Eça por outros

auto-caricatura

Tema central da minha existência?…
Pensei nisso a sério hoje, pela primeira vez, e cheguei à conclusão que não é bem assim. Não é fácil ter um antepassado próximo com a amplitude de Eça – isso sim, fui sabendo através dos meus tempos. Permite momentos calorosos, a admiração espelhada no facto de, como muitos outros, gostar realmente dele (como escritor, é claro, mas não só) a pontos de por vezes parecer que o defendo de algo – como se isso fosse necessário ou importante.
Depois vêm os preconceitos, alguns particularmente irritantes (por norma canalizados por via académica): a impossibilidade «técnica» de alguém da família poder saber algo de importante sobre ele, a que se soma a inviabilidade do nome ser reutilizado no mesmo território onde nasceu, vicejou e deu seus frutos – este último de âmbito universal, como o prova a carta de Thomas Mann a Herman Hesse após o suicídio do seu filho Klaus, onde fala da sombra imensa que ele próprio projectava sobre este.
Lembro-me de em tempos ter falado com Ana Cardoso Pires sobre o assunto, e de ela ter declarado que não achava que tal factor tivesse qualquer importância.
Concluí, em silêncio, que não estávamos afinal a falar da mesma coisa.

Mas vem tudo isto a propósito do Eça e da biografia dele que eu mais desprezo: a de João Gaspar Simões.
Claro que é um ódio familiar de estimação, e a razão é simples: quando se soube que o então conhecido ensaísta preparava uma biografia monumental (seria um monumento alusivo ao centenário do nascimento do romancista), a filha Maria Eça de Queiroz de Castro disponibilizou – acho que em primeiríssima mão – toda a correspondência familiar do pai. Gaspar Simões nem se dignou a responder: a sua obra já estava idealizada e dispensava bem mimalhices ou fosse o que fosse que pudesse alterar o perfil psicológico que achava ter descoberto com a preciosa ajuda de freudiano divã aplicado ao retardador, não no autor, mas apenas na sua obra – onde entreviu (e bem, afinal, já que eles são visíveis) reflexos da relação do escritor com a sua mãe.
Como só se dedicou a particularizar esse prisma, Gaspar Simões espalhou-se ao longo de centenas de páginas em teorias e especulações, elas próprias pequenos romances intermitentes, sem outra chama que a da mais pura vaidade pessoal aplicada à destruição da imagem de um ser que há muito embarcara na nave do mito.
Será isto grave?
Acho que já não é. O que não me impediu de procurar num certo livrinho umas quantas coisas que não integrei no meu Eça de Queiroz e os seus clones pelo simples facto de à época não o possuir (para quem quiser, encontra-se reeditado, com pequenas alterações e correcções ao original, AQUI).
Chama-se Eça de Queiroz visto por quem o conheceu, de Castelo Branco Chaves, e exibe alguns testemunhos que desconhecia de todo.
Mostro-vos um necessariamente pequeno apanhado de coisas que achei saborosas.

Alberto de Oliveira:

«A palavra fino é a que mais vezes acode para defini-lo. E a que nos sugere a mecha negra do seu penteado sobre a vasta fronte pálida; o monóculo não automático, mas vivo, falante, que lhe sublinhava e aguçava o olhar; a boca, excessiva, onde no entanto se formavam sorrisos sempre cheios de proporção; as extremidades aristocráticas, mãos quasi femininas e tão ricas de expressão e movimento; enfim a sua grande estatura, que tanto se nos impunha sem ter nada de imponente, e o arranjo infalível do seu vestuário, em que todos os pormenores tinham uma graça própria, como se Deus houvesse posto aquele homem sobre a terra, em vez de nu em pêlo como todos os outros, já calçado e vestido por sua divina mão».

