Da necessidade da Esperança

Caravaggio. A conversão de São Paulo. Detalhe

 

Se vai sendo justo reconhecer que o governo de Pedro Passos Coelho tem sido eficaz na gestão dos compromissos assumidos com a troika, que ao governo não tem faltado coragem na tomada de opções politicas tão duras como necessárias, que ao governo não tem faltado sequer bom senso e até veia comunicacional para as enquadrar num programa reformista que lhes dá coerência técnica, parece cada vez mais evidente que ao governo tem faltado capacidade para manter minimamente viva a chama de uma esperança, ténue, longínqua, que possa continuar a dar um sentido último ao caminho das pedras que o país vem percorrendo.

Pelo contrario, à medida que as dificuldades apertam, à medida que os ataques sobem de tom, à medida que os amigos desertam, parece consolidar-se a impressão que, para o governo, e ao contrário do que se diz que Maquiavel teria dito, são os meios que se transformam em fins. Que o cumprimento dos compromissos com a troika e o doloroso programa de reformas em curso, cirurgicamente medidos, avidamente festejados, não são uma condição necessária, uma condição porventura até imprescindível, mas são um fim em si mesmo. Que dispensa a ilusão de um qualquer “amanhã que canta”. E não se venha dizer que a culpa é de um Ministro da Economia a quem se pede que corporize sozinho, por artes mágicas, toda a esperança do mundo. A culpa, tenho-o como claro, é de uma opção governativa muito mais vasta que consiste em reduzir a arte da politica à ciência da tecnocracia. Como se a vida fosse um modelo econométrico, o Mundo um relógio suíço ou, mais absurdo, como se alguém acreditasse que o caminho para a felicidade pudesse ser reduzido a um impecável cronograma de tarefas.

Ora tenho para mim que é perigosa esta excessiva tecnocratização da acção governativa. Não ensandeci nem me verão a clamar por discursos populistas nem por exaltações messiânicas. Mas que diabo! Não me venham dizer, como Jorge Luís Borges que “a esperança é o mais sórdido de todos os sentimentos”. Porque Borges, felizmente, e para sorte da literatura, não fazia politica. Porque a politica não se faz de outra coisa que não seja esperança. É a esperança que contraria o desalento, é a esperança que dá sentido aos sacrifícios, é a esperança que justifica a adesão, por mais frágil que seja, a um programa politico, é sobretudo a esperança que dá a coesão mínima a uma comunidade social. Sem esperança, numa vida melhor, num aliviar dos sacrifícios, num emprego, num futuro para os filhos que seja, o custo de oportunidade de “repensar” o regime é nenhum. No dia em que todos os portugueses estiverem convencidos de que “para pior, isto não pode ir”, estarão desfeitos todos os laços que mantêm viva a comunidade politica. Não há revolução que não se alimente no luto da esperança do regime anterior.

Todos os grandes políticos perceberam isto. Nem que fosse, como foi o caso de Churchill quando o desalento parecia tomar conta do mundo, para os exortar a percorrer o inferno: “if you are going through hell, keep going”.

Publicado na Visão a 8.3.2012

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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15 respostas a Da necessidade da Esperança

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    E, no entanto, Pedro, dir-se-ia que a Esperança é, de todos os ingredientes ,o mais barato, o único que não paga juros e não tem de ir aos mercados. Só exige, a meu ver, uma coisa, a convicção, esse alento de alma que não se inventa, nem pessoanamente se finge…
    Belo texto. Queremos mais.

    • Pedro Norton diz:

      Num certo sentido, ainda bem que em política esse alento de alma nem pessoanamente se finge. Sempre vamos distinguindo, a mais ou menos custo, o trigo do joio.

  2. Pedro Bidarra diz:

    A esperança nasce sempre de uma visão. de uma ideia, de um desígnio; de um sonho, que é, como me ensinaram os meus mestres da terapia, apenas uma metáfora. A esperança é o que resulta de uma figura de estilo, de um “texto”. Esta gente não tem texto, não sabe comunicar, não sabe ler nem escrever. São por isso incapazes de esperança.

