Zola, Jesus regressou mas é mulher e ateia…

 

Mero acaso biomecânico da rede: acabei de ouver uma musiqueta qualquer, no Facebook, e logo o mosaico da Youtube se abriu em quatro janelas de temas congéneres e/ou periféricos, numa das quais ressaltava blasfemo nome: Zola Jesus.
Kreutzen kagnoten!
É que fui logo ver, claro.
Sinceramente, mais do que a música que estava a ouvir, o que me encantou mesmo foi a estática imagem de árvores que ilustra a música.

Depois ouvi com atenção e achei mais qualquer coisa.

Googlanço aqui, youtubanço acolá, deparou-se-me um retrato um pouco difuso mas bastante interessante.
Americana de ascendência russa, nascida em 1989 mesmo atrás do sol-posto – mais propriamente no North Winsconsin –, Nika Roza Danilova foi criada num gélido ambiente de caçadores e caçadas, cabeças de veado cortadas sobre a neve branca e fortes refeições de carnes bravias. No sempre chato wikitexto sobressaíram uns nomes a que não fui verificar as associações (por ser escusado): Philip K. Dick, Ian Curtis e Schopenhauer.
Adiante, que é como quem diz para trás.
Um dia, aos dez anos, ouviu pela primeira vez na vida uma ária de ópera e desatou a estudar canto – muito contra a vontade dos pais. Conta que nessa altura o stress de falhar como cantora de ópera a fazia perder a voz com frequência.
Se alguma vez a perdeu o certo é que voltou a encontrá-la, num registo que por vezes se aproxima da de Elizabeth Fraser mas com uma outra personalidade, a meu ver bem mais intensa. Em algumas das composições surge também, por vezes, a evidente raiz no canto lírico.
Mas antes de entrar na exibição pública, Nika Danilova (futura Zola Jesus) fez um bacharelato em negócios (Miliwakee), ao que se seguiu uma incursão em francês e filosofia, em Madison. Foi aí (2007/8) que iniciou as suas gravações privadas, utilizando por único acompanhamento um sintetizador.
Gravava apenas no Inverno.
Sobre o assunto: «A lot of the songs are cold, but in the coldness you find warmth. Winter has a lot to do with it».
Joy Division, Diamanda Galas…, quem sabe se não também resquícios dos Resident, dos Popol Vuh e até do infrequentável Allan Vega?…
Mistura esquisita?
É simplesmente (e ainda bem) a auto-declarada ateia Zola Jesus, nos seus 23 aninhos, mais as suas curiosas litanias líricas.

Eu gosto.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a Zola, Jesus regressou mas é mulher e ateia…

  1. Diogo Leote diz:

    António, já a vi ao vivo, no Sudoeste do ano passado. Tem uma voz que impressiona. E faz lembrar a Siouxsie Sioux, uma boa memória dos anos 80.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Tem um vozeirão, Diogo, eu nem sabia da sua existência (afinal com 23 anos e três de carreira não é de estranhar).

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Surpreendente, não conhecia! As imagens quase que ofuscam a voz e a musica mas vou voltar a ouvir…

  4. manuel s. fonseca diz:

    Não fiquei fã da música (que me cheirou que poderá ser muito boa em cinema) mas fiquei fã do teu texto de neve branquinha e carnes bravias – ó o inverno!
    Olha lá, meu, e já foste ver a exposição do Batarda que está aí ao teu lado? Tem coisas divinas de sexualidade, de boçalidade (termo dele) numa linha por vezes abjeccionista de que o Otto Dix havia de gostar. Vi e dei uns 5 ou 6 bons saltos. Muito bom…

    • António Eça de Queiroz diz:

      Sim, vê-se bem esta música no cinema, imagino que sim.
      Ainda não fui ver o Batarda mas vou, isso é garantido.

Os comentários estão fechados.