100 posts e ainda não sei porque se escreve num blog

Escreve-se num blog, em primeiro lugar, porque se pode. Se fosse proibido acabavam-se logo as frescuras. Mas não é. Para raiva e revolta de René: posso, logo rascunho.

Escreve-se num blog, em segundo lugar, por puro gozo e diletantismo. Pode ser que, como um chato aos trambolhões*, alguém escreva por dever ou missão, como se andasse a juntar dinheiro para comprar uma máquina de costura, uma scooter ou um i-pad. Há malucos para tudo. Seja como for não conheço nenhum. No Escrever é Triste, a começar na juvenilíssima Tia que o patrocina, vejo bem que todos os que escrevem são uma espécie de Fernão Mendes Pinto da blogosfera: uns peregrinos da aldrabice, uns romeiros da inutilidade. Meus irmãos e irmãs da tanga.

Escreve-se num blog, em terceiro lugar, por amizade e mesmo um bocadinho de amor. Às vezes, para ganhar amizades novas, estragam-se amizades que já estavam velhas e precisavam, como as pratas, de ser areadas. Perdoem-se as velhas que se perdem com as novas que se ganham.

Escrever num blog é uma espécie de respiração boca a boca da amizade. Cada post é um sopro de primeiros socorros nos inanimados pulmões dos co-autores ou de gráceis leitoras, vá lá, leitores. Olha, digo agora mais íntimo, quando leio os posts das minhas e meus camaradas, parece que os estou a ouvir: toma lá este chequezito, mas não vás já gastar tudo em aguardente. Isto sim, é que são acções de graça.

E repito-me até porque um blog é estar sempre a dizer a mesma coisa: um blog é uma realíssima inutilidade. Ainda bem: estamos cercados de utilidades por todo o lado. O mundo tresanda utilidade: os jornais são úteis, é útil a televisão, o Governo é uma precisão, a Igreja mete a mão. As ONG são o cabo da utilidade, para alguns até as artes, utilidades putas, utilidades polícias e paneleiras.

Então, o inútil blog é um raio de solidão? Pois olhem: antes só do que mal acompanhada, ri-se a boazona da Escrever.

É também para me poder rir sozinho que escrevo, Triste, neste blog, sabendo que nunca estive tão bem Tristemente acompanhado.

Cem posts e continuo sem saber o que é um blog! Essa é que é essa.

 * A caminho da Califórnia
vai um chato aos trambolhões
Mandou perguntar ao caralho
Onde ficavam os colhões.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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27 respostas a 100 posts e ainda não sei porque se escreve num blog

  1. Galatéia diz:

    Manuel, apesar de manter vários, uns evidentemente sozinha, outros em solidão partilhada, também eu não sei o que é um blog. Algumas vezes, nem mesmo sei porque escrevo. Mas sei bem porque leio. Justo pelo que eles não me servem.

  2. Ana Rita Seabra diz:

    Óxigénio não me falta a conta de cada sopro que tenho levado!
    Ao contrário do que parece, sinto-me alegremente acompanhada por aqui 🙂
    Thank you

  3. Rita V diz:

    não sei o que fazer … quero o livro de reclamações ou lá como se chama…
    vou fazer queixinhas à Tia e é já!

  4. heloisa diz:

    Acho, Manuel, que um bom e criativo tédio pode , também, estimular ao blog: na falta do que fazer, bloga-se.
    Blogo, logo existo.
    Claro, além de todas as demais razões que você tão bem lembrou neste blog triste.

  5. Agota pergunto eu: e para que servem a poesia, o romance, o teatro, a pintura, a dança, a música …
    Respondo também: puro prazer …

    Ou será que quem faz a obra não sente prazer ao perceber que mexe com as emoções do outro?

    Duvido!

  6. Lunna diz:

    Bem, esse ano completo dez anos de blogues e quando comecei a fazer isso, achava que era algo pra mim, depois passei a ter certeza e hoje praticamente é um olhar no espelho. Mesmo com os comentários que aparecem vez ou outra é apenas um diálogo. Alguém que chega, puxa a cadeira, pede algo para beber, diz alguma coisa e vai embora, as vezes sem pagar a conta. rs

    bacio

  7. Panurgo diz:

    Eu estava convencido de que isto era apenas uma boa desculpa para o Manuel falar do rabo da Bardot. E uma boa desculpa para eu ler o rabo da Bardot.

  8. Carla L. diz:

    Acho que blogs são conversas solitárias compartilhadas.E talvez isso é que seja a tal da amizade.Uns blog são mais próximos que os outros, assim como os amigos de verdade. Aqui sinto-me uma visita que passa uma vez ou outra para um refresco, que nem sempre é o meu favorito.Mas tem dias em que dou sorte, como hoje!!!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Um solitário refresco, não é Carla?

      • Carla L. diz:

        Certamente…tem dias em que sinto falta dos chás compartilhados em outros tempos.

        • Manuel S. Fonseca diz:

          Estimadíssima Carla, não se pode ter tudo: refrescos e chá ao mesmo tempo seria como sol na eira e chuva no nabal. Mas tê-la a si, mesmo que seja em visitas bissextas, já é muito bom.

  9. Pedro Bidarra diz:

    Eu escrevo num blog porque senão não escrevo. Assim fica escrito

  10. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Não é preciso saber para escrever, basta querer…não é preciso enunciar basta escrever…é já lá vão cem…continue sem parar.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Bernardo, se eu contar até 100 sem parara… durmo. Contar é o meu sedativo preferido: tiro e queda.

  11. pedro marta santos diz:

    E venham mais cem, doutor!

  12. fernando canhao diz:

    um bom fim de semana.

  13. Manuel S. Fonseca diz:

    Fernando, a obra pareceu-me prima. Sobretudo para um fim de semana.

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