A Crise

 

"O Dia Antes do Fim", de J.C. Chandor

O efeito dominó da crise financeira de 2008 continua a fazer vítimas – todos nós. Somos vítimas do conforto em que nos instalámos, confiantes nas virtudes infinitas do crédito e na miragem de taxas de juro baixas como anões de circo. Mas, sobretudo, continuamos a ser vítimas da ganância dos gestores bancários (“greed is good”, como dizia Gordon Gekko em “Wall Street”), da impunidade face aos especuladores, do triunfo do capitalismo sem freios, da conivência dos reguladores, da mediocridade dos políticos, da ausência de solidariedade dos Estados, da falta de visão dos tecnocratas. “Wall Street 2”, de Oliver Stone, era um melodrama caricato, mais interessado na dinâmica entre pai (o Gekko de Michael Douglas) e filha (Carey Mulligan) do que na radiografia da catástrofe que nos trouxe até aqui. “Too Big to Fail”, o telefilme da HBO realizado por Curtis Hanson (“L.A. Confidential”, “8 Mile”) sobre o “verão quente” de 2008, mostrou ser um retrato incompleto da cumplicidade entre banqueiros, políticos e instâncias reguladoras que provocou – ou não impediu – os efeitos das aplicações financeiras ”tóxicas” e a derrocada das hipotecas norte-americanas, com efeitos globais. “O Dia Antes do Fim” ainda não é, cinematograficamente, o “Apocalipse Now” da crise financeira, mas é o esforço mais talentoso até ao momento. Escrito e dirigido por J.C. Chandor, um estreante nas longas-metragens cujo pai trabalhou mais de 30 anos na Merrill Lynch, o filme decorre nas instalações de um desses gigantescos bancos de investimento, durante as 24 horas anteriores ao “crash” de Wall Street em 2008. Um analista júnior da empresa (Zachary Quinto) descobre os números que apontam para a tempestade perfeita: do modo como o banco tem manietado os seus fundos e as suas aplicações financeiras, a falência é iminente. E todo o mercado está prestes a implodir. O director do analista (Kevin Spacey, no seu melhor papel em anos) decide prestar-lhe atenção, há um corrector diletante (Paul Bettany, cínico como tubarão branco em águas calmas) que vai recordando o status-quo que perderá, iniciam-se as lutas do “salve-se quem puder”, noite dentro, na torre de vidro – de marfim? – da sede, até chegar o presidente do banco, John Tuld (Jeremy Irons, de voz macerada por mil Cohibas fumados em clubes para milionários). O rigor da encenação e o tom de batalha surda, fratricida, em que se decide o futuro de milhares de empregados e de centenas de milhares de clientes, evoca a tragédia shakespeariana – Irons, inesquecível, parece um cruzamento entre Shylock e MacBeth. As palavras e os gestos destes homens antecipam o que conhecemos: os culpados ficaram impunes, os desgraçados são a força motriz do Ocidente (a classe média). Tão lúcido como o documentário “Inside Job”, “O Dia Antes do Fim” é como espreitar para o interior da besta, e é uma visão obrigatória.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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11 respostas a A Crise

  1. Pedro Bidarra diz:

    Pois lá irei ver. Já agora, sobre o assunto, aqui fica a versão em comédia.
    [youtube http://www.youtube.com/watch?v=UC31Oudc5Bg&w=480&h=360%5D

  2. Rita V diz:

    não vou perder

  3. Diogo Leote diz:

    Já estava anotado na lista que nos deixaste aqui há uns tempos mas agora não escapa mesmo. E já estou preparado para o que vou ver, o Inside Job já me abriu bem os olhos…

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Vou ver já de seguida

  5. Vasco Grilo diz:

    Já o tinha visto nos USA à uns meses atrás. Fantástico o Jeremy Irons que volta a aparecer na pele de Scar, o pérfido tio do Rei Leão…

  6. pedro marta santos diz:

    Não é à “Contágio”, Eugénia. É muito mais cínico. Acho que vão gostar, companheiros.

  7. pedro marta santos diz:

    Tens razão, Vasco. É um Scar com unhas retocadas na manicure e covil no off-shore das Ilhas Caimão.

  8. Bernardo Vaz Pinto diz:

    O tema é, como bem refere, obrigatório…porque concordo que somos vítimas do nosso próprio conforto. Quanto ao filme está assente: vou ver!

  9. Maria diz:

    Gostei muito.Jeremias no seu melhor.À Borgia como não podia deixar de ser.

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