A valsa do amor

Foda-se. Sempre a mesma merda dos meus atrasos. Chego ao Columbano fora de horas e não há uma gaja de jeito. Só putas velhas, gastas e anafadas. Não aprendo. Lá fico mais uma noite sem me safar. E logo hoje, que dava tudo para que me aquecessem a cama. Viesses mais cedo, diz-me pela milionésima vez o Columbano, ainda há uma hora aqui estava a crème de la crème, mas já sabes, chegou o pessoal endinheirado do S. Carlos e levou-as todas. Eu bem lhe peço para aguentar a Nina ou a Brigitte ou a Natália. Diz-me o gajo que já não há artimanha que chegue para fazer uma menina esperar por mim. Bem sei, bem sei, que sem cheta no bolso não vou a lado nenhum. Foda-se, sempre a mesma merda de conversa. Chiu, olha a linguagem, grita-me o velho gordo do charuto, refastelado entre as duas russas que escaparam à vaga do S. Carlos. Mau, será que um gajo nem numa casa de putas está à vontade? Esta merda de vida tem de acabar, isso é que é. Ainda se me aparecesse a miúda perfeita para me levar daqui para fora e me fazer esquecer todas as Ninas, Brigittes e Natachas da vida. Mas esse é outro problema, como se não bastassem já os atrasos e falta de guito. Sou um rapaz muito exigente, pois claro. Se até aqui, chez Columbano, só uma cortesã de alto coturno, da estirpe das que já aqui referi, me consegue levar para a cama, imaginem lá fora. Tenho uma reputação para defender, pois é. Mesmo entre putas. Só eu para me enfiar todas as noites num meretrício onde um gajo não pode dar um passo em falso sem que apareça logo o dono – grandessíssimo chulo, é o que ele é – armado com cavalete e pincel para nos tirar o retrato da nossa triste figura. O melhor é dar já de frosques, que isto hoje está pelas ruas da amargura quanto à qualidade da mercadoria. O pior é que a vida lá fora para mim é só uma figura de estilo. Já nem me lembro da última vez em que levei uma senhora – uma senhora mesmo a sério, se é que me faço entender – a passear. Grande putanheiro em que me transformei.

Foi a última vez. Mal imaginava eu que seria a última vez que entrava no Columbano. Nem quis acreditar quando ela me apareceu à frente. Nem em sonhos, uma senhora como ela. Ao princípio, tentei convencer-me que só podia ser uma partida do Columbano. Mas não. Tanta classe e distinção não se aprende, nem com muito treino de cortesã experimentada nas artes da sedução. Lembro-me como se fosse ontem: da naturalidade com que ela me desarmou com aquele “então não me convida para uma valsa?”. Já ao ritmo do Strauss, nem tempo me deu para eu lhe fazer a sacramental pergunta. Se ela era como as outras, e, se o não era, o que ali estava a fazer. Tinha vindo para me buscar, disse-me ela, enquanto fazia de mim o bailarino que eu ignorava. E, com passos seguros que encheram a sala, ditou a sentença, como quem estava ali, e estava, para cumprir um destino de uma vida: “Vou fazê-lo bailar até se cansar. Até se cansar destas meninas. E aprender a única valsa que interessa. Em breve saberá que valsa é essa. E que só a quererá dançar comigo”, rematou ela com a certeza de quem sabe. De quem sabe que o amor estava para vir. E que aquela seria a minha última vez chez Columbano.

O velho Columbano, esse sabidão de artes várias, já o sabia antes de mim. Sem eu ter dado por isso, já tinha armado o cavalete para fixar o momento em que perdeu o seu melhor cliente, levado pela valsa do amor.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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7 respostas a A valsa do amor

  1. manuel s. fonseca diz:

    Que raio, Diogo, conseguiste que o teu terríval “mau-comportamento” ganhasse o melhor prémio. É injusto.
    Um texto divertido e, afinal, muito bem educado.

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, parece que as senhoras continuam a gostar de “bad boys”. E não sei se é educado o texto. Mas é bem capaz de ser educativo para todos os futuros ex-clientes do Columbano.

  2. Oh! … e os meninos? Têm medo das «bad girls»
    lol

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Afinal havia senhoras na casa de p…..do Columbano? O amor encontra-se em todo o lado, mas às vezes anda disfarçado.

    • Diogo Leote diz:

      É o amor, Bernardo, é o amor e a sua falta de regras sempre imprevisível, sempre a surpreender-nos. E ainda bem que assim é.

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