I’m so green…

Não, não era para ser uma espécie de retratação a propósito das cobras e lagartas que lancei sobre o Sá Pinto quando o bom do Minguinhos levou um pontapé, com a sua licença (dele), nos magros fundilhos.
Mas já agora também pode ser.
A única conclusão sensata que consigo tirar deste súbito despertar (quase) mágico do balneário sportinguista é aquela que eu já imaginava há uns tempos ser a possível – e que por acaso até tenho aqui mesmo à mão: aquilo, com o andar dos tempos, tornou-se assim comme une sorte de cage aux vieilles putains, pleine de vice …, tornando-se portanto necessária a presença dum caften (por assim dizer…) com sanha ameaçadora.
Bem dizia o nosso amigo Panurgo, que a propósito escreveu o adiante recuperado (para memória futura!): «(…) creio que aquela equipa é como uma mulher feia armada ao boa­zona — por­tanto, pre­cisa de alguém que lhe che­gue a roupa ao pêlo. Nada melhor do que um monár­quico reguila para lhe dar uma ou outra sova peda­gó­gica, em nome da uni­dade do Reino».

Chegado aqui, explico o título: deu-me uma pieguice, quiçá primaveril, e desatei a sonhar com quintas cheias de hortas, pomares, galinheiros à antiga, e matas vastas com javalis e passarada e moças trigueiras espreitando de uma janela mais chegada ao caminho, de onde se vê também a curva do rio…
Talvez porque ache que a cidade, esse epítome humano que se assume muito civilizado, é apenas uma forma vistosa de sermos cozinhados em lume não particularmente brando.
Verde, piegas, quase rezando a Rosseau, ilustro o momento com um filme de animação baseado num curioso conto (suponho que fundamentado numa experiência vivida pelo autor) de Jean Giono – esse viajante imóvel tão absurdamente pacifista que nem ao regime Nazi se opôs (sendo por isso acusado de ter colaborado com Vichy e com os alemães) .

É comprido mas a história tem alguma graça.
Quanto ao diseur, desse sim, gosto mesmo muito: é Philippe Noiret.

Para acabar em beleza anárquica (que aqui faz todo o sentido) e muita cor local, deixo-vos com um pouco de rock alemão.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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10 respostas a I’m so green…

  1. Panurgo diz:

    A diferença que um homem faz! Um homem a sério! Daqueles que na juventude andaram à porrada dia sim dia sim, daqueles que foram às putas por amor, que ao lerem ao Evangelho pegam nos punhos e distribuem murraça por essa canalha enconada que anda para aí. Grande Ricardo! Música!

  2. heloisa diz:

    Eis o teu romance sonâmbulo, belo, que só!
    Verdes ventos… verdes ramas.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Gostei de ‘romance sonâmbulo” é bem capaz de ser.
      Ainda bem que gostou, Heloisa

  3. Rita V diz:

    belo conto
    que bom ter trazido tanto verde

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Sabe que quando acabei de escrevinhar aqueles dizeres logo pensei que alguém se ia meter comigo.
    É uma fatalidade agradável.
    O Giono nem eu, mas o Noiret já o viu pela certa no cinema, foi um dos grandes actores franceses de sempre.
    Ora veja esta amostra:

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    António, quis ver a curta até ao fim :gostei muito do texto, mais até do que das imagens, frases fortes como ” On comprenait que lês hommes pourraient etre aussi efficaces que Dieu dans d’autre dommaines que la destruction” …e Noiret é Noiret, um dos grandes….

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Tem frases muito boas o texto, e essa é das melhores sem dúvida.
    E Noiret é Noiret.
    Ainda bem que gostou, Bernardo.

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