Razão e Fé

Giotto, pormenor

Não concordo com a epístola do Pedro “A fé é a esperança que perdeu a razão” (sorry, Pedro, mas no resto concordo com quase tudo o que escreveste nos dois últimos artigos da “Visão”). Para mim, esse é o erro de boa parte dos argumentos do Dawkins, p. ex.. A fé não pode perder a razão porque não nasce dela. Nasce de zonas tão específicas do cérebro – é o que defendem Steven Pinker e outros – como as ligações neuronais que permitem a razão, e as suas funções sociais e culturais são tão importantes como a razão para a sobrevivência humana (o Dawkins não concede uma existência física e neurológica à fé, estando sempre focado nas consequências extremas da sua manifestação). Outro dos erros do brilhante evolucionista – e, até certo ponto, do Sam Harris em “O Fim da Fé”, embora com argumentos mais profundos – é não distinguir, no seu argumentário, a fé da religião. Os que acreditam percebem, talvez de forma mais instintiva, que uma e outra são magistérios totalmente distintos. E não podemos esquecer que a componente de crença na razão é fundamental para a aplicarmos.

No resto, estou como a Eugénia quanto a um princípio de natureza e evidência das coisas: como diz – como se ouve dizer – o Dylan Thomas, “Rage, rage against the dying of light”. Para a fúria ser luminosa, precisamos de razão e precisamos de fé. E aí, estou com o Pedro: precisamos de fé na razão.

"Ordet", C.T. Dreyer, 1955

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a Razão e Fé

  1. Rita V diz:

    belo texto Pedro

  2. manuel s. fonseca diz:

    Gostei muito, dear Pedro. Devias aprofundas um dia destes as ligações neuronais. Dava outro bom post.

  3. Panurgo diz:

    Falta uma palavra: Cultura. Estou convencido de que essa distinção (?) entre Razão e Fé só é feita quando a Cultura, ou o Espírito dela, morre – aconteceu com os gregos, com os romanos e connosco. Já andamos nisto há uns trezentos anos: a conversa é sempre a mesma, os tagarelas os mesmos, e o resultado (a desgraça) também. Não há grandes dúvidas, nem muitas esperanças.

  4. fernando canhao diz:

    Faith vs. Bamboo.
    Os Pandas destinguem se dos outros mamiferos de grande dimensao pela extrema especializacao da sua dieta, a qual depende quase inteiramente de Bamboo fresco. (Lugar comum)
    http://www.pandasliveon.com/giantpandas/2010/02/wild-giant-panda-rescued-in-china-after-getting-stuck-on-cliff.html
    Deus fez o ceu e a terra o resto e feito na China. (Da Biblia ou do Anti-During)
    Um homem enrascado e pior que uma mulher bebeda. Idem
    A fe move montanhas. Ibidem
    http://www.youtube.com/watch?v=mUW1SGF7bR8
    um bom fim de semana.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Vejo a fé como uma experiência, uma relação, e perderá se for totalmente irracional…e não poderia concordar mais com a separação entre fé e religião. Enfim é um tema que muito me interessa como crente num mundo que se diz cada vez mais laico e agnóstico …

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