Lista sentimental e um pouco lamecha

Bryan ferry a assobiar no tema roubado a John Lennon: Jealous Guy; Mastroianni a acenar para a rapariga loira e vestida de negro, ali, no outro lado, inacessível, no final de La Dolce Vita, uma das mais belas cenas que o cinema, todo o cinema, criou.
O cheiro da broa em terras minhotas, que depois comíamos com manteiga a derreter-se nos grãos de milho, ainda não totalmente desfeitos.
O musgo que cresce no granito húmido da serra, quando a vida adulta já espreita do alto das árvores, e descobrimos o amor como uma clareira na floresta.
O cheiro do mar empastado na roupa.
O ” Fall ” em New Hampshire, ou um mundo pintado de cores de sangue, quentes, numa sinfonia que lembra os quadros de Hans Hoffman.
Jimmy Page no melhor blues branco de sempre “Since I have been loving you”.
O início despretensioso de um dos romances que transformou para sempre o mundo :  “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.”
Uma noite de muitas, imensas, imperiais na praia da Salema, com o céu como cabeça e o mar sempre ali ao lado. O por do sol nas Berlengas.  A pequena casa dentro das ruinas da catedral, na última cena de “Nostalguia”; o jovem Lincoln em contraluz de sombra avançando para o seu futuro de morte , no filme de John Ford  “Young Mr.Lincoln”.
Andar junto ao mar, descalço, já com o sol a cair e o mundo lá fora a desaparecer, porque todo o universo estava ali, no tocar de um braço nu, queimado pelo sol.
Bach e a Paixão de São João, os desenhos que fiz das minhas filhas , com poucos anos de idade, testemunho único da beleza que é o suave passar na felicidade do tempo.
Mick Jagger a entrar em palco em Madrid, em 1982, com uma túnica arroxeada, sobre a chuva quente e húmida de Julho, para cantar “Under my thumb” a primeira musica do concerto.
As caras magricelas na nossa fotografia de casamento, os tempos em que só havia quatro canais, ou que a televisão era a preto e branco, e cheia de grão.
O medo de acabar alguns livros, o final de todos os grandes romances.
A melhor dedicatória de todas ” to whom it may concern” (John Cage em ” Silence”).
O espaço central do museu de arte romana em Merida, que me fez entender que ser arquitecto não é uma opção.
A tristeza do par Newman/ Laurie no filme “The Hustler”, que nos faz sentir mais felizes; a neve a cair branca, na noite baça de preto, silenciosa, numa varanda em Providence, Rhode Island.

As crianças que saltam pela duna abaixo, absolutamente branca, sobre o mar transparente azul, em Kaos dos Tavianni, que aqui fica para que a lista não se eternize…

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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14 respostas a Lista sentimental e um pouco lamecha

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Bela lista, Bernardo, vários ‘estados’ fizeram eco (ou ricochete) em coisas que sinto.
    Na relação existencial, filosófica, física, com a praia, somava-lhe o perfume especial e um pouco acre que se sente nas dunas, lá para Setembro, num calmo fim da tarde.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      António, haverá sempre muito a acrescentar, ou não fosse a vida uma aventura que vale a pena viver, digo eu…Obrigado e até breve…aqui ou no Douro…???

  2. António Eça de Queiroz diz:

    (O ‘trailer’ é demoníaco de bonito)

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Eu gosto do primeiro “salto” e o Mozart que começa….arrepio sobre o azul…

  3. Ana Rita Seabra diz:

    Linda e maravilhosa lista!
    E esse final arrebatador, com o iluminado branco misturado com o azul do mar

  4. rita vaz pinto diz:

    Lista bonita. Vivida e saboreada. Não lamechas mas com saudade.
    E a alegria da corrida para o mar azul. Muito bom!
    beijinhos

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      É isso mesmo a saudade a correr para o futuro, o passado só não chega….

  5. pedro marta santos diz:

    Grande lista, Bernardo.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Obrigado Eugénia, foi uma lista de rompante…mar e magricelas…talvez desse qualquer outra coisa….

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    E a sensação de que tanto ficou de fora….

  8. ~CC~ diz:

    É um exercício tão bom, não é?
    Obrigada Bernardo.
    ~CC~

  9. manuel s. fonseca diz:

    Da broa ao Jimmy Page, do Cage ao Young Lincoln é um tratado de bem gostar.

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