de sorrir ao vir visitar os tristes e encontrar tão instigantes posts. Obrigada.

      • Bernardo Vaz Pinto diz:

        Olá Luciana, gostei dessa frase da vida desenhar em mão livre a experiência no nosso corpo, e esses traços são os traços de uma vida que se quer cheia. Obrigado também por estar aí.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Rugas e lanhos Manuel, mas isso é ouro comparado com os plásticos siliconizados das aparências que se desfazem com a primeira brisa da manhã…

  2. Não conhecia o filme, o livro achei maravilhoso
    agora que vi o filme ainda gosto mais do livro

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Gosto principlamente de ligar as caras aos textos….e alguns dos textos são muito bons…
      O DVD do filme acompanha o livro, não sei se se pode comprar à parte…

  3. Paula Ferreira diz:

    Não conheço o livro nem o filme, mas agora não deixarei passar em branco. Obrigado Bernardo, por nos trazer boas sugestões!

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Olá Paula, vale a pena ver o original e em mão, pela forma e tamanho, ( um quadrado de 3o cm), e pela qualidade da impressão das fotografias e dos textos. Penso que infelizmente só na Amazon, mas pode ser que esteja errado…

  4. Pedro Marta Santos diz:

    Óptima sugestão, Bernardo. Termos deixado de prestar a devida atenção à sabedoria dos mais velhos é, provavelmente, uma das causas para a actual decadência da civilização ocidental.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Eu lembro-me que já há uns largos anos se dizia que “os povos orientais respeitam mais a velhice”. Acho que o problema é hoje mais universal e terá a ver com um maior egoísmo e desenraizamento cultural que leva ao abandono dos velhos em lares. Mas ficamos mais pobres sem dúvida.

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