António Nobre:

«Não calculas (ou de certo tens a certeza) o seu imenso desprêso pela Pública Administração: quando o Chanceler, ao longo da nossa palestra, lhe entregou qualquer papel para assinar nem se assentava à mesa, como faria qualquer outro servente do Estado: punha o papel sôbre um bordo qualquer e gatafunhava um J. M. Eça de Queiroz desordenado e todo tôrto. (…)  Não me fez a menor pregunta sôbre versos: apenas se informou das minhas impressões de Paris, se já estava instalado – e sempre frio, sério, triste, dando-me bem a impressão de não ser o homem da «blague», o João do Ega airado, do «Atome» e da peliça, mas simplesmente um grande artista, duma descrença de bronze, inteiriço, em cujo coração não há o fogo-fátuo de uma esperança.
Nesta primeira visita nada mais houve que me ficasse. À despedida curvou-se numa reverência de aço, convidando-me o aparecer no Consulado, ou às 8 na rua Crémaux, onde, disse, «nos reunimos para conversar».
«Eça, nêsse dia sem reverência e pondo-me à vontade estava encantador de humanidade e simplicidade. Conversámos muito. Zola: que era um grande. Mas que não tinha ainda lido todo o Zola, nesta época há muito que ler, que «saber», não se pode ler uma obra inteira. E confessou-me que de Zola só lera completo o «Germinal» e duas vezes. Que era uma obra de génio».

Em Neuilly

Uma prima, Carolina Eça de Melo, narra:

«A sua palavra quente, colorida, fazia surgir ante os nossos olhos deslumbrados uma criação perfeita. Lembra-me ter-se dado um dêsses factos uma noite, em Neuilly. A conversa corria ligeira, borboleteando de um para outro assunto, quando, não me lembro quem, acertou falar na rua Auber.
– Nunca esqueço essa rua, disse Eça de Queiroz, levantando-se – foi aí que uma noite encontrei a Morte.
– ?!!
– Sim, respondeu prontamente ao nosso gesto interrogativo, e começou narrando como, voltando da Ópera para a rua Auber, dera de cara com uma mulher alta, esquelética, envolta em roupas negras.
A história era simples e poderia resumir-se em poucas palavras; mas o romancista acordara, e muito naturalmente narrou-nos a aventura. Um interessante conto à Hoffmann que nos teve suspensos nos seus lábios e nos fez passar à flor da pele o delicioso arrepio do terror».

Jaime Batalha Reis evoca o Eça de 1866:

«Quando, nessas noites, êle me lia alguns dos seus contos a figura e a voz completavam-lhe as fantásticas criações: erguia-se quási nos bicos dos pés, de uma magreza esquelética, lívido, na penumbra das projecções do candieiro, os olhos esburacados por sombras ao fundo das órbitas, sob as lunetas de aro preto, o pescoço inverosimilmente prolongado, as faces cavadas, o nariz afilado, os braços lineares intermináveis. Então, com gestos de aparição e espanto, a voz lúgubre, sentimental, – enfàticamente patética, ou gargalhando sinistramente – declamava».

Fialho de Almeida revela:

«De ano a ano, Eça de Queiroz vem a Lisboa, observar de quantos séculos Portugal retrogradou, desde a última visita que lhe fez. Traz sempre a lente do mesmo grau, a fim de não se atribuir a efeitos do vidro, a mesquinhez da imagem obtida.
E das suas janelas do Rossio, vê arrastar-se em baixo, a miserável gente, amarela e morna, que vai para o emprêgo público, ou vem da casa de penhores. A fealdade das casas amedronta-o e desconsola-o.
– Mas esta gente, foi então feita por curiosos! diz êle, parando às vezes na rua. No fundo da sua ironia, há uma bondade grave, talvez triste. E o seu olhar doce espia-vos sempre, de relance, luzindo entre as pálpebras unidas de míope, como a pérola por entre os bordos de uma concha bivalva».

Eduardo Prado confidencia:

«São longas as suas estações em frente aos alfarrabistas, e nunca volta êle para Neuilly sem alguma estampa portuguesa, ou alguns volumes de velhas coisas peninsulares, crónicas, sermões, vidas de Santos, obras de mística, portuguesa ou espanhola, que depois leva horas a concertar, a tapar os buracos dos bichos, a lavar, a pulir com vernizes antiséticos, matadores dos micróbios que colonizam, de preferência, aquela literatura».

Um dos filhos de Eça recorda:

«Meu pai era infantil. Um dia, deram-nos um comboio que corria sôbre railes e entrava e saía nos túneis, como um comboio verdadeiro. Pois de manhã fomos encontrá-lo no jardim, de pijama, entusiasmado, a correr atrás do comboio agitando os braços quando a máquina saía do túnel e apitava nas subidas. A sua grande alegria era ir connosco para o bosque de Neuilly. À frente marchava meu pai, de bicicleta – uma daquelas bicicletas antigas e enormes, a que se ligava um cesto com rodas. No cesto ia meu irmão. Atrás outra bicicleta com os amigos, esbaforidos, e meus irmãos mais pequenos. Era o primeiro nos cavalos de pau ou nas montanhas russas da feira».

