Fulano e Sicrano

"Coriolano", de Ralph Fiennes

Ralph Fiennes, o protagonista de “O Paciente Inglês” e “O Fiel Jardineiro”, é um óptimo actor. A partir de agora, é também um péssimo realizador. “Coriolano” é a adaptação de uma peça de William Shakespeare sobre o general romano Caius Martius (Fiennes). Traído por membros do senado e caído em desgraça junto do povo, Martius alia-se no exílio ao seu adversário de sempre, Tullus Aufidius (Gerard Butler), reclamando vingança (é uma chatice que o exílio surja apenas a a meio do filme). Fiennes é um apaixonado do bardo inglês: juntou-se à Royal Shakespeare Company em 1988 e o seu “Hamlet” na Broadway é muito prestigiado. Interpretou “Coriolano” no palco há cerca de uma década e passou três anos a preparar o guião cinematográfico com John Logan , o argumentista de “Gladiador”, “A Invenção de Hugo” e da iminente biografia de Lincoln para Steven Spielberg. O produto final, se não é um capricho de actor, parece.

Shakespeare, além de dramaturgo de génio, era um escultor do inglês isabelino, e transportar essa linguagem para outras épocas – “Coriolano” decorre numa Roma imaginária do século XXI onde os militares dominam e os direitos civis foram suprimidos – requer enormes talentos cénicos e visuais. Orson Welles, com uns brilhantes “Othello (1952) e “Chimes at Midnight” (1965, baseado em “Falstaff” e “Henry IV”), não se atreveu. Polanski, em “MacBeth” (1971), também não. As tentativas bem sucedidas de “modernizar” Shakespeare são mais raras do que poços de água no deserto de Gobi: o inventivo “Ricardo III” fascista (1995) de Richard Loncraine e a opereta pop “Romeu + Julieta” (1996) de Baz Luhrmann são excepções – há um “Hamlet”, de Michael Almereyda, cuja acção se situa no mundo empresarial nova-iorquino, que quase transpõe a fasquia. Fiennes bem tenta misturar tiroteios, pseudo-freudianices (a mamã dominadora segundo Vanessa Redgrave) e comentário político – o mundo do século XXI é o das novas ditaduras – com uma interpretação raivosa que nos faz ter saudades do seu Amon Goeth de “A Lista de Schindler”. O contraste entre a sangrenta filigrana das palavras e a desinspiração realista das imagens (“Coriolano” foi rodado na Sérvia, mas era igual se fosse na Cova da Moura) torna-se um aborrecimento fatal para o espectador. Mais vale assobiar para o lado e rever Lorde Voldemorth em “Harry Potter”. Sempre tem mais gravitas.

publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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3 respostas a Fulano e Sicrano

  1. Rita V diz:

    a não ver portanto …

  2. pedro marta santos diz:

    A não ver mesmo, Rita! A não ser que lhe apeteça ter um ataque de loucura, e decida experimentar.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Nunca seria minha escolha, mas agora apaga-se sem remorso…ainda há tanto filme bom a ver e rever…

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