À minha maneira

Isto não se faz. Anda um gajo com uma música na cabeça o tempo todo, a cantarolá-la como um tontinho, a dedilhá-la com uma guitarra virtual a tiracolo, a bater-lhe o pé com uma euforia de adolescente, chega mesmo ao ponto de armar uma ou duas historietas para dar sentido às palavras, e até a imaginar o efeito que terão quando sussurradas ao ouvido da sua bela senhora, para depois ter esta surpresa quando chega a hora de ver tanto encantamento transformado em imagem.

Ao menos com o Antony já sabia ao que ia, que aquela voz vinda do além não enganava. Mas estes Drums são manhosos. Mas sabem que mais? Que se lixe a estética visual dos rapazes. A arte tem o sentido que cada um lhe quiser dar. Nenhum vídeo do mundo me vai impedir de continuar a sussurrar o Days ao ouvido da minha bela senhora. E à minha maneira, sim?

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a À minha maneira

  1. Ricardo Gorjão diz:

    Desculpa afirmá-lo de forma tão clara. O teu artigo sobre a música dos The Drums é homofóbico. Desde quando a estética do músico tem qualquer importância? Extensivo a qualquer forma de arte.
    Podes ouvir os dois albums dos The Drums à vontade. São excelentes! E se és sugestionável, deixa de ver clips. My god!

  2. Diogo Leote diz:

    Meu caríssimo Ricardo:

    Quando publiquei o post, estava bem ciente de que me arriscava provocar reacções como a tua. Mas não recuei na minha intenção. Não recuei, em primeiro lugar, porque o meu objectivo não era, nem de perto nem de longe, exprimir qualquer tipo de homofobia, mas sim passar a ideia da legitimidade (ou o risco) da apropriação da obra de arte pelo público que a apreende. A arte é isso mesmo, é essencialmente interpelação, e presta-se à leitura que cada um lhe quiser dar. É certo que me servi de um exemplo em que ponho de um lado um video associado a uma estética gay e, do outro, uma certa visão romântica do amor que poderá não se coadunar com tal estética. Mas, ainda assim, não recuei, porque gosto de uma boa provocação para agitar as águas. Se me sirvo, com ironia, desse tipo de provocação para gerar debate, é porque que me parece que é uma discussão que merece ser feita descomplexadamente. Já o fiz, no outro blogue onde escrevia (o É Tudo Gente Morta, que julgo que também acompanhaste), num texto chamado “Para quem têm pânico homossexual”, em que justamente brincava com todos os homofóbicos da vida.
    Se ficaste com essa impressão, podes ficar com a certeza que não, não sou homofóbico, nem tenho qualquer tipo de pânico homossexual. Gosto muito do Antony, como gosto muito dos Depeche Mode, como gosto muitíssimo de quase tudo do Gus van Sant. E gosto, sim, de muitas manifestações da estética gay. E mais: adoro os Drums. E gosto muitíssimo deste video. E por gostar tanto de um de outro é que achei que devia chamar a atenção para eles. De uma forma irónica e provocatória, é certo, mas talvez mais eficaz do que qualquer outra.
    Um abraço.

  3. Rita V diz:

    Cada vez há menos espaço para a compartimentação H/H. Para mim, a forma como cada um vive a sua sexualidade é tão própria, que nos surpreenderíamos se necessário fosse continuar a rotular o que nos liga uns aos outros.

    … e que bom é podermos expressar o que sentimos, como vocês fizeram acima. Ambos!

    • Diogo Leote diz:

      Tens toda a razão, Rita. E acrescento ainda: tanto é abominável a discriminação em função da orientação sexual como o excesso de politicamente correcto que procura impedir-nos de chamar as coisas pelos nomes. Como se não houvesse uma cultura afro, ou uma estética mais marcadamente gay ou queer, como se, em suma, não fosse saudável afirmar artisticamente (também) o direito à diferença.

  4. manuel s. fonseca diz:

    Não sei se numa linha heterofóbica ou homofóbica, julgo que mais numa linha filorgástica, no meu velho bairro de Luanda sustentava-se a teoria de que a fundamental libertação (ah grande Erica Jong e a Senhora Paglia também não deve andar lá longe!) era “uma pessoa vir-se nem que fosse entre as pernas de uma cadeira”.

    • Diogo Leote diz:

      Pois é, Manuel, por alguma razão a Queen Victoria mandou tapar as pernas das mesas…

Os comentários estão fechados.