    • Pedro Norton diz:

      Ter texto até têm. Mas é tão vazio de sentido, tão desprovido de espessura, tão redondo e tão pouco sonhado que, de facto, não comove uma Madalena.

  3. “Ora tenho para mim que é peri­gosa esta exces­siva tec­no­cra­ti­za­ção da acção gover­na­tiva.” – nem mais, concordo plenamente com esta visão. E não só na política se abandonou a vida, a humanidade, a esperança, que se alimenta do mais íntimo e mais sublime a que os homens podem aceder; em todos lugares tudo se transforma em cumprir tarefas e responder eficazmente a delirantes exigências burocráticas, tudo medido a estatísticas, justificativas de reorganizações de tarefas e procedimentos, etc, que, por sua vez, serão alvo de novas avaliações estatísticas. É o chamado ciclo vicioso e o também chamado inferno. Para nada. Ou será para morrer?

    • Pedro Norton diz:

      O Inferno, cara Matéria, somos todos nós se perdermos a esperança de reclamar por esperança. Obrigado pelo seu comentário.

  4. Panurgo diz:

    Bela ironia essa do Churchill – o homem que transformou um Império numa ilhota. Quando os ingleses se aperceberam que o querido tinha encolhido o curral, já era tarde. Para nós também já o é.

    Quanto ao resto, não conheço melhor texto do que este, e peço desculpa pela citação, mas parece-me de uma clareza única, e é o melhor texto sobre O Príncipe que conheço e creio que vai de encontro ao que escreveu:

    “Maquiavel vem justamente laicizar a Política, retirando-lhe a sua base religiosa. O fim que o príncipe ideal tem em vista é puramente terreno, mundano: a unificação da Itália num Estado. Ora, fora da religião não havia nessa época moral possível. A Política separada da Teologia ficava à margem da Moral. Por isso é talvez errado dizer simplesmente que para Maquiavel os fins justificam os meios. O que acontece é que tanto os meios como os próprios fins deixam de ter base teológica e portanto justificação moral. (…) Em resumo, a moral de Maquiavel é, na sua própria substância, uma moral antimedieval, antiteológica; e parece-nos, por outro lado, uma moral anárquica, uma moral sem normal, porque não se refere a um sistema de coordenadas ligado a uma visão totalizante do mundo. (…) O maquiavelismo (em sentido depreciativo) consiste hoje em afirmar a prioridade da Autoridade sobre a Liberdade, em pretender que há outros fins sociais além da própria Liberdade (entendida em toda a extensão: jurídica, política, económica, biológica); em endeusar a razão de Estado; em exaltar o segredo como instrumento de governo. Mas este sentido depreciativo atraiçoa o significado histórico da palavra. Maquiavel deu no seu tempo um passo em frente, libertando a Política da Teologia; os pseudomaquiavelistas de hoje pretendem retroceder, procurando justificar os meios inumanos com fins teológicos.” – António José Saraiva no Dicionário Crítico, em 1960.

    É juntar-lhe a moral protestante e o seu Deus terrível e temos o caldinho em que estamos entornados. Digo eu.

    • Pedro Norton diz:

      Panurgo,
      Só não posso concordar com o que diz sobre Churchill. Sem o homem e os ingleses ficavam sem império e sem ilha. Quanto ao mais, obrigado.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Não me parece que venha qualquer tipo de “esperança” desse lado, caro Dr. Prefiro pensar que nos cabe a tarefa de inventar o sonho para que os outros o posssam seguir. Deixei de estar à espera que a solução viesse doutro lado.

    • Pedro Norton diz:

      Infelizmente Bernardo, não dá para desistir. Somos intrinsecamente políticos quer queiramos, quer não.

  6. pedro marta santos diz:

    Precisamente, Pedro. Quando não há esperança – o único desejo que possibilita a disciplina -, o devir colectivo desaparece, e fica o caminho aberto para o caos.

  7. A esperança é como a fé.
    Ou se tem ou não

    • Pedro Norton diz:

      Eu diria que a fé é a esperança que perdeu a razão. Não é pior por isso. Alimenta-se é de outra coisa.

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