Memórias Difusas de Cidades: Los Angeles

David Hokney Portrait of an Artist (Pool with Two Figures)  1971

O mundo desmorona-se em ruídos estridentes, e o coração desfaz-se em lágrimas passadas nos passeios regalados sobre o oceano espelhado, com o verde das folhas altas das árvores a pintar sombras nas pedras luzidias de um chão que cobria, corrido, todo o mundo. Era há muito tempo, quando ainda não sentia o peso seco que encarquilha a pele branca.

Sobre o mar a arriba sente-se amarela e virgem, o som do mar quebrado em branca espuma é só, afinal, silêncio, longe do ouvido, espreitando o Pacifico que se estende sem fronteira no horizonte longínquo.

Por entre as ruas de uma lânguida azáfama e mulheres esbeltas, os olhos fixavam janelas e portas coloridas, na sonolência do sol, sobre panos de paredes claras e lisas, e rostos que olham em varandas abertas, sorrindo a vida num troço de tempo.

A luz lembra a casa deixada para trás, e há eucaliptos e pinheiros, junto ao mar.

O Hokney refugiava-se em garrafas frescas de vinho branco, que lhe enchiam o frigorífico, conduzindo depois tardes a fio no “convertible” vermelho pelos arredores de LA. Nós contentávamo-nos com uns belos copos de tinto, descobertos pela sorte, num café reles de esquina, a olhar o sol que caía, todos os dias como se fosse o primeiro, sobre a praia de Santa Monica.

Era uma certa felicidade de estar tudo tão longe e uma certeza que não existia tempo, nem a idade do mundo se definia pelos anos que passam. Eram risos entre portas abertas, uma saia, que levantada, nos abria o céu.

Chegado a casa, sobre a colina verde, olhava na penumbra a janela de luz, o amor sentido pelo corpo cansado.

Eram tempos corridos, de face acordada no “Canyon” verdejante, com a caída da noite o olhar que se apaga. Entre as palmeiras finas e esguias de sensualidade, trocavam-se carícias, as bocas abertas em palavras de gestos. Sem som e sem nada.

Quebrava-se o tempo, no meio da estrada, esvai-se o amor numa cama de prata.

A cidade dos anjos abençoada por asas.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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9 respostas a Memórias Difusas de Cidades: Los Angeles

  1. rita vaz pinto diz:

    As tuas memórias desta cidade dos anjos estão impressas nas cartas que me escrevias e nas conversas telefónicas que tinhamos. Para mim quem tinha asas eras tu e é bom ter em mim uma parte das tuas memórias.
    bjs

  2. pedro marta santos diz:

    Deu-me muito prazer ler-te, Bernardo. E trouxe-me gratas recordações.

  3. Rita V diz:

    uns fazem música com instrumentos
    O Bernardo … com palavras

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Obrigado Rita por tão simpático comentário, se me visse veria que estou a corar….

  4. manuel s. fonseca diz:

    Parece ter sido a algum tempo, podia ter sido agora, não? É tão longe L.A. e é tudo tã longe em L.A., cidade em que só há distância e não existe o tempo.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      E um pouco isso Manuel: um tempo que se estica como as enormes auto-estradas e se desvanece…

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Eugénia, não é uma cidade fácil, na sua enorme extensão que parece não ter fim, mas há algo de sonho no cerco que as montanhas fazem, e na costa do pacifico, nas alamedas delineadas por palmeiras…mas já estou a “inventar” uma LA que se calhar não existe…

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