A Oitava Sinfonia de Spielberg

 

"Cavalo de Guerra" de Steven Spielberg

“Cavalo de Guerra” é um filme tão perfeito no seu rigor clássico que o veremos daqui a 50 anos como hoje vemos “O Vale era Verde” de John Ford. À semelhança da banda sonora de John Williams, a melhor para Spielberg desde “A Lista de Schindler”, “Cavalo de Guerra” é uma sinfonia pastoral em quatro andamentos. O primeiro, o mais fordiano de todos – o fantasma do realizador americano parece  por vezes orientar a câmara – conta a história da amizade entre Albert Narracott (o estreante Irvine), filho de um modesto rendeiro de terras em Dartmoor, Inglaterra, e Joey, um puro sangue comprado para lavrar o solo num momento de orgulho estúpido (o pai de Albert quis suplantar o senhorio num leilão de cavalos). Para ajudar a família, Albert ensina Joey a converter-se num animal de carga, mas o esforço não chega. Joey é vendido para a cavalaria britânica, que se prepara para embarcar rumo ao inferno da I Guerra Mundial. Os segundo e terceiro andamentos do filme constroem-se ao ritmo do olhar de Joey, ecoando entre o oficial inglês que o toma como montada, os soldados alemães adolescentes que com ele desertam, a menina francesa que o resgata e o veterano germânico que o tenta resguardar dos horrores da guerra. O terceiro andamento marca o regresso de Albert à acção, agora alistado na infantaria, num oceano de lama revolto pelo fogo das trincheiras e a violência surda do arame farpado. Nos últimos cinquenta minutos, inesquecíveis, a guerra inflama, a percussão eleva-se e os metais redobram o vigor até ao apaziguamento final, onde as flautas recuperam o adagio e os violinos colorem  os laranjas felizes do céu de Devon. Spielberg, que nasceu para as imagens como Von Karajan ou Barenboim nasceram para empunhar uma batuta, marca as passagens da orquestra com as suas características entoações: a expectativa do maravilhoso no contracampo e a aproximação ao grande plano – com Spielberg, sempre que paramos no rosto de alguém, há emoção, como nas notas mais doces de uma sonata.  É um cinema tão antigo como a história da narrativa, orgulhoso das suas regras e interjeições, onde a beleza é sempre comunicativa, como nas óperas de Mozart, Verdi, Bizet. Há dois tipos de arte: a que interroga, mudando; e a que consola, recordando. Spielberg é um génio da arte que consola. E sem consolação não há espaço mental para interrogarmos.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a A Oitava Sinfonia de Spielberg

  1. manuel s. fonseca diz:

    Belo texto. Gostei desta apologia da arte spielberguiana. Só tenho pena de ainda não ter visto War Horse. É que, juntamente com o Shame e por razões opostas, não passa deste fim de semana.

  2. Pedro Marta Santos diz:

    Gostei mesmo muito que tenha gostado, Eugénia. Dottore, é sempre um prazer. A apologia de Spielberg não é a coisa mais popular nos dias que correm – seria bem mais conveniente debruçar-me sobre a irrisão da chuva e a perenidade da memória em Tsai Ming-liang, ou uma léria assim – mas o raio do equídeo emocionou-me. Estarei a ficar velho?

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Um texto também ele de uma beleza sinfónica. Meticulosamente cadenciado tal como descreve o filme de Spielberg, substituindo a emoção da imagem ou da musica pela mestria das frases e o uso das palavras.

  4. sem-se-ver diz:

    Pedro,
    se calhar vai parecer quezilento (pela 2ª vez consecutiva venho aqui discordar de si), mas recordo outras vezes em que os meus comentários foram de concordância e aplauso (exemplo, post sobre betty davis).

    o filme de spielberg padece de dois principais defeitos:
    1. é muito desequilibrado; usando a sua análise, o primeiro andamento e os últimos 50 minutos, excelentes, os do meio medíocres;
    2. joey não é o protagonista. e ESSE é o problema deste filme. se é impossível não sentirmos empatia com o cavalo, ela acontece porque um cavalo é um cavalo, e o cavalo desta história é particularmente heróico, mas NÃO porque ele seja o protagonista do filme. este (filme) dispersa-se, sendo que a nossa atenção vai senfo focada, por culpa de spielberg, nos personagens humanos que se cruzam com joey, e não especialmente nele.

    é evidente que há uma respiração de cinema clássico (demasiado explicitada, num certo sentido, como acontece com aquelas cores carregadas da cena final, referência demasiado descarada, para meu gosto, ao Gone with the wind) e é evidente também que me fartei de chorar com o filme (só mesmo um coração de pedra não reagiria à cena nas trincheiras ou à do reencontro).

    mas, para mim, claro, isso é insuficiente para classificar o filme como o Pedro o fez. tenho pena, porque podia ter sido um filme maravilhoso… olhe, como o Hugo, por exemplo (confesso que não sei se escreveu sobre este).

    abraço e bom fds.

  5. fernando canhao diz:

    http://www.youtube.com/watch?v=02BBtN-P0lc

    P-51 Mustang — Cadillac of the skies?

    Nao tenho qualquer explicacao para o facto de esta cena do Imperio do Sol me comover e tanto.

    Ate engulo em seco,

  6. pedro marta santos diz:

    Agradeço os vossos comentários, caro Bernardo, sem-se-ver, fernando. Sem-se-ver, a discordância é muito mais interessante do que a unanimidade. E os seus comentários são pertinentes. Um abraço.

Os comentários estão fechados.