Lista de ir às lágrimas

ali onde eu chorei, qualquer um chorava

Tomei-lhe o gosto. Às listas. Agora é que estão todos bem tramados. Esta é a segunda e explico-me.

Já se sabe que todo o homem chora. E porquê? Porque um homem não chora. O que torna singular, diria excepcional, o homem que chora é o facto indiscutível de um homem não chorar. Parece parva a explicação? É parva. Mas é, lamento, verdadeira. Tentar explicar a coisa doutra maneira ou é intelectualice ou mariquice pé-de-salsa, como a minha mãe me ensinou.

Como um homem não chora, um homem sabe todas as vezes em que chorou. E tem sempre a desculpa da canção brasileira: ali onde eu chorei, qualquer um chorava…

Nada disto se aplica ao chorão. O chorão é um coninhas. Será, nesse caso, uma flor ou, vá lá, uma árvore, que na verdade nem sabe se chora ou não chora. O chorão derrama-se para cima de um rio ou de um lago e já está. Esses, quanto mais choram, menos mijam.

Deixando de lado algumas vezes que chorei e que não vêm, na bloga, ao caso (fica para quando nos conhecermos melhor), chorei ou choro assim.

 Chorei:

– De raiva, por ter levado bem mais do que dei na primeira luta de bofetadas na primária. Não era o que me doía, era o que não tinha feito doer.

– Quando, já muito mais velho, coração atafulhado de angústia, vi os miúdos do “E.T.” pedalarem as bicicletas pelo céu acima, fugindo aos terríveis, desconfiados e desingénuos, maus do filme. Oh pá, vingaram-me! Vingaram todas as vezes em que, na infância, os “maus” nos apanhavam e castigavam.

– Quando tive a primeira negativa a matemática. Foi no mais belo dos liceus, o Salvador Correia, em Luanda, mesmo ao lado do jacaré que havia no pátio interior em frente à sala dos professores. Vá lá, arranjem-me um liceu em qualquer parte deste circo que é o mundo, que tenha crocodilos verdadeiros com que um miúdo em apuros possa partilhar mágoas científicas!

– Quanto vim estudar Direito para Portugal, antes do 25 de Abril, e o meu bando (uma alcateia!) de amigos se foi despedir de mim ao aeroporto. Descobri, mais tarde, que havia uma cena assim no “American Graffitti” do George Lucas.

– Quando o John Wayne, no “Wings of Eagles”, paraplégico numa cama de hospital, repete à exaustão, com o ruivo e camarada Dan Dailey, “I’m gonna move that toe”,  “I’m gonna move that toe”, “I’m gonna move that toe” e, de repente, o filho da puta do dedo mexe-se.

– Chorei – quero que se foda, vou dizer – chorei, em Angola, no dia da independência de Angola. Desse lá por onde desse (e deu o que deu), libertavam-se algemas.

– Chorei quando joguei pela primeira vez pela equipa dos mais velhos e me deixaram marcar o penalty em que mandei bola para um lado, guarda-redes para o outro. No campo dos Maristas do lado de lá da Estrada de Catete.

– Uma escondida lágrima quando, num camarote cheio de ingleses, lhes ganhámos no Estádio da Luz, no Europeu de 2004.

– Quando um sublime SLB aviou – toma, toma, na peida! – o Arsenal em Wembley.

– A ler. Não digo o quê. É fácil dizer que se chorou no cinema, e já disse, mas dizer quando é que se chorou a ler, é mariquice. Chorei a ler e prontos!

– Chorei, adolescente estúpido e preguiçosamente ficcionista, no porto de Luanda, a ver chorar uma italiana numa espécie de André Doria que por lá passou, sabe Deus porquê. Eu no cais, ela lá em cima, no convés, a parecer-me a mais bela das mulheres. Tenha-se em conta que a minha então recente miopia pode ter fabricado as lágrimas dela e as tão falsas que eram minhas.

– Quando o Carlos Lopes ganhou a maratona em Los Angeles.

– Quando vi, pela primeira vez, Paris da janela do avião. Tive a sorte, ou talvez fosse sempre assim naqueles tempos de Orly, de ver o Sena, a Torre Eiffel, a sumptuosa disposição da cidade, a sua tão fina e elegante cintura a oferecer-se à minha mão.

E em apêndice, fiquem a saber que Choro:

– Quando toca, heróis do mar, a treta do hino. O nosso. Às vezes a Marselhesa.

– Sempre que vejo a imagem do Eusébio a chorar no Mundial de 66.

– Sempre que uma banda de aldeia ou vila passa a tocar na rua (de tão surdo que sou a música dá cabo de mim).

Há mais, mas a lista já vai longa e isto começa a parecer uma enxurrada: o que é de mais também enjoa, mesmo nestes tempos de seca.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Lista de ir às lágrimas

  1. Luciana diz:

    Manuel, caro, suas listas me deram saudades das que nem fiz. Vou tratar, talvez em um baião de dois (e só Orcama, talvez, entendesse).

    Mas, e se o choro for assim? http://www.youtube.com/watch?v=lC-ad1GBY58

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Duas em comum: O Lopes a dar duas voltas à pista com a bandeira às costas; e o hino, claro…
    A Marselhesa nem pensar (bem mais o Eusébio…).

  3. manuel s. fonseca diz:

    Vejá lá, Princess, que me saiu tão natural que nem dei conta… As mulheres choram, pois choram. E quando é que as mulheres não choram mesmo? Dá post, dá post, tenho a certeza.

  4. pedro marta santos diz:

    Várias em comum. O hino nunca falha. E o “Wings of Eagles” não é o filme mais comovente que quase ninguém viu? (ainda por cima é autobiográfico; foi por causa do que lhe aconteceu que o Frank “Spig” Wead começou a escrever guiões)

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Eu acho que os homens choram sozinhos sem que ninguém os veja, e por isso se diz que um homem não chora…a lista é mesmo de chorar…por mais(?)….

  6. Ana Rita Seabra diz:

    Que delícia de lista Manuel!
    Ouvia por aí – “Homem que chora não é Homem”
    Eu digo – adoro os homens que choram

    • Manuel S. Fonseca diz:

      O famoso motto “UM homem não chora” é usado por nós, homens, como uma lei que, logo a seguir, todos os homens subvertemos para podermos apregoar o quão sensíveis nós somos. Não se deixe enganar, Ana Rita, nós somos uns fingidos! Mais fingidos do que o fingido do Fernando Pessoa.

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