Crónica de um encontro com Cruzeiro Seixas

a foto é, como tudo, da Rita

Levamos sombras e chumbo em cima dos ombros, um passo incerto, a cabeça baixa e, de repente, alguém nos sorri e é melhor do que o sol, melhor do que a manhã, tão linda manhã. Alguém nos diz um cantado bom dia e já não é só bom dia: é a alegria outra vez inteira, incondicional.

Eu sou apenas o atrevido cronista do que se passou. A Rita Vasconcellos foi dar conta, a Cruzeiro Seixas, de que a sua obra, aquelas poéticas e “de facto úteis” ferramentas eram agora o banner da nossa Escrever.

Mestre Cruzeiro Seixas não é de bloga,  net ou ipad. A Rita (a encantadora Rita, a quem devemos a maravilha de termos tido na Escrever, primeiro a Ana Vidigal, agora Cruzeiro Seixas) imprimiu e foi mostrar-lhe como ficara: no velho papel! Ele viu tudo, com uma minúcia de lupa e com o contentamento de quem, como Duchamp, faz arte negando-a. A Rita leu-lhe, depois, o texto da Eugénia. Parece que Cruzeiro Seixas terá dito, com as mesmas palavras que um dia dactilografou: “sonho com uma bola perfeita toda feita de ar. Por agora só nos faltam os argumentos suficientemente convincentes para convencer o ar.” Será que a Rita o ouviu sussurrar: “a Eugénia é capaz de convencer o ar!?” Não sei, mas sei que ele disse à Eugénia, ao telefone, o sorriso que o texto lhe abrira. E abraçou-a.

A seguir, com a candura que só se permite a quem sabe que “as grandes descobertas são risíveis quando as comparamos com a descoberta do beijo”, pediu à Rita que contasse aos Doze Tristes deste Escrever, o contente que estava por o terem acolhido nesta casa. Disse ele à Rita: “repita-lhes lá, a cada um  dos Doze, a palavra obrigado!

Já ganhámos o dia, muitos dias. Este homem, de ombros levantados, cabeça romana, nariz de águia, ar de patrício, disse-nos bom dia.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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11 respostas a Crónica de um encontro com Cruzeiro Seixas

  1. fernando canhao diz:

    Vodca, cao de Mario-Henrique Leiria, basset (ou fox terrier) preto com pintas amarelas junto dos olhos. Animal dado a sustos dos quais se defende com desproporcionada ferocidade. Pira se do bastao de bamboo de M-H L sempre que tenta morder em gente de fora. Mae e tia de M-H L com saude muito deteriorada. Um funcionario dos Correios odio de estimacao do cao. Fim de tarde, a mae de M-H L abre a porta ao senhor dos Correios, o cao que finge dormir aos pes de M-H L lanca se na perna do homem. M-H L levanta se e desfere rapida bastonada no cao, esquecendo se que o bastao japonez funciona como a bengala que o mantem de pe. O cao fila a perna do senhor dos Correios, quarto furos, antes de se pirar para o corredor de modo a evitar a bastonada. A mae de MH-L inclina se para agarrar o cao (esse nessa altura ja na cozinha). O bastao atinge a na cabeca fazendo lhe um golpe profundo. Sangue e mais sangue. A tia chama a ambulancia dos bombeiros de Cascais, a mesma usada pelos 3 membros da familia para coisas mais triviais. Antes de chegarem os maqueiros ficou claramente definido que: a senhora tinha caido e batido na ombreira por ter pisado o cao no hall escuro, este assustado tinha por engano mordido o carteiro, que MH-L estava deitado por se sentir adoentado. O carteiro concordou. A nao ser assim, e pela natureza das coisas, ainda o poder lhes mandava abater o cao e MH-L seria mais uma vez injustamente acusado de bater na mae, coisa comum nos comunistas, Em Portugal a fama ninguem nos tira. A alguns ate lhes chamam surrealistas.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Bem lembrado o Mário-Henrique Leiria! É que nem me atrevo a comentar este seu exacto e entusiástico post! Excelente.

      • António Eça de Queiroz diz:

        Este comentário parece um filme inteiro, quase tragicamente – mas muito cómico.
        Uma delícia.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    O que conta é que o Cruzeiro Seixas nos fez felizes.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Eu tinha, e tenho, uma colagem do mestre Cruzeiro na sala que muito gosto. Contentes e agradecidos ficámos nós com esta “participação” que a todos nos orgulha.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Ó Manel, que embaixada tão belamente sucedida!
    Sinto-me honrradíssimo e contente (o que vem rareando, particularmente em simultâneo)

  5. Rita V diz:

    tão bonita a sua crónica e que sorte temos

  6. Teresa Veloso diz:

    Tinha-me escapado esta deliciosa visita !
    À master mind e ao atrevido cronista obrigada.

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