A Companhia dos Lobos

"A Presa", de Joe Carnahan

É, para já, o melhor filme de acção do ano. Joe Carnahan, o realizador, chegou a ser dado como um caso perdido. Estreara-se nas longas-metragens em 1998, e ao segundo filme tornou-se uma das grandes promessas do cinema americano. O filme chamava-se “Narc” (se tiver sorte, ainda o encontra em DVD) e era uma magnífica tragédia contemporânea sobre dois polícias da Brigada de Narcóticos de Detroit (Jason Patric e Ray Liotta), presos numa teia de corrupção, violência e remorso onde nunca se sabe quem é a vítima ou o agressor – parecia uma viscosa antecâmara da série de TV “A Rede”, o mais próximo de Dostoievsky que alguma vez se viu em televisão. O aplauso da crítica estragou Carnahan e, após discutir com Tom Cruise, recusando a realização de “Missão Impossível III” (ainda mostrou uma réstia de juízo), dirigiu um intragável pastiche das fitas de gangsters (“Um Trunfo na Manga”, 2006) e o canino “A-Team – Soldados da Fortuna”. Tinha batido no fundo. Mas, de repente, surge este “A Presa”, e ficamos presos.

John Ottway (o 1,93m de Liam Neeson) é segurança de uma companhia petrolífera no Alaska, composta por malta duvidosa, com cadastro – a escória da Terra no fim do mundo. De regresso a Anchorage, o avião que transporta os trabalhadores da empresa despenha-se na neve, deixando Ottway (contratado para balear os animais selvagens que se aproximassem da base) e mais sete sobreviventes sob uma tempestade a 40 graus negativos. A comida é escassa, o tempo implacável, mas a grande ameaça é uma alcateia de lobos cujo covil fica perto do local do desastre.

 A luta Homem-Natureza é um clássico de todas as artes – basta ver as pinturas rupestres de Lescaux ou Altamira. Carnahan, de forma surpreendente, não a desmerece: todas as personagens estão cravejadas de defeitos, e não  há heroísmo nas suas acções, apenas o instinto de sobrevivência. A intriga é simples e dura como a paisagem. Liam Neeson, quase com 60 anos, mostra-se uma presença gigante, com o fantasma mental da mulher desaparecida comandando-lhe os gestos (por vezes, olha-se para ele e parece estar a recordar Natasha Richardson, a actriz sua companheira, falecida num acidente em 2008). Os secundários são todos de nível superior, de Dallas Roberts e Frank Grillo (de quem há um longo plano inesquecível) ao esgotado Dermot Mulroney, e os lobos não perseguem apenas este grupo de renegados: também nós sentimos o frio, as tochas que rompem a noite, o cheiro do sangue, o medo. Sem meias-tintas, quase cedendo ao desespero, “A Presa” é o que um filme de acção deve ser.

 Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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4 respostas a A Companhia dos Lobos

  1. Rita V diz:

    Não vou perder

  2. manuel s. fonseca diz:

    Bolas, já me estragaste o fim-de-semana: amanhã lá tenho de ir ver.

  3. fernando canhao diz:

    vai para uns anos Liam Neeson (reformado da CIA) surgiu-me como pai galinha num filme em que lhe raptam a filha (Taken). Claro que acerca de um ex CIA se pode dizer tudo, que considerar Paris um sitio perigoso para teen agers dos USA me parece um pouco exagerado, etc. etc. A minha filha mais nova fazia nessa altura o Erasmus por essa Europa. Ver o homem a despachar nos maus (e tantos) como quem bebe capiles soube me mesmo muito bem. As pessoas mas se lhes arrearmos sem perguntar se querem, doem se como nos. E convem dar lhes por detras para nao se defenderem. Que cada qual escolha os seus maus. Por mim seria sempre de motossera. Se nao teem vergonha, os maus, ao menos que tenham medo. Claro que Neeson no filme nada tem de cruel, tem e pressa pois esta preocupado com o que podera acontecer a sua filha. A classe poiltica portuguesa nao tem sido boa para as minhas filhas.

  4. pedro marta santos diz:

    Espero que se divirtam, amigos. No cinema, um dos poucos sítios dos dias que correm onde não nos podem fazer mal.

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