ART ME UP – ii

ART ME UP

ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS – i

DIVINO CANTO

Artur do Cruzeiro Seixas é surrealista como quem volta a casa – só agora sei que jamais se chega – porque todo o caminho é de regresso ao sopro inicial. Amoroso.


E Artur do Cruzeiro Seixas é surrealista como quem ama. Não se pode ser três ou quatro ou dez, um homem aos pedaços, este é o meu pensamento, a minha mão, os meus sentimentos, as minhas acções, aquela ali é a minha obra, aqui o meu sonho. Não, não se pode, o amor não admite a separação. Mais, o amor propicia o encontro. A união. A transformação, por isso cria o amor. Porque o Sol é seu pai, a Lua sua mãe.

Houve um dia, é certo, em que o mundo se partiu, e nós caímos pela fenda do mundo para sermos um, coisa impossível, ou para que serviria o sexo, quem é a menina, a mulher que espera para fazer o homem e o devolver à inteireza da vida enquanto se faz mulher? Quem sustenta a coluna e a faz vertical? Para que serve o sexo se não para recordar as horas antes da separação? E a quem serve se não servir aos grandes esponsais da lucidez e do desejo, aos noivos, se não servir ao amor?

Não, não se pode ser três ou quatro ou dez, não pode haver distância, e não há, entre o corpo que sonha e sonho que inventa o corpo. Partiu-se? Caímos? Teremos caído? A mulher que nos expulsa é a terra que nos acolhe e fecha-se o círculo se alma não for de pássaros que o evadam, se a mulher, a menina, não devolver as regras do dessentido à vida que as esqueceu, obrigatória cabotagem pela matéria fundente, perpétuo solve et coagula. E devolve, a mulher, a menina, tudo devolve quando diz toma e estende as mãos: aquele cordão que umbilical se cortou em sanguínea concretude, refaz-se quando à noite, na cama dormente, é o fio de Ariadne que reconduz o sonho à palavra e levanta do centro do labirinto a escada de versos até ao poema que acorda a manhã – a noite e o dia são um só, e a aurora é o outro nome da arte, quando dizer poeta é dizer homem. De outra forma como teria crescido o trigo insensato, e ele cresceu quando crescia, Pela terra adiante crescia o trigo insensato/ e divino do canto, pela terra adiante/ o perdão nascia das formas, e por todas as coisas corria o sopro alucinado/ e redentor/ de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.

É isto a arte. Nenhuma distância. A palavra é o acto, o traço é a mão e a surrealidade, que sabemos nós das mãos? Qualquer dia exigem liberdade absoluta, o corpo é o veículo do retorno, e o amor, ah a desmesura do amor, a eternidade é hoje ou jamais o será: não há conhecimento fora dele, porque não há criação fora dele, porque não há destruição fora dele, transformação, porque fora dele nada há que possa ser: este é o meu coração, o teu, e bate.


 

Notas:

1. imagens retiradas do catálogo da Galeria Perve, pelo qual agradeço, e também agradeço as imagens.

2. porque o Sol é […] in Tabula Smaragdina

3. Os grandes esponsais […] de Mário Cesariny, citado no catálogo supra referido

4. Pela terra adiante crescia o trigo […], do poema, Fecundo mês da oferta […], de Herberto Helder in Ofício Cantante

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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Uma resposta a ART ME UP – ii

  1. Olinda diz:

    lindo, lindo, lindo, Tugénia. 🙂

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