completamente OUT

Já estava sentada no café quando duas senhoras se sentaram ao meu lado. Mãe e filha. As mesas, ao colo umas das outras, são muito indiscretas e é difícil não as ouvir. Fiz o meu melhor ar ausente, mas o pior… é que a conversa me interessou.
Falavam do Infante D. Henrique e do Convento de Tomar. Imaginei a senhora mais nova na excursão enquanto contava à senhora mais velha a bela viagem que fez ao encontro da História, da sua história.
A viagem era contada com prazer e viajei com ela até Sagres e aos Descobrimentos. Passado um bocado a conversa foi interrompida. Não serviam cafés à mesa. Apeteceu-me dizer-lhe «Não pare!» Mas não tive coragem.
Um casal espampanante chegava ao balcão e distraiu-me por momentos. Ela, loura platinada com saltos de 15cm, ele desmembrado em músculos tesos, era apalpado publicamente em todo o lado que tivesse recheio.
Olhei para o lado e percebi que estávamos sós. A senhora mais velha tinha-se levantado para fazer o pedido e aproveitei para perguntar se podia tirar um guardanapo de papel.
«Já viu? Estamos a voltar ao antigamente.» Disse a senhora mais nova,  referindo-se à caixa de metal onde os guardanapos de papel se exibiam.
«No outro dia, não sei se conhece ali ao lado da Casa dos Bicos, sabe o que encontrei? Uma casa de conservas… latas de conservas que depois são embrulhadas em papel. Imagine, tão bonitas. Conservas de bacalhau. Conhece?»
«Não, não conheço.» Sorri atrapalhada.
«Lisboa está diferente. Tenho estado a descobrir Lisboa e as Boulangeries, já viu? … padarias », emendou para o caso de eu desconhecer o termo « … que agora há em Lisboa. Conhece? »
«Não, não conheço nenhuma em especial .» Sorri um pouco mais atrapalhada.
«Ali ao S. Carlos, há uma muito boa. Um senhor recomendou-me o croissant. Escolhi o croissant e sabe que na mesa havia vários doces à escolha. Várias variedades. Muito simpático, muito agradável.»  Percebi que estava a perder várias coisas por morar fora de Lisboa.
Ah! Mas agora a seguir quero lá ir … ali na rua do Alecrim quase a chegar ao Cais do Sodré…’tá a ver? Ao pé do gradeamento? » Abanei a cabeça, estava a desistir de acompanhar todas estas novidades. Sentia-me completamente OUT.  «A Pensão do Amor!» 
«Ah! Isso conheço.» Respondi. «Apesar de ainda não ter lá ido … já ouvi falar da Pensão Amor»
«Pois é … mas eu ainda não consegui lá ir e a Lx Factory é outro sítio magnífico… estou a descobrir Lisboa»
Por esta altura a senhora mais velha já tinha chegado á mesa e eu estava a roubar-lhes o momento. Levantei-me, despedi-me … despedi-me como se estivesse a despedir-me de uma velha amiga. Fiz o caminho todo de volta ao atelier em silêncio. Peguei na caneta e pensei :

«Que belo dia internacional da mulher, eu passei»

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
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11 respostas a completamente OUT

  1. Carla L. diz:

    Eu gosto dessas trocas.Não há necessidade de aprofundarmos o assunto e muito menos dar continuidade à ele.Ele simplesmente passa, como tanto outros.Gosto desse não comprometimento, aonde momentaneamente estivemos comprometidos.Um bom dia prá vc, tb!

  2. manuel s. fonseca diz:

    Não me calhava mal um croissant da boulangerie agora mesmo. Caramba são sete da manhã.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Muito se passa na cidade, muito se perde, e eu também sinto muitas vezes que estou completamente OUT…mas que a “nossa” cidade se reinventa dia após dia isso é verdade…e ainda no outro dia petiscámos umas belas conservas embrulhadas em papel, da dita Conserveira De Lisboa , com uma bela “pinga”….

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Os mistérios de Lisboa. Andar a pé pela cidade descobrimos tanta maravilha que há por esses becos e esquinas.
    Fui à conserveira na semana passada e é um must.

  5. andar a pé cá dentro
    bem divertido

  6. Teresa Veloso diz:

    Adoro o sitio onde moro Rita, mas tenho muitas vezes essa saudade do dia-a-dia de Lisboa.
    Na próxima semana podemos ir à conserveira…

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