Choradeira pegada

Sigo aqui duas motivações: os homens que não choram do Manuel (mas que depois choram para poderem mostrar junto das mulheres que também são sensíveis e interessantes), e o sítio do mundo que mais me exalta. A pontos da tal lágrima traiçoeira surgir para me turvar a tristeza com nódoas imensas de alegria, e até de paixão (porque não…).
Eu sei que parece falta de assunto (também será) e que já falei do Douro no meu último post, mas acontece que me veio parar mesmo frente às ventas (foi no Facebook) uma curta-metragem que canta com os olhos do peito aquilo que, em breve lalação, tentei exprimir por palavras.
A fotografia e realização desta pequena obra-prima de sensibilidade e estética pertencem a Graça Castanheira, a edição à Esporão+Pop Filmes.
Aconselho vivamente o écran cheio.

 

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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27 respostas a Choradeira pegada

  1. Ana Rita Seabra diz:

    Estou como a Eugénia, perco-me com o blog|
    Sem palavras para o filme. É de uma beleza estrondosa.
    obrigado

    • António Eça de Queiroz diz:

      «Beleza estrondosa» mas quase silenciosa – parece um paradoxo mas não é.

  2. rita vaz pinto diz:

    Que todas as faltas de assunto nos levem ao Douro e a esta beleza e força que nos lava a alma.

  3. MJC diz:

    E vai mais uma a chorar. Senti-me em casa. Foi um belíssimo regresso à minha infância. Vou surripiar para o meu facebook.

    Obrigada por ter trazido este belo naco dos cheiros das minhas memórias.

    MJC

    • António Eça de Queiroz diz:

      MJC, eu fiquei quietinho, em silêncio paralisado, a ver passar tantos dias da minha vida pela frente…
      Tinha de mostrar «isto».

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Deixemos a choradeira para mais logo, depois de uma bela pinga de tinto do Douro….belo filme onde gostei sobretudo dos longos planos que deixam tempo ao pensamento a ao degustar da beleza sobre a lingua…

    • António Eça de Queiroz diz:

      É isso, Bernardo, até o ritmo é duriense, aqueles fins de tarde, a madrugada na névoa…

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Desde que venha (eu sei que vem…)

  6. gostei de tudo
    especialmente da poda da videira

    • António Eça de Queiroz diz:

      Dei comigo (armado em especialista!) a ver se ele fazia aquilo bem feito…
      Também gostei muito dessa parte.

  7. MJC diz:

    António Eça de queiroz vi e revi e voltei a ver e repeti o filme … lembrei os joelhos esmurrados (ainda cá estão as marcas) naqueles pedregulhos pontíagudos com que diariamente nos cruzávamos a caminho da escola … a casa do zé do telhado, as minas onde pensavam que tinha caído e afinal só me tinha esquecido de vir para casa …

    • António Eça de Queiroz diz:

      Também o vi umas quatro vezes, MJC.
      Aqueles sons à distância… É esse o som do Douro!

  8. O filme está de tal modo bem conseguido que consegue transportar-nos, sem esforço, para os sons, os cheiros, aquele frio bom que nos sobia pelas narinas, a paleta de cores .. Penso que só quem viveu por lá e principalmente por ali teve lé a sua meninice (como me parece ter sido o seu caso) consegue entender o impacto deste filme. Não sei se concorda comigo, António Eça de Queiroz?

    • António Eça de Queiroz diz:

      Há realmente algo de persistente, da memória, aqueles sons à distância que mesmo assim ecoam, os cheiros, os florões de cor, as ribeiras rápidas, os pinheiros esgalgados, por vezes sózinhos, o cheiro das pequenas queimadas, o som dos eixos dos carros de bois, o gargalhar dos gaios, o fumo sobre os telhados por entre as árvores, a tarde penumbrosa por trás dos montes…
      Está lá tudo.

  9. manuel s. fonseca diz:

    António, a tua lágrima é uma lágrima Douro!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Curiosamente, sem nada de muito concreto, há dois sítios em Portugal que por vezes me lembram África: o Alentejo e a sua extensão que se perde no fim do olhar, e o Douro com a sua sobre-dimensão volumétrica, os penhascos, as alturas, as gargantas e a exuberância quase agreste do seu campo.
      Ainda bem que gostaste.

  10. Tanta beleza
    até dói!!!!!!

  11. Ana Vidal diz:

    Lindo, lindo. Vale bem umas boas lágrimas de comoção. 🙂

  12. Rui Nascimento diz:

    O clip de vídeo é fabuloso, o Douro é aquilo mesmo… Faço-o no verão rio abaixo rio acima, desde manhã cedo até quase deixar de haver luz num barco de um amigo meu… Exploramos através do rio sítios incríveis… Alguns só mesmo com acesso pelo rio.
    As diferentes correntes de água que se cruzam provocam efeitos únicos… Podemos parar o barco numa zona mais agitada devido à incidência dos ventos, mas 100mts mais para a frente ele está flat, um autêntico espelho… É lindíssimo ver as vinhas desde o rio, algumas em quintas muito bem tratadas…
    Faz muitos anos que troquei as praias por estas terras fantásticas… É por ali que tenho recarregado as minhas baterias..

  13. Também conheço o Douro de barco, e doutras maneiras, claro…
    É único! Um abraço, Rui.

    • Rui Nascimento diz:

      Eu tb Kiki… De várias maneiras… Mas é a partir da água que ele mais me ressalta…
      Abraço

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