Não, Eça não é o centro da minha existência – esse é bem mais prosaico.
Mas é sem dúvida um território espácio-temporal que me é familiar e que gosto de revisitar com um tempo e humor muito próprios.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo.
E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado.
Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.

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16 respostas a Eça por outros

  1. Pois é, António, as sombras queridas também pesam.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Pesam sim, Ivone, mas eu não me sinto magoado por isso.
      Sempre que pego nele recebo algo em troca.

  2. texto maravilhoso e o comboio a sair do túnel … pijama inesquecivel
    obrigada António

    • António Eça de Queiroz diz:

      Deixei essa para o fim porque me pareceu a mais reveladora – lá está, a memória dum filho (era o meu avô José Maria) desprezada pelo importantíssimo sr. Simões…
      Ainda bem que gostou, Rita, obrigado eu!

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Mas sabe que com «o nosso Eça» dou-me eu muito bem, perfeitamente, até.
    O que já acho extravagante é existir um certo snobismo por parte de alguns desses supostos proprietários…
    Vou dar-lhe um exemplo: há tempos apareceu-me no ‘Facebook’ uma mulher que me perguntava, assim à bruta, como é que eu me atrevia a usar um nome que, obviamente, não era o meu… E eu respondi-lhe que não, que era mesmo o meu. Então, em mensagem particular, a sujeita desancou-me segundo o estranho princípio que «um bisneto do Eça a andar a escrever no FB era impossível», que não acreditava. É claro que me irritei imenso; é claro que uma amiga comum lhe disse que era verdade; e é claro que a ‘chutei’ para canto para todo o sempre… Com os meus ‘clones’ passou-se o mesmo: um cretino qualquer que se blogava de Fradique fez, sem ler mais nada que o índice, uma crítica que acabava desconfiando «sempre deste familiares que acham que sabem mais dele do que qualquer outra pessoa».
    C’est la vie…
    (descobri uma coisa: segundo a terminologia popular, eu podia dizer que a Eugénia é minha ‘bisavó-torta’…)

  4. heloisa diz:

    Meus pais e meu avô eram tão entusiastas do velho Eça, que nos introduziram, desde muito jovens, aos seus textos geniais. Por isso, também eu o tenho como meu, às vezes. E é tão bom, Antonio… (você, que o diga!).

  5. Caro António, todos os anos passo aos meus alunos o filme “À Procura da Terra do Nunca”; digo-lhes sempre, para além do que exploro do filme a propósito dos conteúdos programáticos da disciplina de Psicologia, que é um dos filmes da minha vida. Digo-lhes também que o Peter, ao que parece, se suicidou porque nunca foi capaz de descolar, na sua vida social, do personagem literário, mítico, da obra do escritor James Barrie, sendo a gestão de tal colagem continuadamente difícil. A vida, entretanto, já se encarregara de o carregar de dramas de vida suficientes para fazer abalar o mais cristamente resignado dos santos. Mais recentemente, tive curiosidade de acompanhar a evolução do pequeno Jamie Bell, o rapazinho que deu vida ao personagem Billy Elliot. Ainda hoje este personagem persegue o já crescido Jamie e o leva ainda à exasperação.
    Acabo de escrever isto e penso que, se calhar, “não esta­mos afi­nal a falar da mesma coisa”.
    O que me vem à cabeça é “ver o filme” ao contrário: que pensaria Eça de Queirós deste seu bisneto? Gostaria ou não Eça de Queirós de ter alguém que o protegesse de fantasias ambiciosas, que o deturpam e afrontam a sua família sem legitimidade para tal?… Ficaria ou não Eça de Queirós satisfeito e orgulhoso de saber que era um seu bisneto que vigiava o respeito pela sua pessoa e pela dignidade legítima da família?
    E quando Eça olhasse a pessoa do seu bisneto, não ficaria Eça encantado em vê-lo com os seus próprios comboios, esquecido inteiramente do seu bisavô e de todos os demais, fruindo absolutamente os seus prazeres pessoais?
    Tenho andado a ler, aos poucos, a Correspondência de António Nobre. Palavra d’honra, a parte, até agora, que me deu mais gozo ler foi precisamente o encontro do estudante António com o cônsul Eça de Queirós…
    O resto, António, é a mesquinhez das pessoas… que não acaba nunca!…

