De romãs e de tempo

ela romã, tentada por tc em acrílico s/ tela, 1998

No início era o verbo: eu romã, tu romãs. De romãs e de tempo, como de médico e de louco, todos temos um pouco. E houve um tempo, noutro tempo, em que romanzei. Há quem vá por palavras, eu queria pincéis e tintas. Tentei a cor das romãs para experimentar em tela a passagem do tempo. Nada. Zero. Fiquei pela tentação. A cor não evoluía, a tela absorvia, o tempo não queria. A cor embirrou, a romã rola rolou. E as telas aboboraram no esquecimento.

Foram as palavras da Eugénia que me as recuperaram (na memória, que da tentativa só sobreviveram fotografias). Só Agora a cor das romãs encontrou o viço e a idade devida. De vida e de amor. O lugar certo. Os poetas servem para isso: desconcertar. Encontram o que nem sabíamos que procuravamos.

Liguei à Rita, entusiasmada: Rita, a menina romã? Ela fez melhor: inventou assim a leitura em tempo de fala para a descoberta da Eugénia: “O tempo não passa, é a mesma romã”.

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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13 respostas a De romãs e de tempo

  1. G.Rocha diz:

    Lindissimo texto! Excelente trabalho! Excelente idéia posta em prática! Parabéns ao grupo de trabalho!

    • teresa conceição diz:

      Obrigada, G. Rocha, pela mínima parte que me toca.
      A Eugénia foi o barco, a Rita foi o vento, eu só fui atrás. E diverti-me à brava.

  2. como as coisas se transformam noutras coisas
    assim sem mais
    hoje aqui com cores e com palavras
    assim sem mais

    • teresa conceição diz:

      Foi uma intensa noite ao telefone, Rita. Muito obrigada pela ideia, que nos fez rir e aprender bastante.
      A Companhia telefónica também deve estar muito agradecida. Vá lá que ainda não pagamos pelas gargalhadas, senão estavamos feitas.

  3. Luciana diz:

    Idéia e execução deliciosas.

    • teresa conceição diz:

      Luciana, que bem-vinda! Muito obrigada. Sabe tão bem ouvir isso, vindo de si.

  4. Pedro Bidarra diz:

    Bravo, bravo, bravo. Às duas, a da letra e a da voz.

    • teresa conceição diz:

      Pedro, muito obrigada pelas palmas.
      (mas olhe que é um trio de artistas aqui no palco: Eugénia letrista e tc fadista devem tudo à Rita desenhista, ali escondida na cortina, a inventar e transformar letras e vozes em vídeo e dar assim esta graça ao nosso dia poético. Foi um fartote, este teatrinho)

  5. teresa conceição diz:

    Menina Eugénia, ainda bem que gostou. Fico tão contente.
    Estava eu aqui em ânsias para saber, que isto de a ler faz tremer, violino arco nas cordas, principiante.

  6. manuel s. fonseca diz:

    Uma, duas, três coradas romãs.

  7. António Eça de Queiroz diz:

    O tempo é uma romã.
    Muito bonito, para sempre, agora na voz/mão da Teresa.

  8. Bernardo Vaz Pinto diz:

    PARABÉNS A TODAS…surpresa surpreendente…

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