A escada em caracol

(Um desabafo, desabafado o ano passado no “Expresso”, que me apetece desabafar outra vez.)

Andava Sarkozy pelas ruas de Paris, no calvário da candidatura presidencial, faz já cinco anos, quando o ouvi dizer que a França tinha o elevador social avariado. Não sei se ele, nestes cinco anos de presidência, fez alguma coisa para o reparar, mas lembro-me de na altura pensar que em Portugal é diferente. Aqui não há elevador social, nem avariado. Há sim, uma grande escada em caracol que vai estreitando à medida que se enrola em direção ao salão onde vivem os que estão no topo da hierarquia social, financeira e cultural.

Teoricamente, ainda que demorasse algum tempo, seria possível lá chegar. Acontece que todos os degraus estão tomados e os que os ocupam, compreensível, humana e obviamente, não deixam passar. Subir, só à força, atropelando quem lá está, ou um degrau de quando em vez, quando morre o seu inquilino. Do salão vão, entretanto, descendo sobras que, quando chegam lá abaixo, chegam já em forma de migalhas.

É por não haver mobilidade social que hoje há uma fuga cada vez maior de jovens licenciados para o estrangeiro. Gente que nasceu nos degraus de baixo: em bairros periféricos, com o vocabulário errado ou em famílias sem ‘nome’. Gente que seria a única capaz de ter as novas visões e ideias que o país precisa, pois é a única descomprometida com o status quo. São esses que Portugal maltrata, os que se esforçaram por um futuro prometido pelo estudo e que, no fim, descobriram a mentira; que, afinal, não há elevador social. Depois, como quando uma família maltrata os seus, não há amor, só desprezo e vontade de fugir. Para esses não há patriotismo e por isso, com mágoa e revolta, cortam os laços e migram.

Claro que há uma alternativa à escada em caracol. Há um pequeno elevador de serviço que sobe até ao salão e onde cabe a bandeja e pouco mais; só o criado que a carrega. Esses que servem o salão, porque diligentes, espertos e bons servidores, às vezes acabam lá em cima. Primeiro à porta do elevador, a receber bandejas e a guardar os restos, depois, os mais espertalhões, sabujos e aldrabões, usufruindo eles próprios do salão. Esse elevador de serviço chama-se partido político e tem sido até hoje, em Portugal, praticamente o único elevador social.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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15 respostas a A escada em caracol

  1. Teresa Conceição diz:

    Também não conhecia o texto, Pedro. Que bom ter ficado a conhecer. E que pena isto ser mesmo assim.

  2. Pedro Bidarra diz:

    Fugir ou lutar. São as duas respostas, tão antigas como todos os animais, ao perigo e ao medo. E são ambas legítimas. Fugir é o que há a fazer quando o perigo e o medo é descomunal e é isso que dá raiva (me dá raiva). Tanta gente nova e brilhante que eu conheço e conheci que não tem remédio mas fugir.
    O desabafo é com muito conhecimento de causa. Entristece-me muito

  3. Margarida diz:

    Pedro, que bem descreve aquilo que eu sinto relativamente á sociedade angolana! É exactamente igual, e por isso migrei. Mas, apesar da mágoa e revolta, não consigo cortar os laços. E dá-me muita raiva perceber que, dos portugueses, herdamos o pior!

    • Pedro Bidarra diz:

      É verdade, Margarida, a escada em caracol ia no báu com a parte da herança que vos coube.
      Mas não foram só as coisas más. Na verdade, e a acreditar nas notícias, aparentemente herdaram tudo o que há por cá. O bom e o mau.
      Obrigado pelo comentário

  4. manuel s. fonseca diz:

    Texto simples, claro e, hèlas, verdadeiro. Não há elevador, mas olha Pedro que a escada está bolorenta: se não a arranjam depressa ainda vamos ter muitas damsels in distress.

  5. Pedro Bidarra diz:

    O meu medo é que seja de pedra e não caia.

  6. pedro marta santos diz:

    Metáfora exemplar, Pedro. Também acho que a escada é de pedra.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    E preciso construir novas escadas…talvez longe daquilo que chamamos a “nossa” casa….

  8. Panurgo diz:

    Textos destes são de uma vergonhosa falta de respeito para com homens absolutamente brilhantes, que ainda com o ensino secundário mal acabado já eram deputados e criavam oportunidades de 500 milhões no Brasil. Homens que passavam horas e horas nos jaguares do Mestre Dias Loureiro, com este ajudá-los muito, por certo com as equações de Bellman. Homens assim: http://visao.sapo.pt/on-the-road-com-um-superministro=f654339

    On the road e tudo. Um Kerouac purificado. E são aos milhares, estas almas dotadas de génio. Abençoado sejas, Portugal.

    • Pedro Bidarra diz:

      Brilhantes sim. Olhe que não é fácil entrar, com bandeja e tudo, no pequeno elevador de serviço. Autênticos artistas de circo.

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