A comédia que me faz chorar

O mor­domo e o ado­rá­vel redneck

Vamos lá falar de res­peito. Não tenho res­peito nenhum por uma comé­dia que não me faça cho­rar. E ainda menos por um drama que não me faça rir.

Os cómi­cos mais len­dá­rios eram uns tipos tris­tes. Nos fil­mes de Cha­plin e Bus­ter Kea­ton é nos fios melo­dra­má­ti­cos que ambos tro­pe­çam, induzindo-nos a uma man­si­dão sen­ti­men­tal que logo a seguir esti­lha­çam com um gag. Ou seja, um tipo, quando é bom a fazer rir, ama. Escuso de dizer que quando é mau, odeia? Escuso, mas digo. Um dos pro­ble­mas da comé­dia que hoje nos inunda é o ódio. O cómico, agora, não se dis­solve na vida e ainda menos nas pes­soas. O cómico pas­sou a ser um juiz. Polí­tico, sobre­tudo. O sar­casmo subs­ti­tui o gag. A altiva asser­ti­vi­dade crí­tica des­tes novos cómi­cos ames­qui­nha o objecto do humor. Às vezes não parece que este­jam a fazer comé­dia, mas só a vingarem-se.

Ora bolas para a teo­ria. Vamos mas é ao cinema. Leo McCa­rey, um daque­les ame­ri­ca­nos irlan­de­ses e cató­li­cos que fize­ram a gló­ria de Hollywood, foi o pri­meiro cine­asta a ganhar o Oscar com uma comé­dia. Não é dessa, “Awful Truth”com Cary Grant, que falo. A minha favo­rita, pelo que já me fiz rir e cho­rar, é “Rug­gles of Red Gap”. Um aris­to­crata inglês perde ao jogo o seu mor­domo (Char­les Laugh­ton) para um mili­o­ná­rio ame­ri­cano ado­ra­vel­mente pro­vin­ci­ano. Rug­gles, o mor­domo, é mais rígido do que um pau de vas­soura: rígido na eti­queta que venera; rígido no res­peito à estra­ti­fi­ca­ção social em que foi edu­cado. Ao che­gar a Red Gap, o saloiís­simo rin­cão onde vive o des­pre­ten­si­oso mili­o­ná­rio, Rug­gles tem o cho­que da vida dele. O mili­o­ná­rio é um poço de espon­ta­nei­dade, os habi­tan­tes da small town uns gigan­tes de can­dura e generosidade.

De que é que nos rimos, no filme? Da huma­ni­za­ção do mor­domo. Uma a uma diluem-se as regras do espar­ti­lho que faziam Char­les Laugh­ton pare­cer um atá­vico armá­rio com per­nas. O mor­domo desengoma-se, pri­meiro um braço, depois os lábios que apren­dem a sorrir.

Acon­tece então uma das cenas mais polí­ti­cas e mais como­ven­tes do cinema ame­ri­cano. No saloon, os cámo­nes todos a beber, alguém invoca o “dis­curso de Gettys­burgh”, dito por Lin­coln, em plena Guerra Civil, no campo de bata­lha onde mor­re­ram 7.500 homens. Um dis­curso que qual­quer ame­ri­cano sabe de cor. Só que, no saloon – que ver­go­nha – já nin­guém se lem­bra. Até se ouvir um débil mur­mú­rio. Voltam-se as cabe­ças e um grande plano mostra-nos os lábios de Laugh­ton a dizer, como Lin­coln, que “esta nação verá renas­cer a liber­dade” e que “o governo do povo, pelo povo, para o povo jamais pere­cerá da face da terra.” O que vemos, nesse plano, é o rosto de um homem, um mor­domo, que acaba de con­quis­tar a plena huma­ni­dade. E a olhar­mos para esse homem igual aos outros homens, não sabe­mos, é ver­dade, se have­mos de rir, se have­mos de cho­rar. Faze­mos, é bom de ver, as duas coisas.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 Respostas a A comédia que me faz chorar

  1. … e que bom foi lem­brar a Elsa Lanchester

  2. Pingback: O saco de feijões e os sentimentos dos legumes | Escrever é triste

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel: Sem Pala­vras! Abso­lu­ta­mente extra­or­di­ná­rio! A cena é real­mente lin­dís­sima, o dis­curso (um clás­sico ao qual deve­mos sem­pre vol­tar…) como ver­da­deira metá­fora de um ideal Huma­nista e de um país…E não conhe­cia o filme !!!!

  4. pedro marta santos diz:

    É um grande filme e uma boa evo­ca­ção, sim senhor.

  5. manuel s. fonseca diz:

    Eugé­nia, é que não apre­cio mesmo quase nada da comé­dia con­tem­po­râ­nea, exac­ta­mente pelas razões que subli­nha. Veja um dia des­tes o filme. Vai gostar.

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