    • António Eça de Queiroz diz:

      Gostei muito da introdução recentradora, e, é claro, agrada-me a ideia de o ver entre as nuvens, o monóculo mascarando-se de Lua, a olhar cá para baixo e a rir-se gostosamente com as diatribes do bisneto.
      Só conheço essa carta do A. Nobre, ri-me imaginando-o a sentir-se analisado pelo ‘Outro’, quando ele o manda sentar na poltrona, exposto à luz.
      Do melhor.
      Grande abraço, Fernando.

  6. manuel s. fonseca diz:

    Vou meter-me onde não devo. Mas quero contrariar o António que foi o segundo Eça que conheci – o primeiro é um primo do António que foi meu colega no liceu, em Luanda. Pelos dois Eças, mas sobretudo por este, tão bem e belamente Triste, que nos acompanha, diria que o bisavô é tudo menos sombra. É um sol farto, luminoso que dá aos dois Eçlas que conheci uma bonomia, ironia, irreverência – melhor, um aplomb que os faz mais altos e soberanos. Se é essa a sombra, abençoada sombra.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Ah!, então conheceste o meu primo Zé em Luanda!…
      Gosto imenso dele, vive agora no Brasil, em S. Luiz do Maranhão.
      Quanto à sombra, noto a sua existência mas é como tu dizes: basta não pensar nisso e é logo um sol brilhante lá no alto.
      Grande abraço, querido amigo!

  7. José Maria Eça de Queiroz diz:

    Várias vezes falámos desta nossa abençoada herança de carregar um nome que, e muito correctamente, se tornou um património nacional.
    Como sempre, em casos destes, por vezes o imaginário das pessoas sobrepõe-se à mais comezinha das realidades: Quando fui registar a minha filha Benedita, a funcionária da conservatória, com um ar desconfiadíssimo, olhou-me por cima dos óculos e perguntou-me se estava a zombar dela, e nem a exibição do BI lhe retirou a desconfiança. Enfim… Desde a escola até à simples apresentação do cartão multibanco para pagar uma despesa, lá surge a fatídica e inevitável pergunta “… é alguma coisa ao escritor?”
    Claro que, quanto mais célebre e se agiganta qualquer figura dita “pública”, faz sempre nascer à sua volta uma miríade de micro-organismos, que em vez de simbióticos como seria de esperar, se tornam verdadeiros parasitas, tentando encontrar para si as interpretações e significados mais estapafúrdios sobre todo e qualquer angulo, no fundo para se tentarem destacar de quem considera que Eça, nosso venerado bisavô, era um génio e nada mais!
    É claro ( e isto agora é uma espécie de “private joke”) que a história do comboio deve ter permanecido nas marcas genéticas do ADN que nos foi transmitido.
    Em suma, gostei imenso das citações, que mais não fazem do que reforçar a imagem que a Tia Maria nos foi transmitindo sobre a personalidade do seu Pai.

  8. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro António, mesmo com o risco de estar “fora de prazo”, não queria deixar de dizer o quanto gostei de ler o texto e os pequenos episódios do “seu” e “nosso” Eça…veio-me á memória um belo poema do Apollinaire que poderia estar a descrever o Eça, e reza assim :

    Certains hommes sont des collines
    Qui s’élèvent entre les hommes
    Et voient au loin tout l’avenir
    Mieux que s’il était présent
    Plus net que s’il était passé

    • António Eça de Queiroz diz:

      Bem achado esse Apollinaire, Bernardo, que bem podia ser um retrato do nosso Eça – sem dúvida.
      Nunca há atrasos nestas coisas, chega-se sempre a tempo – principalmente quando se gosta.

  9. António Manuel Pereira diz:

    Sempre que mergulho num qualquer texto de Eça, apenas sinto o meu desespero criativo, qual pecador perante a Bíblia.
    Resta-me a consolação da sua unicidade; e senti-la, todavia, um inesgotável património.
    ST

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