Fugiu-me um verso

Fugiu-me um verso estou possesso.
Vinha a guiar de Lisboa ao Algarve,
a duzentos como um alarve,
quando me apareceu um verso:
um pensamento? um sofrimento? não me lembro.
Sei que era bonito, e que a meio de uma subida,
entre duas curvas e uma descida,
desceu à boca, foi dito e desapareceu.
Desapareceu-me um verso
e agora não o consigo encontrar.
E estou farto de o procurar.
Se calhar não era pensamento nem sofrimento,
se calhar era lamento ou conclusão,
daquelas que se escrevem no princípio dos poemas
para depois os desenrolar em explicação.
Sei que era uma rima com a palavra vida
(que a tinha, ironicamente,
senão não se tinha posto a andar).
“A vida convida”?
“A vida sentida”?
“Mordida pela vida”?
As primeiras não. Não era nada
em tom de escrito comercial.
Devia ser pensamento genial.
“Mordida pela vida”
tem qualquer coisa que se lhe diga
e, embora não soe a nada
que antes me tivesse ocorrido,
podia muito bem ser desenvolvido:

Mordida pela vida
Toda marcada, cicatrizada
Cada amor cada dentada

Alguma coisa podia fazer-se mas não me apetece,
nem me parece que tenha sido este o verso.
Terá sido algo de mais controverso?
“Vida desfodida” ? Há aqui algo de original,
“Vida desfodida” dá assunto. Será o tal?

Vida desfodida
Depois de toda enovelada
De novo posta por ordem
E rearranjada.
Posta a direito
Polida e pintada
De novo como nova
Retocada
Pronta a ser revivida.
Primeiro é preciso desfodê-la
Pra depois voltar a vivê-la.

E “vida perdida”? Ou o seu plural,
embora tenha a sensação que a rima era singular,
tanto em número, como em originalidade
(isto sem qualquer pretenciosidade).
Acontece que quando penso em “vida perdida”
só me vêm à cabeça banalidades,
como se sobre “perdição”
já tudo tivesse sido escrito e dito,
contado e rimado.
Porra do esquecimento,
tormento que nada retém,
nem um pequeno verso, nem uma rima.
Ainda bem que não era toda uma história
pois para isso seguramente
já não tenho memória.
“Vida promessa esquecida”?
Foleiro! Mas dava qualquer coisa
à laia de poema reflexão
sobre o desejo, o sonho,
o potencial não vivido,
mas seria poema enfadonho, choroso e demasiado comprido,
pois quanto a sonhos, desejos e potenciais
há um interminável rosário de ais.
Não, também não me parece;
seria outra coisa.
Um princípio de uma prece?
Porque não?

À vida há tanto a agradecer;
Os amores, as cores, as fodas e os sabores…
Até um bom cagalhão é motivo
De agradecimento e satisfação.

Não! Era coisa mais sentida
de mais emoção, inteligência e coração,
que é a trilogia da boa poesia…

Tudo começou com uma encomenda,
Onde me pedem para falar da vida;
uma generalidade.
Eu encontro sentido no pedido
e logo lhe perco o rasto.
Parece um policial. Está mesmo a ver-se que o verso
vai aparecer morto ou desaparecer para sempre
e o cliente acabar descontente.
Claro que eu podia aproveitar e falar
da vida propriamente dita,
já que a encomenda era genérica.
Diria que a vida é biologia
que a vida é isso afinal: é sermos animal.
Diria que não entendo essa coisa
da vida para além da vida,
como se esta, a que temos,
não merecesse ser vivida,
tivesse que ser adiada,
como se isto aqui, afinal,
não fosse nada.
A vida é para ser vivida hoje porque amanhã,
quando ela acaba, é pra terra que vamos,
pra sermos comidos pela bicharada.
Embora sobre isso já tenha falado à atrasado
com mais beleza e menos exaltação,
mas irrita-me a complicação intelectual
— irrita-me sobretudo a religiosa
que é a mais banal —
irrita-me que não vejam a enorme beleza
desta máquina de genes que somos todos nós,
as amibas, os homens, os ratos
os pardais e até os cactos;
que é essa a beleza da vida.

A vida não tem segredo
É biologia. E é essa a sua magia.

Mas o verso era outro e teima e não aparecer
e eu já não tenho mais nada para dizer.
Vou por isso pôr um visto nisto e desisto.

Almeida

in “Almeida poeta sem assunto”

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

7 respostas a Fugiu-me um verso

  1. teresa conceição diz:

    Esse deve ser um verso doido varrido, para andar assim fugido.
    Mas verso morto, verso posto. Páscoa à porta, a ressurreição não se corta.
    Quem sabe se reaparece num poema esquivo de auto-estrada.
    Bela viagem, Pedro.

  2. teresa conceição diz:

    Já lhe estou a ver a GNR no encalço, o verso a trocar a roupa de fugitivo para não dar nas vistas, os cães a ladrar, onde é que isto vai parar.

  3. Rita V diz:

    e este?
    quem quer ler?
    ah ah ah
    já tenho o telefone a’postos’

  4. Pedro Bidarra diz:

    Ó, devia ter deixado a nota peuqena.
    Ele teria gostado e, seguramente
    teria pegado logo na pena.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Ainda teima em aparecer ? Então vou esperar para ver…

Os comentários estão fechados.