Lisbon Gonzo

Caros amigos, aqui me encontram mais uma vez que caminho a custo pela Rua do Alecrim acima. Acho que a puta da bezana já lá vai mas algures por aqui ainda andam os cinco Desoxyns que às três da manhã me passou para a mão uma tal de Saskia e que enfiei pela goela abaixo com o ante penúltimo whisky triplo da noite. E ainda aqui andam, os sacanas, pois que os sinto que se dissolvem lentamente através das minhas pobres e duras veias e me queimam metódicos os derradeiros axónios que me restam em vida dentro desta minha pobre caixa de osso. E ainda por cima chove, porra. Uma chuva gelada daquelas tipo molha parvos. Ou antes, molha bêbados. Ou ainda melhor, molha náufragos. Náufragos como eu. Olho agora para trás para ver quanto já subi. Lá em baixo, o Tejo, aquele preguiçoso de merda, nem se mexe o cobarde. Parece um peixe espada ali encostado à doca de santos, picado por esta chuva miudinha, ocupado vaidoso a reflectir o seu cinzento mortiço sob a luz pálida deste dia que nunca mais acaba de nascer. Digo-vos só que a Madragoa, a esta hora mete medo. Aliás, Lisboa, toda ela, é assustadora aqui estendida à minha frente como um cadáver inchado. Como uma espécie de medusa apodrecida e ressacada, coberta por uma fina película de humidade viscosa, um coquetail pegajoso de mijo de gato, águas de peixe e cheiro a lixo. Puta de cidade esta.

Lá do alto, por momentos, o céu abre-se e o flash de uma fatia de luz branca entra de revés por entre os prédios mais altos da rua, faz ricochete na janela de uma água furtada e vêm-me lancetar os globos oculares ao meio. Uma coisa que me recorda o velho Buñuel, e isto, embora seja um pensamento um bocado pretensioso, é coisa que a esta hora da manhã só me pode ficar bem. E a propósito dele, venho-vos contar que lá passei mais uma noite de jovial convívio a beber manjedouras de espíritos graduados e usufruindo da companhia surreal desta nossa alegre, mas tristemente burguesa, canalha Lusitana. Como de costume e inevitável prática, lá acabei a falar com tias e putas sem conseguir verdadeiramente distinguir umas das outras. E depois a aturar com paciência e dedicação os betinhos cocainómanos de plantão e sobretudo as velhas amigas que vou encontrando e que, loiras que se tornaram, divorciadas que estão ou sabe-se lá porque razão, de repente até se deixam comer por um toma-lá dá-cá, coisa que só me deprime e me dá uma grande sede. Uma grandíssima sede. Nisto tudo devo ter contado mais de dez táxis. Do Bairro Alto para o Cais do Sodré, seguindo dali para Alcântara e depois de volta para um dos mercados de carne da Lisboa mais alta, para depois acabar de um lado para o outro sem rumo, batendo todas as espeluncas que com a sua má musica juncam o rio e onde vou deixando, em fumo, álcool e pastilhame variado, as centenas de euros que não tenho e que espremo com dificuldade de um muito cruel cartão de plástico dourado. Uma verdadeira festa para almas náufragas, meus amigos. Uma festa para reis nus e outras alegres espécies de matriz mais ou menos suicida.

 Mas esta porra da Rua do Alecrim sobe que se farta. Estou molhado até aos ossos. Não sinto as pernas. Não sinto nada aliás. Só mesmo o coração. E este, como consequência de todo este esforço, aproveita agora para me sair pela boca. Literalmente. Tão literalmente que cai no passeio molhado fazendo com que, num equilíbrio precário, o tente aparar com um pé para evitar que se vá enfiar numa valeta, arrastado pela água suja que escorre sobre a calçada. Seria uma grande merda acabar com o coração metido numa valeta. Apanho-o. Olhando para ele, na palma da minha mão, vejo que continua a bater. Na verdade, mais do que bater, parece debater-se com qualquer coisa, como se fosse o feto neo-nato de um estranho animal extraterrestre à procura de um qualquer gás sulfúrico que possa respirar. Noto-lhe uma intrincada rede de cicatrizes brancas que como uma aranha o abraçam e tentam sufocar. Suspeito agora que ao me sair pela boca, estivesse simplesmente a fugir de mim. Pela sarjeta, depois para o mar e por fim para a liberdade que tanto deseja, o bastardo. Mas não me escapará assim tão facilmente. Dir-se-ia que bate agora ainda mais forte numa batida Techno que alterna rapidíssima, graves abafados e agudos estridentes. Na realidade o som parece vir de cima e só quando olho de novo para o alto da rua e vejo o automóvel que a desce,  me apercebo que é o rádio dele e não a fúria do meu maltratado órgão que produz semelhante ribombar. Traz a  bordo outros náufragos e eu, numa cumplicidade patética, pois continuo com o coração entre as mãos, sorrio-lhes. E quando o espelho retrovisor me golpeia violentamente atirando-me seco para o asfalto molhado, decido simplesmente ignorar o facto e retomar a difícil subida do Alecrim. O coração, esse, em vôo livre foi mesmo enfiar-se numa sarjeta e sei que nunca mais o verei. Pois seja. Melhor assim. Que passe bem. Que se foda.

