Extremamente Doce, Incrivelmente Chato

 

"Extremamente Alto, Incrivelmente Perto", de Stephen Daldry

 A emoção no cinema é como o tempero na cozinha. A mais, o resultado final é intragável. De menos, tudo fica sem sabor. Os filmes candidatos aos últimos Óscares são um bom exemplo: há boas intenções ensopadas no “politicamente correcto” (“As Serviçais”), lindíssimos, mas demasiado ambiciosos, mil-folhas de teologia privada (“A Árvore da Vida”), telefilmes de luxo disfarçados de “carpaccio” (“Os Descendentes”), suculentos assados à moda antiga (“Cavalo de Guerra”, que se aguenta na corda bamba do sentimentalismo sem nunca tropeçar), magníficos “vols au vent” de homenagem ao cinema mudo que se estão a marimbar para a “pureza” da receita original (o vencedor “O Artista”) e, pasme-se, uma overdose de sacarina que empanturra o espectador de ternurento chantilly até o transformar num diabético – este “Extremamente Alto, Incrivelmente Perto”, adaptado do romance de 2005 de Jonathan Safron Foer.

Oskar Schell (Thomas Horn, mais uma daquelas crianças-prodígio que Hollywood produz como pãezinhos quentes no forno do sol californiano) é um puto brilhante de 11 anos, inventor e linguista, que perde o pai Thomas (Tom Hanks) no atentado às torres gémeas do 11 de Setembro de 2001. Durante o seu luto muito particular, Oskar descobre a chave de um cacifo num jarro antigo do armário de Thomas. A chave está no interior de um envelope com a palavra “Black” escrita no verso. Oskar, que se habituara a fazer “expedições de aventura” por Nova Iorque com o pai, lança-se à descoberta da fechadura onde esta chave servirá, visitando, uma a uma, as centenas de pessoas com o apelido “Black” dos cinco distritos da cidade. Poderia ser uma bela viagem de autodescoberta e de reencontro com a memória familiar, mas não é. O director Stephen Daldry ( “As Horas”, “O Leitor”) e o guionista Eric Roth (“Forrest Gump”, “O Estranho Caso de Benjamin Button”) usam todas as armas de manipulação emocional de que se lembraram, oferecendo uma personagem infantil tão “sensível” e “talentosa” que dá vontade de a estrangularmos. A narrativa vem saturada de “mensagens” – todos os homens estão unidos pelo sofrimento, a única forma de respeitarmos os mortos é apreciar a importância de estarmos vivos, etc e tal – e Daldry e Roth não falham uma única técnica de manipulação: da criancinha que gera empatia ao piano chorado duas vezes por minuto, da vaga cicatriz da II Guerra Mundial e do Holocausto (Max von Sydow, o avô de Oskar, que é um mudo traumático e fala com um “Yes” e um “No” estampados nas palmas das mãos) à tragédia contemporânea (o 11 de Setembro, que merecia a dignidade que recebeu em “A 25ª Hora” de Spike Lee) ou aos efeitos pseudopoéticos da queda de Thomas de uma das torres gémeas, a aldrabice não acaba. É um filme artificial e artificioso, e devem evitá-lo como se evita um bolo instantâneo de hipermercado.

 Publicado na revista “Sábado”

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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6 respostas a Extremamente Doce, Incrivelmente Chato

  1. Vasco Grilo diz:

    Seguirei, sem pensar, o teu conselho. Tinha gostado bastante do livro original do Foer e também do “Everything is Illuminated”, livro e filme.

    Abraço

  2. Pedro Bidarra diz:

    Com tanta coisa para fazer que bom que é ter quem vê por nós.

  3. Teresa Veloso diz:

    Que pena não o ter lido antes de ir, tinha poupado o bilhete!
    Lamecha e enjoativo, só o personagem do Max Von Sydow se safa – como não fala vai escrevendo em cadernos, mas apenas uma frase em cada página.

  4. pedro marta santos diz:

    Fico contente de vos ter facilitado um bocadinho a vida, companheiros Vasco e Pedro. Cara Teresa, farei tudo para, humildemente, a ajudar a poupar dinheiro da próxima vez. Às vezes acontece-me o mesmo…

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro Pedro, eu por sorte e por gestão de prioridades ainda não vi, pelo que me parece que irei riscar da minha lista de “filmes a ver”….Agora cuidado, como já não é o primeiro que me convençe a não ir ver, prepare-se para o caso de um vir a ter represálias por parte dos gigantes distribuidores…

  6. sem-se-ver diz:

    tenho de ir ver, sendo assim. : )

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