Memórias difusas de cidades: Luanda

 

                                                     Luanda, março 2012

As torres de vidro erguem-se, orgulhosas e altivas, como palmeiras secas e sem folhas ainda cobertas do pó que se levanta na cidade. Um pó vermelho que no ar é neblina.

A baía como um lago espelhado, de chumbo, liso e opaco, onde se reflectem os edifícios da cidade.

Elas passeiam-se, bonitas e elegantes de queixo no ar, pristinamente vestidas, orgulhosas das roupas que compram com o dinheiro da comida. Aqui um salão de beleza, ali mais outro, mesmo no “musseque” os cuidados na imagem do corpo têm lugar prestigiado.

Tudo o resto é ainda confusão e barulho desorganizado. Sente-se a névoa de uma guerra que ainda o é, violentando os prazeres das bonitas caras que se abrem em sorrisos brancos perfeitos. Nos olhos profundos, riscados de um fio vermelho de sangue, a pele escura que não reflecte a luz assusta-nos pela sofreguidão que sentimos no viver.

Nas ruas as diferenças gritam entre si, sem se ouvirem no meio dos ruídos. Há quem carregue a miséria num “bidon” de água suja, quem gaste num dia a felicidade de uma vida. Há feridas que nunca se curam, há feridas cujas cicatrizes se tornam em outras feridas. Há homens que se tornam feridas, e povos cicatrizados. E cicatrizes que renascem em fúria de existir.

Por baixo de tudo uma alegria rica de poder viver, de poder acordar sem sentir o cheiro podre da matança. A brisa leve que põe a mexer as folhas gordas das bananeiras.

Luanda, fora da estação do cacimbo tem céu mais azul, e menos névoa na manhã. Tem a vida forte e bela, de quem sabe que já andou na guerra.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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6 respostas a Memórias difusas de cidades: Luanda

  1. Ana Rita Seabra diz:

    No meio do caos (como te referes à cidade), achei muito bonita esta descrição de Luanda.
    Gostei muito

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      ” There is always a little bit of heaven in a disaster area” é uma frase do filme Woodstock…que aqui se podia aplicar….

  2. manuel s. fonseca diz:

    Tive a vontade, que não costumo ter, de lá voltar. Sedutoramente descrito, Bernardo.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Nada será igual para quem a conheceu antes da guerra, calculo eu. Há uma enorme força natural, intrínseca mas também uma desigualdade que destrói todo o tipo de humanidade…as palavras saíram-me um pouco mais alegres, e pelos vistos sedutoras…

  3. Fernando Vale diz:

    Há uns anos já, estava eu no bar do Trópico e ouvi na mesa ao lado um diálogo de gente do PNUD, falando bem alto das vantagens e regalias dos seus respectivos estatutos, sendo que no fim um dos intervenientes considerou Luanda em duas palavras: “Tristeza tropical”. Não é só, mas também.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      É uma definição interessante “tristeza tropical”, talvez pensada só por quem já lá viveu ou nasceu…fiquei eu também a pensar o que é que pode ser relamente essa tristeza no trópico.

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