Já falta pouco. A Rua do Alecrim está a chegar ao fim mas é agora evidente que não chegarei lá a cima, à minha tão desejada Misericórdia. Sento-me no degrau de entrada de um pequeno prédio com a fachada revestida a intermitentes azulejos verde-garrafa e decorado com um complexo entrecruzar de cabos eléctricos e canalizações que aparentemente não souberam encontrar outros caminhos mais interiores. Estreito e inclinado para a frente como que numa vã tentativa de se inteirar do que se passa lá em baixo com o rio, sinto que este prédio é coisa viva e que de alguma forma me envolve e protege. De repente assalta-me a exaustão. Encosto a cabeça à ombreira da sua porta. Com uma curiosa calma interior, apercebo-me de um pequeno fio de sangue que me sai da orelha, me desce pelo braço esquerdo e que me percorre depois as costas da mão seguindo as ondulações azuis das suas veias até chegar à ponta do polegar indo-se depois perder, gota a gota, vermelho pompeia, por entre as pedras brancas da calçada molhada. Do outro lado da rua vejo a entrada de um café. Nunca ali tinha notado aquele café. Parece ter aberto neste instante e o cheiro folhado dos pasteis de nata, que com certeza acabaram agora mesmo de desenfornar, atravessa a rua sem olhar, para depois vir lamber, em caracóis perfumados, as rudezas da minha alma maltratada. E vêm-me então as lágrimas aos olhos. Isto porque percebo que é aqui. Que vai ser agora.  E também porque me apercebo que à mais de dez anos que não chorava. Nem uma lágrima. E isso, é já por si, um bom presságio.

Talvez ainda fosse capaz de comer um último pastel de nata. Isto se conseguisse chegar ao outro lado da rua. Talvez. Jamais o saberei. Na verdade caros amigos, eis que, da escuridão do café que até hoje nunca tinha notado, a vejo sair ligeira. E tal como o perfume dos tais pasteis acabados de desenfornar, vem-se agora enrolar à minha volta, nesta ombreira de porta, nesta rua que é do Alecrim, nesta manhã que não para de nascer. E vem desarmada. Sem foices ceifeiras nem espadas em riste afiado. E meus amigos, juro-vos que é bela. Belíssima. E asseguro-vos que dos Desoxyns já nada resta. Dou-lhe agora a mão. É morna e macia e seca. Sinto-lhe os lábios tão perto do meu ouvido. Com a língua tépida lambe-me um resto de fio de sangue. E então, sinto a sua voz quente. Um simples sussurro que enche o vazio que me vai pelo peito. Olá meu amor. Bom dia.

Fotografia: Paulo Flop, 2011

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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18 respostas a Lisbon Gonzo

  1. ~CC~ diz:

    Que belo!
    ~CC~

  2. Rita V diz:

    Vasco
    estou mesmo sem palavras
    até me deixava levar também

    • Vasco Grilo diz:

      Para si estar sem palavras não penso que seja um problema… basta-lhe fazer dois riscos e já está…

  3. heloisa diz:

    Tudo bonito demais… texto, foto, musica!!

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Que viagem, ( ou mesmo “trip”) , mesclada nas ruas de Lisboa! E que morte sedutora e sensual, como gostaria que viesse a ser a verdadeira…

    • Vasco Grilo diz:

      Curioso, eu imaginei-a mais como a Lauren Bacall. Mas a Jessica Lange ou mesmo a Charlize Theron também podiam entrar no casting.

  5. Sara Augusto diz:

    Será que outra cidade faria o mesmo efeito?! Um abraço! Gostei de ler.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Bela história de desagregação e morte – bem amável, por sinal.

  7. Belo texto, Vasco.

  8. Ana Rita Seabra diz:

    Sem palavras.
    Lindíssimo este seu texto

  9. Vasco Grilo diz:

    Cuidado pois que há uns que matam…

  10. Carlinhos diz:

    Quantas subidas por essa rua…felizmente nunca me saltou o órgão!
    Muito bom Vasco

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